Escândalo da Covaxin, 517 mil mortes, suspeita de corrupção, popularidade em queda, inflação em alta, cenário sombrio no Congresso e pressão por impeachment.

Da RBA

Após o depoimento do deputado federal Luis Miranda (DEM-DF), a sustentação do governo de Jair Bolsonaro pelo Centrão – da qual depende sua governabilidade – está em xeque.

O quadro fica evidente pela declaração do deputado Marcelo Ramos (PL-AM), vice-presidente da Câmara, na segunda-feira (28), na qual questiona por que o presidente “não negou” que tenha ligado seu líder Ricardo Barros (PP-PR) ao rolo da vacina Covaxin.

Aliado poderoso de Bolsonaro, o presidente da Casa, Arthur Lira (PP-AL), disse que a decisão da CPI do Senado de enviar à Procuradoria-Geral da República (PGR) uma notificação contra o chefe de governo transferiu o caso da esfera política para a judicial.

“Agora é esperar as informações que vão para a PGR, o posicionamento do procurador e a gente acatar o que o procurador decidir”, disse, em tom enigmático.

Ontem (29), o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, mandou suspender o contrato de compra da vacina indiana.

Um recuo significativo, na opinião da deputada federal Jandira Feghali (PCdoB-RJ). “Contrato que não tem problema não se suspende. Ele existe e está feito de forma absolutamente irregular, prevendo pagamento antecipado com valor acima do mercado, participação de intermediários, sem autorização da Anvisa, sem comprovação de eficácia”, diz.  “É óbvio que tem interesses escusos por trás.”

Em meio a uma temporada de más notícias para o clã, Brasília ainda assistirá à chegada de mais um pedido de afastamento nesta quarta-feira (30). O chamado “superpedido de impeachment” é apoiado por mais de 700 organizações da sociedade e 11 partidos da esquerda à direita. E condensa 21 crimes que recaem sobre o presidente presentes nas outras 123 ações paradas na Mesa Diretora da Câmara. Leia-se Arthur Lira. Além disso, novas manifestações contra Bolsonaro estão programadas para o sábado (3).

Cenário obscuro

Ontem, a ministra Rosa Weber, do Supremo Tribunal Federal (STF), enviou à PGR o pedido de investigação de Jair Bolsonaro, por crime de prevaricação, apresentado pelos senadores Randolfe Rodrigues (Rede-AP), Jorge Kajuru (Podemos-GO) e Fabiano Contarato (Rede-ES). Nesse cenário obscuro, o procurador-geral da República, Augusto Aras, notório aliado de Bolsonaro, fica em uma “sinuca de bico”, na opinião do deputado federal Júlio Delgado (PSB-MG). “Se ele não acatar e não oferecer a denúncia no processo aberto pela Rosa Weber ontem, ele fica desmoralizado; se acatar, não será reconduzido ao cargo”, diz. O mandato de Aras termina em 26 de setembro.

“Está cada vez mais difícil o Centrão defender Bolsonaro”, na opinião do líder do PT na Câmara, Bohn Gass. (RS).

Somados ao escândalo da Covaxin, há outros fatores pesando na balança, na opinião do parlamentar. Entre eles, a popularidade de Bolsonaro em queda, o preço de alimentos, combustíveis, conta de luz e até ameaça de racionamento.

“Para completar, Bolsonaro se elegeu com discurso contra corrupção e agora, além de rachadinha, crimes com a Amazônia, tem o escândalo e superfaturamento na compra da vacina. Quem vai defender um governo se meio milhão de pessoas morreram e faltou vacina? É um governo indefensável”, avalia o petista.

Miranda continua como peça-chave

Bolsonaro “está cada dia mais refém do Centrão, a fatura vai ficar mais cara e, se ele ficar totalmente refém e não corresponder à fatura, o apoio que tem do Centrão pode implodir”, acredita Delgado. Para ele, isso chega no verdadeiro sustentáculo do governo, que é o mercado. Na visão do pessebista, se o mercado entender que Bolsonaro não vai sustentar a politica econômica e que seu governo politicamente vai “fazer água” ainda este ano, o presidente pode deixar de ser opção para 2022. “Então eles o abandonam e automaticamente o Centrão vai a reboque.”

Para Jandira, dois aspectos estão no tabuleiro: com o novo pedido de impeachment amanhã – com apoio de todos os partidos de esquerda e bolsonaristas de primeira hora – Arthur Lira terá um poder enorme para pressionar o governo. “Mas uma decisão dele depende de dois fatores: primeiro, que carta a mais Luis Miranda teria na mão. Por exemplo, uma gravação que comprove a conversa que teve com Bolsonaro (na qual o presidente teria citado Ricardo Barros). Segundo, o nível de pressão da sociedade sobre a Câmara, que tende a crescer muito.”

Também para Júlio Delgado, um enfraquecimento mais nítido de Bolsonaro “vai depender da comprovação mais firme do que foi dito”.


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O presidente da CPI da Covid, senador Omar Aziz (PSD-AM), disse em entrevista ao portal Uol acreditar que Miranda tem a gravação.

“Ele fala literalmente as palavras do presidente. É muito difícil você falar quatro meses depois como você falou literalmente”, disse.

O superpedido de impeachment que será protocolado amanhã terá apoio de movimentos sociais e entidades civis e tradicionalmente opostos ao governo. E vai além, com “reforços” de parlamentares ex-bolsonaristas como Joice Hasselmann (PSL-SP), Alexandre Frota (PSDB-SP) e Kim Kataguiri (DEM-SP).

“Na medida em que o governo (Bolsonaro) vai ficando mais fragilizado, não acredito que o Centrão acompanhe até a queda do abismo”, diz Jandira.