O compartilhamento de mensagens falsas via redes sociais tem sido um capítulo à parte na crise sanitária brasileira. Memes, vídeos e áudios compartilhados especialmente entre grupos de WhatsApp têm contribuído não só para a disseminação da desinformação, mas criado obstáculos para a adesão de medidas fundamentais durante a pandemia, como a permanência do isolamento social e a aceitação da vacinação como medida fundamental para conter o novo coronavírus.

 

Por: Por João Vitor Santos | Edição Patricia Fachin – Unisinos

David Nemer, professor do Departamento de Estudos de Mídia da Universidade de Virgínia, nos EUA, diz que três fatores contribuíram para o surgimento deste fenômeno no Brasil. O primeiro deles é de ordem socioeconômica e está diretamente relacionado à ampla adesão da população a aplicativos como Facebook e WhatsApp e aos programas “Free Basics” das companhias de celular, que permitem o acesso gratuito a essas redes. “O primeiro [fator] foi o fato de o WhatsApp ter sido um aplicativo bem difundido no Brasil. O WhatsApp conquistou o mercado brasileiro rapidamente, o que não aconteceu nos Estados Unidos. Em 2018, 96% das pessoas que tinham smartphone usavam o WhatsApp como seu principal meio de comunicação. Ele também se popularizou muito no Brasil porque a mensagem SMS sempre foi muito cara e logo que o aplicativo se espalhou pelo país, várias companhias de celular ofereceram planos Free Basics aos clientes, fornecendo dados de graça para as pessoas usarem alguns aplicativos, como o Facebook e o WhatsApp. Isso contribuiu para o consumo da desinformação, porque quando a pessoa tem um plano em que tem o dado de graça apenas para acessar o WhatsApp, ela não consegue acessar o navegador do celular para checar a informação que recebe via aplicativo. Essa é uma estratégia ótima que permite a desinformação”, explica.

 

Os outros dois fatores, menciona, são de ordem técnica. “O segundo pilar é a questão da facilidade e da capilaridade do WhatsApp. Ele é um aplicativo muito fácil de usar e permite a criação de grupos, o que era impossível em outros tipos de aplicativos. Além disso, o WhatsApp permite o envio de mensagens de vídeo ou de áudio, ou seja, ele melhorou a dinâmica de compartilhamento de dados. O terceiro pilar que permitiu que o WhatsApp se transformasse num campo fértil para a disseminação da desinformação foi a questão da criptografia. Ou seja, não é permitido que ninguém entre na mensagem enviada ou recebida para verificar o seu conteúdo. Quem produz e lucra com a desinformação toma proveito da criptografia porque sabe que não será ‘pego’ nem ‘julgado’”.

 

Na entrevista a seguir, concedida por WhatsApp ao Instituto Humanitas Unisinos – IHUNemer também comenta o uso de plataformas como o Telegram e o Parler por usuários da extrema direita, seu impacto na disseminação de desinformação e no debate público, e o processo de “desplataformização” adotado pelas plataformas para conter a desinformação nas redes sociais. “É muito difícil que as pessoas deixem de usar o Twitter para usar o Parler. Esses antros da extrema direita tendem a continuar, mas não vão virar plataformas mainstream. Obviamente, essas plataformas são perigosas porque acabam virando uma câmara de eco em que o discurso de ódio se repete o tempo todo e a tendência, com isso, é de o discurso se radicalizar. Apesar do perigo, não adianta querermos criar um alarde ou termos medo dessas plataformas, quando o principal antro da desinformação e de proliferação do discurso de ódio continua sendo o Twitter, o Facebook e o WhatsApp”, adverte. E acrescenta: “Trump já vinha promovendo desinformação. Da mesma forma, Bolsonaro está o tempo todo desinformando, assim como o [deputado federal] Osmar Terra, mas o Twitter não faz nada”.

 

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