ONGs e sites de jornalismo ambiental denunciam que queimadas e derrubadas na Amazônia, Cerrado e Pantanal, transformando as florestas em pasto e plantações de soja,  são financiados por grandes empresas exportadoras e bancos no Brasil, Europa e  Ásia.

A  frase “Siga o dinheiro” (“Follow the money”) ficou conhecida durante a investigação feita pelos jornalistas Bob Woodward e Carl Bernstein do jornal Washington Post durante o caso Watergate, em 1973, escândalo que levou à renúncia do presidente norte-americano Richard Nixon. A principal fonte dos jornalistas era o ex-presidente do FBI (a agência americana de investigações) W. Mark Felt. Ele ficou incógnito por décadas, mas na época das investigações deu a dica para os jornalistas:“Follow the money” – sigam o dinheiro -, e descubram a corrupção no governo Nixon.

Uma série de sites ambientais também seguiu o dinheiro e descobriu que os principais frigoríficos brasileiros estão por trás da campanha desenfreada de desmatamento da Amazônia. Mas eles não estão sozinhos, foram financiados por bancos no Brasil e no exterior. Ou seja: toda madeira, ouro retirados ilegalmente na Amazônia, e toda floresta derrubada, queimada e transformada em pasto, para produção de carne, está abastecendo o mercado mundial, com financiadores na Europa, Ásia, Estados Unidos e no  Brasil.

Follow the money

Matéria assinada por Pedro Papini, Fernanda Wenzel e Naira Hofmeister, para o site DomTotal, mostra levantamento feito pela ONG Forests and Finance (F&F), que rastreou R$ 990 bilhões investidos entre 2016 e 2020 na produção de carne bovina, óleo de palma, papel e celulose, borracha, soja e madeira em três regiões do mundo e descobriu que mais da metade, R$ 560 bilhões, veio para o Brasil, sendo 42%, ou R$ 235 bilhões destinados à criação e abate de gado em áreas onde o boi suplanta a mata nativa.

Na Amazônia, onde dois terços de tudo o que é desmatado anualmente vira pasto, os jornalistas descobriram que o três frigoríficos com maior capacidade de abate (JBS, Marfrig e Minerva), receberam investimentos de R$ 59,5 bilhões entre 2016 e abril de 2020.

Noutra reportagem, no site Mongabay, assinado pela jornalista Sara Sax, e traduzido por Roberto Cataldo, outro estudo  – The rotten apples of Brazil’s agribusiness” (As maçãs podres do agronegócio brasileiro). – confirma que ao menos 20% da soja e pelo menos 17% da carne bovina exportadas para a União Europeia podem estar ligados ao desmatamento ilegal, segundo um estudo publicado na revista Science.

Esta constatação é reforçada pelo estudo , publicado na revista Global Environmental Change, que também constatou que países e empresas da União Europeia e da China que importam soja do Brasil impulsionaram o desmatamento, causando um aumento acentuado nas emissões de gases de efeito estufa, principalmente quando a soja veio de certas regiões.

“A China foi o maior importador mundial de soja brasileira de 2010 a 2015 e responsável por 51% das emissões de dióxido de carbono associadas, com a União Europeia responsável por cerca de 30%. No entanto, as importações de soja da UE (provenientes do norte do Cerrado) foram associadas ao desmatamento mais recente do que as importações da China, informa o levantamento.

Embora o desmatamento na floresta amazônica tenha atraído atenção global, uma nova onda de perda precipitada de vegetação nativa está sendo vista no Cerrado, bioma savana do Brasil, e é uma grande preocupação para pesquisadores de mudanças climáticas. As pastagens do Cerrado do Brasil estão sendo desmatadas em um ritmo alarmante para expandir as plantações de soja – junto com fazendas – para atender à demanda global.

 

Bancos desmatadores e multinacionais predatórias

De acordo com o levantamento do F&F, entre os 10 bancos e investidores com a maior exposição financeira em empréstimos e subscrição para empresas do setor de risco florestal no Sudeste Asiático, África Central e Ocidental e Brasil, estão o BNDES, Banco do Brasil, Bradesco e Itaú. Essas constatações são baseadas em pesquisas realizadas por forestandfinance.org usando essa metodologia para identificar empréstimos corporativos, crédito e linhas de subscrição fornecidas às empresas selecionadas.

Em 2016 o banco Santander foi multado em US $ 15 milhões por financiar safras cultivadas em terras desmatadas ilegalmente e, em 2018, alguns dos maiores comerciantes de soja do Brasil foram multados por comprar soja ligada ao desmatamento ilegal

Com dinheiro dos grandes bancos, os fazendeiros desmatam para áreas de pasto ou soja no Brasil e em outros países do Cone Sul,  e ficam ligados à dinâmica das grandes empresas exportadoras.

Pesquisa feita em 2019  pelo  Mapbiomas constatou que 99% do desmatamento não era autorizado. No caso do complexo soja, as multinacionais que comercializam estas commodities,são as chamadas empresas ABCD – ADM, Bunge, Cargill e Louis Dreyfus – que junto com a chinesa COFCO compõem os cinco maiores exportadores de soja do Brasil, e estão entre os 10 maiores exportadores de soja do Paraguai e da Argentina. Entre eles, eles comercializaram 53% de toda a soja exportada da Argentina, Brasil e Paraguai juntos em 2018. A Cargill e a Louis Dreyfus também exportam óleo de palma da Indonésia, enquanto a COFCO é um grande importador.

Análise publicada pela Trase, Imaflora e ICV em junho de 2020 revelou que 97% do desmatamento total em Mato Grosso entre 2012 e 2017 (1,7 milhão de hectares) não tinha licença de desmatamento do governo e, portanto, era ilegal. Um total de 380.000 ha de desmatamento em Mato Grosso em 2017 foi em fazendas que cultivavam soja – tanto na Amazônia quanto no Cerrado – da qual 95% eram ilegais pelo mesmo motivo.

No entanto, 80% do total do desmatamento ilegal vinculado à produção de soja ocorreu em apenas 400 fazendas, que representam apenas 2% do total de fazendas de soja do estado. Quase três quartos dessas fazendas eram grandes propriedades, conforme determinado pelo governo brasileiro (> 825 ha). A soja de diferentes fazendas geralmente é misturada para armazenamento, processamento e transporte, o que torna difícil diferenciar a soja produzida de forma sustentável da soja ligada ao desmatamento ilegal. Sem maior transparência nas cadeias produtivas, mesmo pequenas quantidades de soja dessas fazendas contaminam toda a cadeia produtiva e podem prejudicar a reputação de todo o setor de soja do estado.

Estima-se que 81% da soja cultivada nas fazendas onde ocorreu o desmatamento ilegal em Mato Grosso foi exportada em 2018, sendo 21% das importações da China do estado e 20% das importações da União Europeia provavelmente ligadas a fazendas com ilegalidades desmatamento.

O fato de a maior parte do desmatamento ilegal estar ligada a um pequeno número de fazendas oferece uma oportunidade concreta para uma intervenção eficaz por parte das empresas e do governo para resolver o problema e tomar medidas para acabar com o desmatamento ilegal, como um primeiro passo crítico para alcançar o desmatamento zero redes de fornecimento.

 

10% da vegetação foi destruída entre 1985 a 2019

Segundo novo levantamento do MapBiomas, 87,2 milhões de hectares de áreas de vegetação nativa foram destruídos de 1985 a 2019, o equivalente a 10% do território nacional. Essa área é maior que o tamanho de países como Alemanha, Inglaterra, Itália e Portugal somados. Ou 3,5 vezes a área do estado de São Paulo.. Mais da metade dessa destruição aconteceu na Amazônia. O Cerrado, no entanto, é o bioma proporcionalmente mais afetado.

Agropecuária é a principal vilã, responsável por mais de 90% de toda a degradação. Esta atividade se expandiu de maneira predatória em 78 milhões de hectares, com 43% de crescimento desde 1985.

O governo do presidente Jair Bolsonaro, no entanto, prefere ignorar a ciência, aporta recursos em satélites desnecessários e esvazia fiscalização.

Mais da metade dessa vegetação, 44 milhões de hectares, foi destruída na Amazônia. Já o Cerrado perdeu 28,5 milhões de hectares. Proporcionalmente, porém, o Cerrado foi o bioma que mais viu a sua área desaparecer, superando 21% do total da savana.

Gráfico: Imazon

 

Frigoríficos incentivam o desmatamento

Estudo feito pela ONG Imazon, em parceria com o ICV (Instituto Centro da Vida) no ano de 2017  perguntava: “Os frigoríficos vão ajudar a zerar o desmatamento na Amazônia?”.

O reltaório mostrava que já naquela época os frigoríficos da JBS ocupavam  isoladamente o topo do ranque de exposição ao risco, somando 4,6 milhões de hectares com algum tipo de risco nas zonas potenciais de compras de suas 32 plantas industriais na região amazônica, 21 das quais ativas.

Do total de áreas com risco, 1,7 milhão de hectares estavam embargados, 1,6 milhão de hectares eram desmatamento  ocorrido entre 2010-2015 e 1,2 milhão de hectares eram de florestas em risco de desmatamento entre 2016 e 2018.

A JBS assinou o TAC (Termo de Ajustamento de Conduta) se comprometendo a fazer  um controle dos fornecedores diretos, porém, a falta de controle da origem indireta do gado deixa a empresa vulnerável ao risco de compras indiretas de áreas de desmatamento recente ou de embargo. De fato, em abril de 2017 o Ibama acusou duas plantas da JBS de comprarem 49.438 cabeças de gado de fazendas embargadas  que forneceram gado indiretamente. A área total de risco nas zonas potenciais de compra da JBS foi aproximadamente três vezes maior do que a da empresa que ocupou o segundo lugar no ranque.

O frigorífico Redentor ocupou a segunda posição no ranque com apenas uma planta, mas em região com altos índices de embargos (965 mil hectares), de desmatamento recente (270 mil hectares) e com alto risco de desmatamento futuro (342 mil hectares). A planta está situada no extremo norte de Mato Grosso e sua zona de compra.

A JBS mantém um site com informações sobre origem da carne. Outras empresas também iniciaram ações buscando transparência sobre a origem da carne, porém os dados disponíveis ainda não atingem os fornecedores indiretos, são insuficientes ou foram descontinuados.

No segundo grupo, junto com o Redentor, há quatro empresas (3 registradas no SIF e uma no SIE) no topo de risco, que somam entre 1,2 milhão a 1,6 milhão de hectares sob risco. As outras empresas neste grupo incluem a Vale Grande (3), Frigo Manaus (1), Marfrig (5 plantas) e Mercúrio (2) (Figura 24).

No grupo seguinte de exposição ao risco identificamos 14 empresas, 10 registradas no SIF e 4 no SIE. Com exposição ao risco variando de aproximadamente 630 mil a 995 mil hectares, as empresas localizadas neste grupo buscam gado em regiões com alta incidência de áreas embargadas ou com altos índices de desmatamento recente, por exemplo, a Brasfri, em Mato Grosso, e a T. M. da Silva de Carvalho, no Pará. As quatro empresas com registro no SIE (todas no Amazonas) neste grupo se destacam por comprar animais de longas distâncias em áreas com altos índices de desmatamento recente em Rondônia e no Pará.

As empresas nos ranques subsequentes (com menos de 630 mil hectares sob risco) têm características distintas em relação aos indicadores avaliados. Por exemplo, a empresa Fribal, com duas plantas no Maranhão, está exposta a riscos intermediários de desmatamentos recente e futuro e atua em áreas com baixos índices de áreas embargadas. Há também nesta classificação frigoríficos que atuam em áreas com alto histórico de desmatamento, atuando assim em áreas com baixo ou nenhum remanescente florestal, como o Frigorífico Rio Maria, no Pará. Chama a atenção neste grupo intermediário e também no grupo de baixo risco a concentração de 88% das empresas que não assinaram TAC.

O grupo de empresas com zonas potenciais de compra com menor risco (com 651 hectares a 50 mil hectares de áreas sob risco) inclui desde pequenas empresas com mercado local (p. ex., frigorífico J. P., no Acre, que atua até uma distância máxima de 20 km, com registro no SIE) até empresas médias, mas que atuam em zonas com alto desmatamento acumulado antigo e, portanto, com baixo remanescente florestal (p. ex., Casfrisa e Arrudão, em Castanhal-PA), ou que atuam em zonas dentro do bioma Cerrado (p. ex., frigorífico Boi Brasil, o único com registro no SIF  (Serviço de Inspeção Federal,) no grupo, instalado em Alvorada-TO).

Gráfico: Imazon

Fontes:

Trase

Mapbiomasorg

Mongabay

DOMTotal