Presidente da AGI (Associação Goiana de Imprensa) o jornalista Valterli Guedes alerta que numa democracia todos gestores públicos estão sujeito a críticas e a prestarem contas dos seus atos, sejam eles civis ou militares.

Confira o artigo:

DEMOCRACIA É O DIREITO DE NÃO TER MEDO
Valterli Guedes

São muitas as definições de Democracia. Na prática, no dia a dia das pessoas, creio que o direito de não ter medo seja uma definição adequada, de fácil compreensão. Capaz de assegurar o que mais interessa: o exercício da cidadania.

Durante a mais cruel das ditaduras brasileiras (1964/1985), e em especial no período em que vigorou o ato institucional nº 5, o medo imperou no Brasil.

Quem naquela época militou na imprensa cobrindo a política sabe disso. Os que viveram esse período frequentando uma faculdade, também. Dentro de cada sala de aula pelo menos um dos alunos pertencia à polícia política. Tipo SNI, ou Polícia Federal.

Professoras e alunos geralmente sabiam quais eram esses ‘’colegas’’. Mas ninguém comentava. Até porque sabia-se do potencial de consequências o simples tocar no assunto.
O comunismo, porque existia a União Soviética, era um pretexto forte para o endurecimento do regime. Se hoje, quando o comunismo está reduzindo a atração turística (Cuba, por exemplo), ainda serve de argumento para medidas adotadas por governos, imagine naquela época.

Então, os que dominavam a administração consideravam-se donos não só do país, mas também da vida das pessoas.
Lembro que numa aula na faculdade de direito da UFG, quando o professor discorria sobre os diversos sistemas de governo e um aluno pediu definição sobre ‘’o nosso’’, a resposta foi evasiva: ‘’o nosso é um regime especial’’.

Nos dias atuais existe autoridades querendo desfrutar de um ‘’regime especial’’. Como quando um ministro de estado se dirige ao Supremo Tribunal Federal querendo meter medo, prometendo ‘’consequências imprevisíveis caso alguma decisão seja adotada’’. Que decisão? Determinar a apuração de gastos dentro do Palácio Presidencial, com a manutenção do chamado ‘’gabinete do ódio’’? Dinheiro do contribuinte usado para pagar assessores cuja missão precípua é produzir mentiras e difundi-las nas redes sociais?
Mentiras enaltecendo o governo e que desgastem a oposição!

No momento em que o mundo reage à violência do poder, como nos protestos contra a morte de George Floyd em Minneapolis, vemos generais palacianos, no Brasil, querendo meter medo em ministros do STF. É algo inconcebível. Se vivemos numa democracia duramente conquistada, todos devem estar a salvo da violência por motivos políticos ou de opinião.

Desde o mais simples cidadão, ao magistrado mais graduado.

Pergunto: Numa guerra externa, de que vale um general desses?

Então, se ameaçam só porque empunham um revólver, a uma autoridade desarmada, ou a um operário, isso é crime de lesa democracia. Democracia, definida de tantas maneiras, é, antes de tudo, o viver sem medo.

Poder manifestar o que pensa e decidir segundo as próprias convicções é desfrutar da democracia.

Lutemos pela prevalência desse direito.

(Publicado originalmente  no DIÁRIO DA MANHÃ, de Goiânia em 15/07/2020).