A pandemia do coronavírus, que já matou cerca de 151.006 pessoas e adoeceu cerca de 2.216.228 (dados oficiais da Organização Mundial da Saúde do último dia 17), fez crescer no mundo inteiro a confiança na Ciência.

Segundo pesquisa da Edelman Trust Barometer, sobre a “Confiança e o Coronavírus”, 85% dos entrevistados disseram que precisam ouvir mais os cientistas e menos os políticos. No Brasil, esta porcentagem foi de 89%.

Sobre porta vozes confiáveis, os cientistas são os mais citados no geral (83%), seguido pelo médico pessoal (82%), assim como no Brasil (91% e 86% respectivamente). Autoridades governamentais receberam 48% (geral) e 53% (Brasil) das indicações — era possível escolher mais de uma resposta.

Talvez a notícia que mais esperamos nos dias de hoje é a descoberta de uma vacina contra o coronavírus. E ela será dada por um cientista — declarou o físico Luiz Davidovich, presidente da Academia Brasileira de Ciências. — A Ciência está muito presente nesse momento atual no mundo inteiro. Cientistas do mundo todo se comunicam, trocam informações e estão nessa corrida contra o tempo. Não sei o que acontecerá depois desta pandemia, mas os governos e as pessoas em geral deveriam manter seus apoios e confiança nos cientistas.

Ciência brasileira

No Brasil foram confirmados até ontem (17), 33.682 casos, sendo que 14.026 pessoas se recuperaram e ocorrem 2.141 mortes. Apesar dos cortes constantes de verbas para a ciência e universidades públicas que foram feitas nos governos de Michel Temer (2016-2018) e Jair Bolsonaro, os cientistas brasileiros tem se esforçado para desenvolver remédios, tratamentos  e equipamentos contra a pandemia do Covid19.

Vejam alguns exemplos:

 

Unesp e Instituto Federal do Mato Grosso do Sul se unem para produzir EPI’s
Uma parceria entre a Universidade Estadual Paulista,  UNESP, campus de Ilha Solteira, e o Instituto Federal do Mato Grosso do Sul, IFMS, campus de Três Lagoas, formaram o grupo
COVID-19: A Universidade Pública unida pelo SUS (UPSUS) que está comprometido em viabilizar soluções tecnológicas que possuem potencial de minimizar os impactos da pandemia do
COVID-19 no sistema de saúde público de nosso país. O município de Ilha Solteira está situado no nordeste do estado de São Paulo, na divisa com o estado de Mato Grosso do Sul. A cerca
de 70 km, está o município de Três Lagoas, o terceiro maior do estado e onde situa-se o IFMS.

Mascaras produzidas por alunos e professores na parceria entre Unesp e o IFMS

O carro chefe é a fabricação de EPIs do tipo “Face Shields”, ou seja, máscaras de  proteção facial com certificação hospitalar validadas pela vigilância sanitária dos municípios de Ilha Solteira e Três Lagoas, utilizando impressão 3D. Para tal, o grupo conta com a atuação de 20 profissionais, sendo eles professores e alunos de pós graduação das instituições envolvidas. Entre os alunos, há um revezamento em turnos de 4h (20h/dia) de trabalho para manutenção e controle contínuo das 12 impressoras 3D que funcionam simultaneamente.

Para se ter uma ideia, em três semanas de trabalho foram produzidas mais de 300 máscaras, as mesmas já doadas para cerca de 10 instituições de saúde do entorno de Ilha Solteira e Três Lagoas e temos, por enquanto, uma demanda de mais de 600 máscaras.

Para fazer doações ao grupo, visite o site: https://www.feis.unesp.br/#!/covid-19.

 

USP e UFRJ desenvolvem respiradores a partir de R$ 1 mil

Reconhecida como a mais importante instituição de ensino superior do país, a Universidade de São Paulo (USP) também trabalha em soluções para a pandemia. Um projeto coordenado pelo Centro de Inovação da USP deve produzir 1 milhão de máscaras de proteção, suprimento que será direcionado a 8 mil profissionais de saúde do estado.

Pesquisadores do Instituto de Física e da Escola Politécnica estão realizando testes de material em busca de algo que seja ao mesmo tempo eficiente para reter o vírus e de fácil obtenção em uma época de escassas matérias-primas.

Paciente usando ventilador para respirar, aplicado por enfermeira em sala de cirurgia

Universidades brasileiras estão desenvolvendo pesquisas para produzir ventiladores a baixo custo

Em paralelo, há outras frentes. “Nosso foco é o desenvolvimento de um ventilador pulmonar de contingência”, disse em entrevista à DW Brasil o engenheiro Marcelo Knörich Zuffo, professor da Politécnica. “Estamos em fase de testes. Participam mais de 40 pesquisadores, entre alunos, especialistas e professores”, enumera.

A expectativa é que a produção seja iniciada ainda neste mês. Todo projetado com peças nacionais, o equipamento teria um custo final estimado em R$ 1 mil – ao contrário dos R$ 15 mil convencionais. E o desenvolvimento seguirá princípios open source, ou seja, qualquer um poderá seguir as instruções e fabricar sem ter de pagar royalties aos inventores. 

A Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) também criou ações para a luta contra a covid-19. Conforme a assessoria do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia (Coppe) da instituição, pesquisadores estão desenvolvendo “um protótipo de ventilador pulmonar mecânico para ser reproduzido em massa, de forma simples, rápida e barata, com recursos disponíveis no mercado nacional”.

“Uma rede de empresas está sendo montada para iniciar a produção imediata, após a aprovação dos testes com pacientes e adequação às normas de segurança”, afirma o órgão, em nota.

Outros cientistas da UFRJ estão trabalhando num teste alternativo que facilitaria o diagnóstico em massa da covid-19. Há ainda uma frente se dedicando à produção de álcool antisséptico. “Com início há cerca de duas semanas, a produção já atingiu a média diária de mil litros de álcool 70%”, informa a UFRJ.

Cientistas brasileiros pesquisam vacina

Pesquisadoras da USP estão entre as primeiras do mundo a mapear todo o genoma do covid19

O imunologista Gustavo Cabral de Miranda, por exemplo, alterou toda a sua rotina em busca de uma solução para a pandemia. Depois de trabalhar com o desenvolvimento de vacinas na Inglaterra e na Suíça, ele havia retornado ao Brasil para trabalhar em um laboratório do Instituto do Coração (Incor) da Faculdade de Medicina da USP.

“Com minha experiência em novas tecnologias do setor, a ideia era desenvolver vacinas contra estreptococos e chikungunya”, relata.

Com a pandemia, tudo mudou. “Acabei aceitando a missão. Tivemos de adaptar todo o projeto, usando até os recursos financeiros, já aprovados para o outro projeto, neste trabalho do coronavírus”, explica.

Para Sabine Righetti, coordenadora da Bori, o engajamento da ciência brasileira no combate à pandemia pode ser um legado positivo do difícil momento. “As universidades estão respondendo muito rapidamente, de várias maneiras, tanto em ações de grupos de pesquisa como de maneira institucional”, avalia. “Esse tipo de atitude poderia ser recorrente. Os próprios governos poderiam demandar, em casos de problemas, como tivemos recentemente a contaminação do mar por óleo e os incêndios da Amazônia, que cientistas se organizassem em grupos de trabalho.”

Righetti também espera que todo esse trabalho contribua para que a ciência brasileira seja valorizada.

“Temos instituições e cientistas de nível mundial; o que muitas vezes falta são recursos. Realmente espero que este momento traga uma nova força para a ciência nacional”, comenta. “Que seja recuperada a credibilidade, tanto por parte do governo como por parte da opinião pública.”

Coordenador do Programa de Engenharia de Sistemas e Computação da Coppe da UFRJ, o engenheiro Guilherme Travassos acredita que o “diferencial da universidade” seja a capacidade de “unir pessoas com perfis diferentes de competência”.

“Nosso espírito de trabalho está acima de qualquer vaidade. O problema é nosso, de todos nós. Aprendemos a confiar uns nos outros. Enfrentamos o problema pragmaticamente, assumindo responsabilidades”, diz.

Sobre a atual pandemia, ele lembra que, por se tratar de “um desafio novo”, não houve tempo para um planejamento antecipado. “O planejamento está sendo feito concomitantemente com a execução. Estamos trocando o pneu do carro com ele em movimento. Trata-se de uma situação de guerra e o inimigo é invisível”, afirma. “Como enfrentá-lo? Com racionalidade, cooperação, e ação antecipada”, acrescenta.

Com informações da SBPC (Sociedade Brasileira pelo Progresso da Ciência), ABC (Academia Brasileira de Ciência), Unicamp, SBQ (Sociedade Brasileira de Química), Fapesp e DW.