No último domingo (14), às 8 horas, o Brasil tinha 42.802 mortes por coronavírus. A taxa de ocupação de leitos da UTI oscila acima de 70% em média no país, caso da Bahia, e alguns estados como São Paulo e Rio de Janeiro já se aproximam dos perigosos 90% de ocupação.

A pandemia no país explode sem contenção. Já é o segundo maior em número de casos no mundo, só perde para os Estados Unidos. Já ultrapassou o Reino Unido e ostenta o segundo lugar em número de mortes diárias. A taxa de contágio continua acima de 1, o que indica transmissão fora de controle. Os testes da população são irrisórios e é notória a subnotificação no registro oficial de pessoas doentes ou mortas. Os especialistas calculam que os números reais são pelo menos seis vezes maiores.

O Brasil caminha célere para ser o campeão dos recordes negativos possíveis da pandemia, alguns já alcançados: a proliferação rápida, a comunicação oficial trôpega e mentirosa. É o único país no mundo em que um governante terraplanista incita a desobediência civil.

Até onde vai a mente insana de Bolsonaro? Politiza a morte dos brasileiros sob o falso argumento de que os governadores e prefeitos estão construindo hospitais sem necessidade. Ele pede que as pessoas invadam hospitais de campanha, filmem e mandem para ele. Incita a desordem e põe em risco a segurança dos hospitalizados. Bolsonaro investe contra e persegue os entes federativos que não lhe dizem amém. E ainda diz que são mentirosos os dados da pandemia divulgados pelas secretarias estaduais.

A expansão da Covid-19 segue no Brasil em ritmo acentuado l Fonte: Financial Times

O apagão da saúde

Há mais de mês, autoridades de saúde e cientistas do mundo todo alertam sobre a tendência de que o Brasil se torne o próximo epicentro global da pandemia, posto atualmente ocupado pelos Estados Unidos. Os dados projetam o pico do caos brasileiro para meados de agosto.

A Casa Branca de Donald Trump, ídolo-mor de Bolsonaro, publicou refinado estudo sobre a situação mundial e projetou que, “se nada mudar”, o Brasil será o país com mais mortos do mundo e também com maior número de mortes em um dia. As projeções indicam que podemos chegar a 5.000 óbitos por dia em julho. Os americanos estimam 150 mil brasileiros mortos até agosto.

O país vive um apagão no setor da saúde, protagonizado por um governo que desdenha da vida. E ainda tenta esconder das estatísticas o real número de mortos pela Covid-19. Por isso, um conglomerado de veículos da imprensa tornou-se a fonte mais fidedigna dos dados sobre a doença, devido à falta de transparência do governo federal.

O presidente já trocou dois ministros da Saúde e transformou o Ministério em um bunker avançado de militares que tratam a pandemia como reza a cartilha do chefe (“é apenas uma gripezinha!”). Um presidente que defende a tese aloprada de que a cloroquina é a panaceia da hora, como se fosse a “deusa da cura”, da mitologia grega.

Desemprego cresce junto com a ausência de medidas do governo para combater acrise provocada pela pandemia l Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

Os recursos não chegam

Enquanto outros governos tomam atitudes enérgicas de contenção do vírus e adotam medidas de grande impacto econômico para proteger as pessoas e as empresas, o Brasil tergiversa e perde tempo com as diabruras de um presidente sem nexo e um governo sem planos para salvar vidas. Guedes e Bolsonaro apresentaram um tímido pacote de medidas que não leva em consideração a real paralisia da atividade econômica no país. O desemprego já atinge 13 milhões de pessoas.

Encurralado e envenenado pela própria inoperância suicida, Bolsonaro politiza e tenta desestabilizar os governadores e prefeitos, cuja conduta tem sido a inversa do presidente e que, mesmo com parcos recursos locais, seguem orientações e protocolos de saúde. Ressalte-se que até agora o governo federal retardou a ajuda financeira aos estados e municípios, especialmente os do Nordeste.

O governo não injetou o dinheiro necessário para ajudar uma economia paralisada em quase todos os setores produtivos. Ao contrário, retardou enquanto pôde o pagamento do auxílio emergencial. Não facilita créditos imediatos muito menos o acesso rápido dos benefícios destinados às micros e pequenas empresas, as mais prejudicadas.

O perigoso fim do isolamento

Bolsonaro prega fim do isolamento social quando os números e a ciência indicam que ainda estamos em fase de disseminação progressiva da doença. Alguns estados já fraquejam e, pressionados pelo poder econômico, e pelas ordens estapafúrdias emanadas do governo federal, começam a flexibilizar perigosamente as medidas de distanciamento social.

Vejam só. O relaxamento da quarentena no estado de São Paulo, por exemplo, poderá provocar um aumento de 71% no número de mortes causadas pela Covid-19 até o início de julho, alertaram nesta segunda-feira (15) os pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e da Fundação Getúlio Vargas (FGV). São Paulo é o epicentro da doença no país.

Assistimos estupefatos o presidente a estimular movimentos da extrema direita, convocando e participando de manifestações fascistas explícitas, contra as instituições democráticas, o Congresso Nacional e o STF. A conduta do governo Bolsonaro provoca temores e críticas não apenas dentro do país, mas em todo o mundo. Os países que trataram a pandemia com seriedade e já a tem sob controle, ameaçam vetar a entrada de brasileiros em seus territórios. Alguns estados americanos já o fizeram e a Europa ameaça fazê-lo.

Pelo menos dois países sulamericanos, Argentina e Paraguai – já ameaçam fechar fronteiras aos brasileiros. Bolsonaro provoca um curto-circuito nas relações internacionais ao acusar a China de ter inventado o coronavírus- uma falsa e criminosa acusação, justamente com nosso maior parceiro comercial e responsável por produzir mais de 90% dos equipamentos de saúde utilizados no tratamento do coronavírus.

O que fazer para evitar o pior

O que é possível fazer de imediato para tentarmos deter uma tragédia que se anuncia catastrófica para o Brasil e os brasileiros? Do ponto de vista da saúde, além de trabalhar com transparência nas informações, é preciso que o governo federal agilize e promova testes em massa na população, na tentativa de localizar mais rapidamente os infectados. Adquirir com urgência os equipamentos respiratórios, contratar mais médicos e enfermeiras país afora, fortalecer e reforçar o orçamento do SUS.

Os epidemiologistas alertam que este não é ainda o momento de flexibilizar regras de isolamento social e da atividade econômica. O país precisa acelerar o pagamento das parcelas do auxílio emergencial, manter os R$ 600 estabelecidos pelo Congresso Nacional (Bolsonaro e Guedes queriam dar ajuda de R$ 200), e estender o prazo e valor até quando durar a pandemia. É necessário fazer chegar a ajuda financeira às micros e pequenas empresas, através de créditos facilitados, perdão de impostos e mais prazo para pagamento de suas dívidas.

Se a insensatez criminosa do governo Bolsonaro põe em risco a população brasileira em geral, para os povos indígenas pode significar o extermínio. Se desviarmos nosso olhar para fora da pandemia o cenário é tão assustador quanto. As maiores taxas de desmatamento e queimadas da última década na Amazônia foram registradas no ano passado. Mas 2020 pode ser ainda pior. Um desastre ecológico sem precedentes.

Do ponto de vista político, as pesquisas de opinião revelam a cada consulta que os seguidores do “Mito” já batem em retirada- a rejeição segue em alta, tendo ido de 44% para 47% em duas semanas. Bolsonaro tem 41% de aprovação e 50% de desaprovação. A curva ascendente da rejeição criou um novo ambiente na política nos últimos dias, com amplos setores da sociedade defendendo a criação de uma “frente ampla anti-Bolsonaro”.

Com um presidente autoritário e que reage à moda biruta de aeroporto, e com a disseminação da doença em escala progressiva, faz-se urgente que a sociedade reaja à altura para evitar a maior tragédia humana do Brasil. Se não agirmos rápido, corremos o risco iminente de uma mortandade jamais vista em nosso território, provocada pela pandemia. E uma economia destroçada, pois as projeções do pós-pandemia indicam que mais da metade da população brasileira estará fora do mercado de trabalho.

Um cenário dantesco, que pode mergulhar o Brasil no poço da mais profunda crise social e econômica de sua história.

 

Davidson Magalhães é Presidente PCdoB Bahia, é secretário estadual do Trabalho, Emprego e Renda da Bahia. Foi vereador em Itabuna e deputado federal.

Artigo publicado originalmente no Portal Vermelho