Já foram 42 casos confirmados, concentrados em Manaus, e quatro óbitos em áreas rurais, segundo levantamento do Instituto Socioambiental (ISA).

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Em debate virtual promovido pelo Museu Goeldi, especialistas e representantes de etnias relatam difícil situação das comunidades em todo o País

Os indígenas estão mais vulneráveis à covid-19 que o restante da população brasileira. Isso se deve tanto pela distância e deficiência da assistência médica, quanto pela falta de condições sanitárias e de alimentação, constataram vários especialistas reunidos em mesa redonda virtual promovida nesta quinta-feira (23/4) pelo Museu Paraense Emílio Goeldi.

“O encontro é parte dos eventos que o Goeldi realiza anualmente em comemoração à semana do Índio, para lembrar as contribuições e sofrimentos dos povos indígenas”, comentou o antropólogo Glenn Harvey Shepard Jr, mediador do debate que juntou antropólogos, médicos, pesquisadores e representantes de etnias indígenas.

O primeiro caso de covid-19 registrado entre os indígenas completa 24 dias nesta sexta-feira, com a infecção de um enfermeiro na região do Alto Solimões (AM). Em poucos dias, a doença se espalhou e hoje são 42 casos confirmados, concentrados em Manaus, e quatro óbitos em áreas rurais, segundo levantamento do Instituto Socioambiental (ISA).

Porém, a exemplo do que se observa em todo País, os números podem esconder expressiva subnotificação, já que as informações são levantadas com base nos boletins das Secretarias Estaduais de Saúde e pela Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), subordinada ao Ministério da Saúde (MS). Tampouco incluem os indígenas que vivem em centros urbanos, alertou o antropólogo Tiago Moreira dos Santos, coordenador do programa de monitoramento do ISA.

“Estamos buscando informações sobre a população indígena que vive nas cidades através de nossas redes de contatos, mas é uma grande dificuldade”, disse Santos.

Segundo o Censo IBGE 2010, o Brasil tem 305 povos indígenas que totalizam 896.917 pessoas. Destes, 324.834 vivem em cidades e 572.083 em áreas rurais. Ana Albernaz, diretora do Museu Goeldi, destacou que a grande dificuldade dos profissionais envolvidos com a proteção dos indígenas é, primeiro, a extensão territorial. “A Amazônia é muito grande e a gente fica nessa angústia porque, por um lado, é muito difícil as ações chegarem às áreas remotas; por outro lado ficamos nessa dúvida se levar até estas áreas é o melhor nesse momento, se não é melhor o isolamento”, disse a diretora.

O médico Douglas Antônio Rodrigues, Gerente do Ambulatório do Índio do Hospital São Paulo e coordenador do Curso de Especialização em Saúde Indígena da Unifesp, afirmou que a carga de doenças que afeta os povos indígenas é significativamente maior do que a que afeta os não índios.

Ex-coordenador do Projeto Xingu durante quase 20 anos, Rodrigues acompanhou vários povos indígenas isolados de contato recente. Segundo ele, alguns indicadores dessa vulnerabilidade são a taxa de internação por doenças respiratórias, cinco vezes maior sobre as crianças indígenas que sobre as crianças brancas, e a prevalência de diarreia, que entre os indígenas varia de 21% a 38% dependendo da região, comparado a 9% da taxa nacional. “Isso por si já os vulnerabiliza, mas também estamos vendo crescer em vários grupos as doenças crônicas (obesidade, hipertensão arterial, diabetes, etc.) que são agravantes da covid-19”, afirmou.

Marcio Meira, ex-presidente da Funai (2007-2012), analisou que essa vulnerabilidade resulta da política indigenista de separação das ações de saúde da Funai, já nos anos 1990, para a então recém-criada Sesai. “Acho que especialmente no caso dos povos isolados, a Funai deve trabalhar próxima do sistema de saúde indígena porque ela tem na sua estrutura as frentes de proteção extra ambientais que atuam diretamente com esses povos”. Meira disse ainda que os esforços de aproximação feitos nos últimos 15 anos têm sido ameaçados, sobretudo nos últimos cinco ou seis anos, pela queda de capacidade do SUS. E defendeu uma maior articulação entre a Funai, a Sesai, as organizações e movimentos indígenas.

Dario Kopenawa, filho mais velho do líder Ianomami, Davi Kopenawa, relatou que há grande temos nas tribos com a pandemia do coronavírus, que já fez uma vítima na comunidade. “Sofremos muito com a morte do nosso colega jovem de coronavírus, todo o povo triste”. Apesar disso, ele disse que a maior preocupação dos Ianomâmi nesse momento é com a invasão em suas terras por garimpeiros ilegais. “Os garimpeiros não estão sendo examinados pelos médicos, não têm controle dos órgãos públicos e isso vai ser um problema, eles vão transmitir o coronavírus”. Ele lembrou que nos anos 80, com a invasão de garimpeiros, morreram mais de 25 mil ianomâmis.

As mesas redondas do Museu Goeldi trouxeram ainda a visão da antropóloga Beatriz de Almeida Matos, sobre a situação dos povos indígenas do Vale do Javari; Fabrício Gatagon Surui, sobre os povos de Rondônia; Tatiane Klein e Eliel Benites, pesquisadores que acompanham as comunidades Kaiowa e Guarani, nos estados de São Paulo e Mato Grosso do Sul; e Josiléia Kaingang, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) que enfocou a perspectiva dos índios do Sul.

A plataforma de monitoramento da situação indígena na pandemia do coronavírus no Brasil do ISA pode ser acessada clicando este link (https://covid19.socioambiental.org). Assista ao debate na íntegra: https://www.youtube.com/watch?v=-FCuT1BGjhU

Janes Rocha – Jornal da Ciência