“Somando mortes específicas por covid-19 com mortes por SRAG e mais mortes em investigação hoje, o Brasil tem mais de 203 mil mortes atribuíveis à pandemia”, explica cientista.

Por Gabriel Valery | RBA — São Paulo – O Brasil encerra a sexta-feira com 708 mortos por covid-19, de acordo com dados oficiais do Conselho Nacional dos Secretários de Saúde (Conass). Desde o início da pandemia, em março, são 145.388 vidas brasileiras ceifadas pela doença provocada pelo novo coronavírus. Entretanto, esse número deve ser muito maior, de acordo com o epidemiologista da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) Jesem Orellana.

Número oficial de mortos da covid-19 somado às mortes em excesso que não foram testadas supera 200 mil. Cenário é de naturalização da tragédia

Isso porque existe uma grande subnotificação de casos e mortos no país. O Brasil é um dos integrantes da comunidade internacional que menos testa para a covid-19: menos de 9% da população, de acordo com dados do IBGE. Jesem explica que a cifra de 200 mil é facilmente defendida a partir de dados que envolvem mortes por Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) não especificadas. Ou seja, mortes em excesso sem confirmação do agente causador.
“Além do montante oficial de mortes, até o dia 21 de setembro, o Brasil acumulava em torno de 56 mil mortes por SRAG não especificada e, ao menos, 2 mil mortes sob investigação. E que, portanto, podem ter sido causadas pelo novo coronavírus”, explicou. “O caso é que, somando mortes especificadas por covid-19 com mortes por SRAG e mais mortes em investigação hoje, o Brasil tem mais de 203 mil mortes atribuíveis à pandemia”, completou.

O epidemiologista apresenta o dado de que, em 2019, sem pandemia de covid-19, o Brasil teve aproximadamente 3 mil mortes por SRAG não especificada de janeiro até setembro. Mesmo assim, o número atual excede em muito a métrica. “Não há dúvidas que o Brasil fracassou na gestão da epidemia e mesmo sete meses depois, segue à deriva e contando mortos, ao invés de se esforçar para salvar o máximo de vidas possível”, disse à RBA.

Desaparecidos da covid

O número, de fato, pode ser ainda maior, argumenta o especialista. “Convém lembrar que aqui não estão sendo computadas as milhares de milhares de milhares de mortes que podem ter sido erroneamente classificadas, omitindo sintomas ou causas respiratórias de boletins médicos ou declarações de óbitos”, disse.
Essa amplitude da subnotificação leva ao que o especialista chama de “os desaparecidos da covid-19”. São muitos os erros que apontam para esse cenário, “seja por imperícia, imprudência ou negligência”, avalia Jesem Orellana. “Este, na realidade, é um problema anterior e que que pode ter se manifestado de forma mais intensa durante a pandemia, considerando questões ideológicas, pressão de familiares para médicos assistentes omitirem das declarações de óbito o termo covid-19, no intuito de evitar o estigma da morte pela doença. Ou ainda para facilitar o enterro dos cadáveres, por exemplo.”
Os aspectos citados influenciam nas notificações dos obituários. “Esse tipo de problema pode ter resultado em declarações de óbito cuja causa básica poderia ter sido registrada como as famosas causas respiratórias mal codificadas (insuficiência respiratória; parada respiratória; pneumonia não especificada), septicemia ou outras causas de mortes como parada cardíaca, por exemplo.”

Grande fiasco

O Brasil é o segundo país em número de mortos, atrás apenas dos Estados Unidos. Sendo que os norte-americanos testam até 100 vezes mais. O fracasso notável possui relação com a ausência de ações do poder público brasileiro para combater a covid-19. Pouco foi feito em relação à testagem, estratégias e rastreio de casos.
Ao contrário, a Presidência da República, chefiada por Jair Bolsonaro, nega, desde o início, a gravidade da pandemia. Além disso, estimula aglomerações e rejeita a ciência. “Precisamos lembrar que parte do fracasso brasileiro, no que diz respeito à identificação de pessoas que de fato foram expostas ao novo coronavírus, deve-se ao notado negacionismo por parte do Governo Federal e de alguns membros ligados a classe política, acerca da ameaça que a pandemia de covid-19 representava para o Brasil”, aponta Jesem.
O epidemiologista lembra de passagens de Bolsonaro que evidenciam o desprezo com a maior crise sanitária em mais de 100 anos no mundo. “Desde o princípio tratada como algo de menor importância e que logo passaria. A preocupação maior deveria ser com a economia e não com o bem-estar e a vida das pessoas. Afinal, como o presidente mesmo disse em uma de suas falas pró-naturalização da desgraça e da morte, ‘tem medo do quê’, ‘e daí?’, ‘não sou coveiro’, ‘todos vamos morrer um dia’, entre outras.”

Falhas e mais falhas

Jesem lembra que as falhas no trato da pandemia de covid-19 começaram ainda em março, quando o ministro da Saúde era Luiz Henrique Mandetta. O médico viria a ser demitido um mês depois por Bolsonaro, justamente por defender uma postura de mais respeito à ciência e ao isolamento social. A visão mais responsável do ex-ministro, no entanto, não o exime de erros.
“Mandetta, na primeira quinzena de março, ter dito repetidas vezes que a testagem em massa era desperdício de recurso público”, critica Jesem. “Naquele momento, o Brasil ainda andava a passos lentos no que diz respeito à descentralização da capacidade diagnóstica nacional. O curioso é que ao perceber a gravidade da situação sanitária, Mandetta mudou radicalmente o discurso. Isso resultou na assinatura de contratos para compra e produção não só de exames RT-PCR, como testes rápidos de fabricantes estrangeiros”, lembra o epidemiologista da Fiocruz.
Outro erro, para o especialista, tem relação com a orientação inicial do Ministério da Saúde, sobre quem deveria buscar ajuda médica. Naquele período houve aumento de mais de 50% nas mortes em casa, o que pode ter relação com essa política. “No início da epidemia, se orientava pacientes sintomáticos a procurarem os serviços de saúde apenas em caso de quadros mais graves, o que também resultou em enorme subnotificação.”
Outros erros são creditados à má gestão da pandemia, conclui Jesem. “Poderíamos listar outros fatores como a dificuldade de aquisição de insumos para a produção de kits diagnósticos. A falta de pessoal qualificado ou o reduzido número de laboratórios habilitados para o diagnóstico do novo coronavírus. No entanto, os aspectos acima elencados parecem ser os mais gritantes e que dependiam essencialmente da vontade política e aptidão técnica dos seus responsáveis.”