Criado em 1986  no governo do presidente José Sarney, Zé Gotinha inspirou a campanha de combate à polimiolite e popularizou o Cartão de Vacinação,  estimulando as famílias a vacinar suas crianças.

Da Coluna Painel na Folha:

Criador do Zé Gotinha, o artista plástico Darlan Rosa, 74, classificou a versão da personagem com uma arma nas mãos divulgada pelos filhos de Jair Bolsonaro como “imagem terrível” e contrária aos propósitos idealizados por ele há 35 anos.

“Fico arrepiado, é um desassossego”, diz ele, morador de Brasília

Desde o início da pandemia, Bolsonaro fez pouco caso da importância da vacinação, criticou a Coronavac (principal fármaco na imunização em curso no Brasil) e continua defendendo remédios sem eficácia contra a Covid-19, como a hidroxicloroquina. Nas últimas semanas, deu início a uma retórica pró-vacina para tentar estancar perda de popularidade causada pelo aumento do número de mortes.

Nesse contexto, o deputado Eduardo (PSL-SP) e o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) compartilharam uma versão deturpada do Zé Gotinha, com uma arma, um dia após o ex-presidente Lula (PT) criticar a condução federal do combate à pandemia e dizer que a personagem havia sido preterida por Bolsonaro por ele acreditar que era algo da esquerda.

Apoio da Unicef

Em entrevista à Folha  por ocasião dos 30 anos do personagem Darlan Rosa conta que nos anos 1980, ele foi contratado pelo Unicef (braço da ONU para a infância) para desenhar um símbolo para a campanha de erradicação da pólio. Por já ter feito um programa infantil na televisão, ele tinha alguma ideia do que as crianças iriam gostar —e ela não tinha muito a ver com o que vinha sendo feito, lembra.

“Me levaram para ver uma campanha de vacinação no Nordeste. O Exército estava lá ajudando. Parecia um campo de batalha”, diz.

Na contramão desse simbolismo de guerra, ele decidiu criar um boneco lúdico que andava por uma cronologia, com os anos que faltariam para o país erradicar a doença. Fazê-lo andar tinha  o objetivo criar contraste com as imagens de paralisia infantil associadas ao vírus.

“Minha ideia era trazer a criança para o processo, para ela querer ir se vacinar, em vez de o pai levá-la à força”, diz.

Em 1994, o Brasil recebeu o certificado de erradicação da pólio. Rosa fez também a campanha de erradicação do vírus em Angola, mas optou por usar uma estrela como símbolo. “Muitas mães no país não sabiam ler, mas sabiam contar. E elas precisavam lembrar que eram cinco vacinas, como as cinco pontas de uma estrela.”