O governo Bolsonaro usou Manaus como campo de teste para cloroquina e o tratamento precoce contra a covid-19 e, consequentemente, a população manauara como cobaia.

Da RBA

Foi a conclusão que chegaram os senadores Randolfe Rodrigues (Rede-AP) e Otto Alencar (PSD-BA) após ouvirem na CPI da Covid o depoimento de Marcellus Campêlo, ex-secretário de Saúde do Amazonas que esteve no comando da pasta na crise do oxigênio, no começo do ano. Otto Alencar (PSD-BA) classificou conduta do governo em Manaus como “campo de teste” para cloroquina e tratamento precoce. “Certamente a fase pré-clínica (de experimentos), que se faz in vitro ou em camundongos, foi feita com o povo de Manaus”, disse o senador. “O maior crime é esse.”

Alencar acrescentou que Campêlo também é responsável pelo ocorrido por assumir o cargo mesmo ciente da falta de conhecimento sobre saúde. Comparou a condição do ex-secretário com a do ex-ministro Eduardo Pazuello.

Macellus Campêlo disse que a primeira comunicação sobre a crise de oxigênio foi feita ao Ministério da Saúde foi em 7 de janeiro. A segunda, desta vez via ofício, ocorreu no dia 9. No dia seguinte, Campêlo diz que avisou pessoalmente o então ministro Pazuello. A resposta do governo, porém, foi organizar em 11 de janeiro um evento com a apresentação do TratCov, aplicativo do governo federal que induz a população ao tratamento precoce. “Não nem sabíamos do que se tratava, eles iam explicar o que que era”, disse Campêlo.

“Para ser claro. O senhor comunica desde o dia 9 sobre a necessidade do fornecimento de oxigênio e a primeira reação do Ministério da Saúde é fazer o lançamento do TratCov”, conclui Randolfe Rodrigues. “O senhor solicitando oxigênio e a primeira resposa que eles (Ministério da Saúde) dão é o lançamento do TratCov”, reforça. “Isso na véspera das dramáticas imagens que vimos, das pessoas indo atrás de oxigênio em tudo o que é canto no dia 13, no dia 14”, acrescenta o senador.

Edilson Rodrigues / Agência Senado campo de teste cloroquina
Randolfe questionou respostas do governo federal à crise em Manaus (Edilson Rodrigues / Agência Senado)

Brasil inteiro

O vice-presidente da CPI da Covid, realizada no Senado, citou também declaração de Marcellus Campêlo, de 26 de janeiro, em que o ex-secretário alerta que o que ocorrera em Manaus poderia ocorrer no Brasil inteiro. Ele confirmou a declaração e admitiu que o Ministério da Saúde também tinha ciência da possibilidade. “É evidente que o colapso que se inaugurou na segunda onda em Manaus iria se espalhar pelo Brasil, como se espalhou, e o Ministério da Saúde tinha conhecimento disso”, afirmou Randolfe Rodrigues.

Médico ou engenheiro?

A inquirição do senador Otto Alencar, que é médico, também foi marcada por evidenciar a falta de preparo do engenheiro Marcellus Campêlo para o cargo de secretário de Saúde. “Se o senhor fosse construir uma casa, o senhor contrataria um médico pra fazer o projeto? Claro que não. A irresponsabilidade de quem assume um cargo dessa natureza, sem conhecer nada de doenças epidemiológicas, controle de viroses, é uma irresponsabilidade muito grande. Não devia ter assumido.”

Edilson Rodrigues / Agência Senado campo de testes cloroquina
Otto Alencar disse que Campêlo devia ter pedido demissão (Edilson Rodrigues / Agência Senado)

Ele segue pressionando com uma pergunta que “qualquer secretário tem de saber”. Questiona sobre quantidade de leitos necessários a cada cem mil habitantes. Sem receber resposta, ironiza: “Joga aí na mega-sena para ver se acerta. Não sabe nada. O senhor está errado, o seu governador mais errado ainda, de nomear um engenheiro como secretário de Saúde do estado do Amazonas. A mesma irresponsabilidade cometeu o presidente da República, que nomeou um general que disse que não conhecia o SUS. Disse textualmente que não conhecia”, comparou.

Alencar finaliza dizendo que Campêllo é um “cúmplice” tanto quanto o ex-ministro Pazuello, por fazer de Manaus campo de teste para cloroquina. “Um general e um engenheiro cuidando da saúde do povo de Manaus. Falta oxigênio, falta kit intubação, falta EPI, faltam medicamentos, falta absolutamente tudo. Só não faltou vergonha ao senhor e ao ex-ministro da Saúde.”