Professora da rede pública de São Paulo rebate discurso de ódio de Bolsonaro contra os educadores brasileiros

Por Dalva A. Garcia*, especial para o Viomundo

Criador de circunstâncias, assim é o educador a se debater com todas as inércias. Boa sorte.

Eu o aconselho a preservar um modo de expressão pessoal. Mesmo que seja apenas para absorver essa espuma do delírio que borbulha acima de toda ação intensa.

Quando era responsável por um Centro ou um Pavilhão, aconteceu-me de me sentir compositor. Aconteceu-me de confundir coletividade infantil com tocar órgão. Nascia uma música revolta ornamentada de humor que formava em torno de mim uma bolha, um universo no qual eu vivia confortavelmente. Fraude para as vidas confinadas.

(DELIGNY, F. Os vagabundos eficazes, Edições n-1, 2018)

O pequeno trecho desse magnífico texto de Fernand Deligny espelha a ilusão de todo educador compromissado com o cultivo e com criar circunstâncias “para se debater com todas as inércias”.

Como professores da escola pública, enfrentamos este conflito premente nesta pandemia.

Amigos queridos que se foram – levados pela doença –, preocupação excessiva com pais doentes, isolamento social, pressão e, principalmente, ineficácia de ações concretas dos governos estadual e federal para a saúde e a educação.

Não pudemos sequer ter a ilusão, como Deligny, de confundir a coletividade com um instrumento musical, pois sempre estivemos desprovidos de instrumentos, de orientação e de tempo para sonhar na rede estadual de São Paulo.

Sem opções, ficamos em casa para gozar de supostas férias antecipadas. Inicialmente de 15 dias, que se ampliaram com o avanço dos casos de morte e infecções por Covid-19 no estado de São Paulo.

Tive febre, dor de garganta e não consegui – no início da quarentena – fazer o teste para diagnosticar a doença: era destinado aos que estavam hospitalizados.

Depois de cinco meses, ainda não ouvi falar de testagem em massa na cidade de São Paulo, capital do estado e sede do governo.

Filhos e netos que perderam as mães em menos de uma semana tentaram inutilmente ser incluídos nas testagens.

Perdi muitos amigos queridos nesta pandemia, bem como o contato com a maioria de meus alunos da rede estadual.


A orientação da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo (Seduc-SP) era que acompanhássemos com os alunos as atividades do Centro de Mídias SP (CMSP).

Aulas preparadas por professores contratados às pressas, a um bônus de R$ 1.500,00, para expor a sua imagem para milhões de pessoas em toda a rede de ensino.

Aos poucos, o CMSP foi se aprimorando, apesar de grosseiros erros técnicos e do amadorismo pedagógico.

Influenciadores digitais e grandes nomes do “pensar midiático” foram contratados.

Fomos cobrados a avaliar atividades que não planejamos ou programamos, registrando notas aos alunos no sistema que a Seduc-SP mantém para esse fim.

Projetos em parceria com fundações empresariais e empresas privadas: como Fundação Ayrton Senna, Google, Fundação Lemann, etc.

Posso estar equivocada, mas desconheço que tenha sido feita uma avaliação transparente dos gastos com essas parcerias público-privadas.

Coube a nós, professores e gestores escolares, realizar o que se denominou “busca ativa” escolar.

Afinal, o empreendedorismo é qualidade do bom trabalhador em uma crise do trabalho de proporções internacionais.

Quem vendia a sua força de trabalho, agora é responsabilizado pelos meios de produção.

A parafernália tecnológica serviu para animar os educadores inconformados com a ‘inércia”: adquiriram computadores, tablets, novos smartphones, microfones, planos de plataformas digitais, etc.

Paradoxalmente, a sala de informática da escola continua sendo inundada pela água da chuva que cai de quando em quando.

O órgão estadual responsável pela infraestrutura escolar nada pôde fazer durante uma década.

Ações isoladas se mostraram mais eficazes do que a demagogia transmitida em vídeos via CMSP: gestores escolares ofereceram cestas básicas a famílias necessitadas e tablets para estudantes desesperados por prosseguir nos estudos.

Se isso foi possível pela ação da gestão escolar (como na escola em que trabalho), por que o Estado fez ouvidos moucos frente a iniciativas assim?

O tempo passou.

“Abriu-se a porta da esperança”, como naquele programa de auditório…

Desconfiados das estatísticas, mas alertados até pela grande imprensa, conhecemos o perigo da pandemia.

Livres para desfrutar de dias ensolarados de praia estão os jovens de classe média, carregando seus iPhones na viagem que aplacaria os danos psicológicos do isolamento social prolongado.

Já os meus alunos estão trabalhando ainda mais para ajudar os pais e as mães que perderam empregos. Alguns estão submetidos ao subemprego e ao trabalho intermitente.

Enquanto isso, o representante eleito pelo povo se isenta de suas responsabilidades com o povo.

Na era neoliberal, ele não é mais um servidor público. É gestor administrativo.

Trata as pessoas como se delas fosse patrão, e o Estado como se fosse empresa privada.

Quer diminuir as perdas econômicas da pandemia à base de uma boa gestão empresarial.

Mas não pai-patrão; pois até os pais mais tiranos do despotismo assumiam a responsabilidade pela garantia da sobrevivência, como se pode ler em Thomas Hobbes. E nem estou me referindo ao despotismo esclarecido.

Como um gestor de empresa, o governo de São Paulo, por meio de documentos oficiais, conclama os “colaboradores” da rede de ensino a assumirem suas responsabilidades individuais na retomada econômica “eficaz”: cabe aos pais assumirem a reponsabilidade pela possível doença de seus filhos por conta da reabertura das escolas.

Professores devem encaminhar atestados médicos que comprovem as comorbidades que implicariam riscos à saúde própria e dos demais.

Para ajudar, a promessa de uma vacina para ontem revela o passo eleitoreiro e sem qualquer preocupação em arriscar a vida das pessoas em favor de uma ligeira retomada da economia.

Para completar o quadro, alguns mais atrevidos se sentem à vontade para perguntar: mas se os nossos gestores eficazes trabalham até quanto estão com Covid-19, por que os professores reclamam tanto para voltar às escolas?

Seriam vagabundos? Sim, somos vagabundos eficazes.

Eficazes em uma máquina governamental que despreza a vida, a saúde e o humano; que despreza a educação como cultivo, que requer cuidado e paciência.

Trabalhamos incansavelmente para evitar que os alunos abandonem as escolas.

Somos os braços, as pernas e as cabeças que trabalham para contornar a inércia estatal.

Somos trabalhadores, servidores e colaboradores da máquina estatal.

Mas não somos eficazes no sentido de que trata Deligny, não somos eficazes como meus alunos atuais e, principalmente, como os meus ex-alunos do Ensino Médio, que mesmo tendo se acostumado a ser tratados como bandidos, hoje ocupam cadeiras nas universidades estaduais e federais, igualmente sucateadas e maltratadas pelos gestores de plantão.

*Dalva Ap. Garcia é professora de Filosofia da Escola Estadual Fernão Dias Paes e professora assistente mestre da PUC-SP. 

Ela agradece à revisão gentil do professor Fernando Cássio, da Universidade Federal do ABC (UFABC). 

 

 

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