Militantes antifascistas impedem manifestações bolsonaristas em várias  capitais país, oposição protocola impeachment coletivo, STF vai para cima do “gabinete do ódio” e procuradores do MPF apontam crimes do presidente que podem levar ao impeachment.

Grupos de democratas em todo país organizam-se para barrar atos de militantes bolsonaristas.  No dia 9, em São Paulo, a torcida organizada do Corinthians impediu uma manifestação bolsonarista contra o isolamento social na Avenida Paulista. No dia 20, a militantes com bandeiras do PT e do PCO que protestavam contra o presidente Jair Bolsonaro em frente ao Palácio do Planalto expulsaram um grupo de bolsonaristas que tentou tumultuar o ato, entre eles estava  Renan da Silva Sena, funcionário do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos que, recentemente, agrediu uma enfermeira que fazia uma manifestação pacífica. Neste domingo, em Porto Alegre (RS) um ato antifascista, impediu o seguimento da carreata bolsonarista, que protestava contra as medidas de isolamento social na Capital gaúcha.

Em Porto Alegre democratas reagem ao autoritarismo bolsonarista

As reações contra o autoritarismo também estão sendo feitas no meio jurídico. O O MPDFT (Ministério Público do Distrito Federal e Territórios) entrou com uma ação civil pública na Justiça pedindo o fim do “acampamento dos 300″, em Brasília, e determinou que sejam feita busca e apreensão de armas que estão em mãos de militantes bolsonaristas.

A ação foi motivada pela bancada do PSol, quepediu ao Ministério Público Federal (MPF) que abra uma investigação em relação ao acampamento “300 do Brasil”, ´para que sejam apurados crimes de ameaças contra pessoas de pensamento de esquerda, ataques a instituições – como ao Supremo Tribunal Federal e ao Congresso – e agressões a profissionais de saúde e a jornalistas, ocorridos nos últimos dias em Brasília. O partido quer que integrantes e organizadores desse grupo sejam identificados e investigados.

Ontem (domingo, 24),  o ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal), condenou as “milícias digitais” e afirmou que o Poder Judiciário atuará com firmeza para responsabilizar usuários que espalham notícias falsas na internet.

Pelo Twitter, na noite do último domingo (24/V), o ministro desmentiu uma conversa de WhatsApp, atribuída a ele, na qual pede a ação de um atirador de elite da PCC em manifestação de apoio ao presidente Jair Bolsonaro no Palácio do Planalto.

“Lamentável que milícias digitais, criminosamente, inventem mensagens e perfis falsos e mentirosos, como esse anexo, para desgastar a Democracia e o Estado de Direito. O Poder Judiciário atuará com firmeza para responsabilizar esses marginais”, publicou Moraes.

A publicação foi feita pelo perfil de nome Pavão Misterioso, perfil supostamente ligado ao vereador Carlos Bolsonaro, que já fez outras vítimas com fake news.

Moraes é relator do inquérito sigiloso aberto para apurar ameaças, ofensas e fake news disparadas contra os integrantes do tribunal e seus familiares.

Ministro do STF, Alexandre Moraes, reage a ameaças do “gabinete do ódio” nas redes sociais

Hoje reportagem do jornal O Globo – revela que a equipe de investigadores da Procuradoria-Geral da República (PGR) avalia que as provas obtidas até o momento são suficientes para caracterizar que o presidente Jair Bolsonaro cometeu o crime de advocacia administrativa em sua pressão para trocar postos-chave da Polícia Federal.

A análise dos procuradores é que, após ter acesso ao vídeo da reunião do conselho de ministros no último dia 22 de abril, ficou claro que Bolsonaro pressionou o então ministro da Justiça, Sergio Moro, para fazer mudanças em cargos na PF motivado por interesses pessoais — no caso, a preocupação em proteger familiares e amigos, verbalizada pelo próprio presidente na referida reunião. O vídeo inclusive, na avaliação dos investigadores, traz uma comprovação rara de se obter nesse tipo de crime que é o “dolo”, a vontade de cometer o delito.

Oposição

O primeiro pedido coletivo de impeachment contra Jair Bolsonaro foi protocolado na Câmara dos Deputados. Assinam o documento partidos como PT, PSOL, PCO, PCB e PCdoB, juristas e mais de 400 entidades da sociedade civil.

Imprensa

Na imprensa também há reações. A chamada grande imprensa corporativa (Globo, Folhka, Estadão) exibe reações contra a escalada autoritária do governo do presidente Jair Bolsonaro.

A Folha de S.Paulo publicou um editorial extraordinário na tarde de sábado 23/V em que acusa Jair Bolsonaro de mentir à população brasileira.

“O registro da reunião ministerial de 22 de abril, cuja divulgação foi liberada por decisão de Celso de Mello, decano do Supremo Tribunal Federal, na sexta-feira (22), traz novas evidências conclusivas sobre o que já se suspeitava: o presidente Jair Bolsonaro mente. Depois do vídeo, a versão presidencial de que queria interferir na sua segurança pessoal, e não na superintendência da Polícia Federal no Rio de Janeiro, torna-se completamente inverossímil”, diz o jornal.

Aposta na democracia

As reações ao autoritarismo bolsonarista via instituições e segmentos organizados da sociedade são importantes para fazer avançar a democracia no Brasil, impedindo retrocessos que só tendem a ampliar a injustiça social e a exclusão da maioria dos brasileiros. Não é de hoje que democratas de várias matizes reagem contra o fascismo. Nossos antepassados tem lições valiosas a oferecer aos dias atuais, como relata o episódio da “Revoada dos Galinhas Verdes”.

 

86 anos da batalha da Praça da Sé, a ‘Revoada dos Galinhas Verdes’

Capa de jornal noticiando o vexame integralista

Há 85 anos, em 7 de outubro de 1934, um grande conflito entre operários e manifestantes antifascistas contra militantes da Ação Integralista Brasileira (AIB) tomou as ruas da região central de São Paulo no episódio que ficou conhecido como ‘Batalha da Praça da Sé’, ou ‘Revoada dos Galinhas Verdes’. O termo ‘Galinhas Verdes’ era usado para qualificar os membros da AIB, uma organização brasileira caricaturesca inspirada no fascismo que se erguia com força na Itália e na Alemanha, e que tinha como liderança Plínio Salgado (1895-1975).

Na ocasião, os integralistas haviam marcado para tal data um grande comício pela passagem dos dois anos Manifesto Integralista, que, segundo fontes históricas, contaria com cinco mil pessoas. Ao tomarem conhecimento da demonstração pública que os fascistas pretendiam fazer, os antifascistas de São Paulo (entre eles comunistas, anarquistas, sindicalistas e outros progressistas) decidiram se organizar para realizar uma grandiosa contramanifestação. Praticamente toda a esquerda paulista tomou parte no combate, que terminou com sete mortos (três integralistas, dois policiais, um guarda civil e um jovem comunista).

O comunista morto foi Décio Pinto de Oliveira, estudante de direito, que foi atingido com um tiro na nuca. Por muito tempo, Décio foi um símbolo da luta antifascista no Brasil, ainda mais naqueles anos que precederam a Guerra Civil Espanhola e a Segunda Guerra Mundial.

Foto tirada na hora da ‘revoada’ dos fascistas

 

O nome ‘Revoada dos Galinhas Verdes’ surgiu pelo fato dos integralistas terem saído em debandada após o ataque popular. A falecida militante comunista e atriz Lélia Abramo, que participou do evento, assim descreveu:

“Enfrentamos, com armas nas mãos ou sem elas, a organização fascista integralista, comandada por Plínio Salgado. Os integralistas estavam todos fardados, bem armados, enquadrados e prontos para uma demonstração de força, protegidos pelas instituições político-militares getulistas e dispostos a tomar o poder. Nós, espalhados ao longo da praça e nas ruas adjacentes, esperamos pacientemente que desfilassem primeiro as crianças, também fardadas, e as mulheres integralistas. Depois disso, quando os asseclas de Plínio iniciaram seu desfile, nós todos avançamos e começou a luta aberta.”

Confronto

Durante a manhã de 07/10/1934, os antifascistas iniciaram os preparativos do ato na Praça da Sé, sendo que os integralistas começavam a ocupar um largo trecho da avenida Brigadeiro Luiz Antônio. Ao mesmo tempo, na Estação do Norte, centenas de integralistas desembarcavam do interior do estado. Todo o alarde sobre o comício da AIB e as convocações antifascistas para impedi-lo chamou a atenção do povo, que se dirigia à região.

Pouco depois da hora do almoço, a polícia começou a revistar as sedes dos diversos sindicatos que se localizavam nas proximidades da praça. Centenas de homens do Batalhão de Infantaria, Cavalaria, da Guarda Civil e outras forças se deslocaram ao local e todas as ruas que levam à Sé foram tomadas por agentes da repressão.

Integralista ferido após a batalha

Um grupo grande de antifascistas se reuniu em frente ao prédio Santa Helena, próximo aos integralistas, e começou a gritar “morte ao integralismo” e outras palavras de ordem. Tiveram início brigas e a polícia interviu com tiros, o que aumentou a confusão. Em seguida, os integralistas se reagruparam, entraram na Praça da Sé e tomaram as escadarias da catedral gritando sua saudação “anauê”. A tensão aumentou enquanto palavras de ordem eram entoadas efusivamente dos dois lados. Fontes apontam que o confronto para valer teve início quando disparos de metralhadora atingiram três guardas civis (matando um deles), o que gerou um tiroteio e uma verdadeira batalha pelas ruas.

Esta batalha terminou com uma acachapante vitória dos antifascistas, que, literalmente, botaram os integralistas para correr. Tamanha foi a desmoralização sofrida pela AIB, que ela chegou a ficar desarticulada e desmoralizada (mais do que já era) nacionalmente.

Além dos sete mortos, estima-se que pelo menos 30 pessoas ficaram feridas. Os mortos (além do comunista Décio Pinto de Oliveira) foram identificados como: Hernani de Oliveira e José M. Rodrigues Bonfim (policiais); Jaime Guimarães, Caetano Spinelli e Teciano Bessornia (integralistas); Geraldo Cobra (guarda civil).

Nos anos seguintes a este acontecimento, o mundo viu a Segunda Grande Guerra Mundial, que, como todos sabem, terminou em 1945 com a vitória dos Aliados e, em particular, da Grande Guerra Patriótica da União Soviética contra a máquina de guerra nazifascista genocida de Hitler. O dia 9 de Maio entrou para a história como o Dia da Vitória. Vale lembrar que a vitória dos Aliados contou com a participação heroica da Força Expedicionária Brasileira (FEB) nos campos da Itália, o mesmo país onde, em abril de 1945, o cadáver do fascista Mussolini foi exposto em praça pública na cidade de Milão pela Resistência Popular.

Desde então, os integralistas, que já eram caricaturas mal feitas dos fascistas europeus, passaram a ser grupelhos insignificantes para a vida política do país.

Com informações do Globo, Folha, Brasil247, ConversaAfiada, Brasil de Fato, Página 12