Paulo Chapchap, diretor-geral do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, um dos melhores do Brasil, fez uma live sobre a pandemia fechada para clientes do Private Banking do banco Itaú.

A perspectiva é de guerra.

Os highlights:
Brasil vive agora o seu pior momento na pandemia em termos de óbitos, hospitalizações e casos.

No Sírio, o pico foi de 135 em julho, agora está em 215. Há muitos pedidos de transferência e não temos como atender.

Cancelamos todas as cirurgias eletivas.

Portugal teve um pico de 18 mil pacientes infectados por dia, o que é muito pior do que o Brasil ajustado pela população. Mas tomaram as medidas e contiveram a pandemia. Medidas muito duras por 6 semanas.

Sabemos como lidar, mas não estamos fazendo. Não demos importância às vacinas, e agora ficamos para trás na vacinação.

Temos sobra de capacidade logística e capacidade de aplicação, mas não há vacinas disponíveis para acelerar.

Cepa brasileira P1: tem uma das mutações detectadas no Reino Unidos, mas com outras mutações. É mais infectante, talvez isso explique o aumento de contágios. As vacinas parecem ser eficazes contra ela.

Saiu um trabalho indicando que a cepa inglesa é 2 vezes mais letal. Ainda não sabemos da P1.
P1 já é predominante hoje no Brasil. Não contivemos a movimentação de pessoas no Brasil quando ela apareceu. Quando transferimos pessoas de Manaus pelo Brasil quando ela apareceu, não a contivemos em AM. As pessoas viajaram em avião de carreira para ter assistência noutros locais, acelerando seu espraiamento pelo país.

Estamos vendo jovens morrendo, simplesmente pelo fato de que há muito mais jovens contaminados. Medidas que precisam ser tomadas: usar máscara sempre que estiver próximo de pessoas que não moram com você. Essa é a medida única mais importante, diminui muito, quase a zero, a possibilidade de contágio.

Eu estou nos hospitais todos os dias, mas uso máscara e não fui infectado. Convivo com meus pais, com mais de 90 anos. Uso máscara e os vejo em ambientes arejados.

Não como na mesma mesa que eles e mantenho uma distância segura. Doença deixa sequelas em todos os órgãos do organismo, embora os mais importantes sejam no pulmão. Há sequelas cognitivas, pessoas perdem olfato e paladar. Coágulos podem gerar isquemia. Doença é grave, pode acometer todos os órgãos.

Tratamentos e medicamentos que não têm efeito geram efeitos colaterais. Tenho paciente que precisa de transplante de fígado por ter usado de ivermectina. Está comprovado que cloroquina não tem efeito.

Fujam dos médicos que preconizam isso. Remédios que ajudam não são antivirais, mas anticoagulantes e corticóides, mas no momento certo.

Se continuarmos fazendo o que fazemos vai piorar. Estamos perto do esgotamento do sistema de saúde. Se isso acontecer, casos de média gravidade podem levar a óbito. Podemos chegar nessa situação, seria catastrófico.

Se não restringirmos mais o contato entre as pessoas sem máscara em ambientes pouco ventilados, vai haver a catástrofe. Questões críticas: restaurantes, bares e festas. Restaurante é crítico porque as pessoas tiram a máscara para comer.
Imunidade de rebanho seria alcançado com 60% a 70% da população imune. Com vacina com eficácia de 50% tem que vacinar 100% da população vacinável.

Reinfecção: pode acontecer, na grande maioria dos casos por novas variantes. Imunidade natural é mais fraca do que a conferida pela vacina. É fundamental se vacinar quando for possível.

As duas vacinas disponíveis conferem imunidade contra a P1, mas não sabemos ainda o grau de imunidade.

A recomendação é tomar qualquer vacina assim que estiver disponível. Tudo indica que será necessário tomar outras vacinas, assim como fazemos coma gripe.

Ir à praia ou ao parque, desde que não haja aglomeração, o risco é perto de zero, mesmo sem usar máscara. Lockdown: não seria necessário fazer todo mundo ficar em casa. Por segurança, minha recomendação seria permitir as pessoas saírem com máscara. Praia e parques abertos. Eu fecharia restaurantes e bares e proibiria eventos sociais. Faria essas medidas por 2 a 3 semanas.

Governo deveria transferir recursos para bares e restaurantes para evitar que quebrem. Brasil não fechou direito, e por isso teve que ficar fechado tempo demais.

Nossa liderança passa mensagens dúbias, isso faz com que as pessoas não adotem as medidas necessárias. Quando o presidente diz que não precisa usar máscara muita gente segue (é sempre melhor seguir quem preconiza medidas que exigem menos sacrifício).
É um absurdo manter os templos funcionando. Eu preconizava deixar escola aberta, mas com uso de máscara. Mas agora tem que fechar, a situação é crítica.

Tenho 36 pacientes que pediram transferência para o Sirio e não estou atendendo. Hoje de manhã não tinha nenhuma vaga em UTI.
Estamos convertendo o maior número possível de leitos, mas o sistema não aguenta um tsunami. Em nenhum lugar do mundo

Não quero ser alarmista, mas estamos perto de um colapso. Está na hora aprofundarmos as medidas. Tem que ter medidas fortes por 2 a 3 semanas. É melhor fazer medidas duras por pouco tempo.