Médico diz que desigualdade social no país ameaça população pobre de ser mais afetada pela pandemia.

O médico oncologista Drauzio Varella afirma que o Brasil vai viver uma “tragédia nacional” em função do número de mortes causadas pela pandemia de coronavírus. “Agora é que nós vamos pagar o preço por essa desigualdade social com a qual nós convivemos por décadas e décadas, aceitando como uma coisa praticamente natural. Agora vem a conta a pagar”, afirmou o médico à repórter Lígia Guimarães, da BBC Brasil.

Ele lembra que a disseminação da doença ocorreu primeiramente entre pessoas que viajaram ao exterior, mas, “forçosamente” deve atingir “camadas sociais menos favorecidas”. É o que vem ocorrendo em Nova York, no Estados Unidos, onde a doença causa muito mais óbitos, proporcionalmente, na população negra.

Nós não sabemos ainda o que vai acontecer quando esses 13 milhões de brasileiros que vivem em condições precárias de habitação e que têm condições precárias de saúde também vão se infectar. Não sabemos o que vai acontecer, vamos aprender agora a duras penas. Eu rodo muito pelo país, já gravei em periferias de quase todas as grandes cidades brasileiras. E você entra nessas casas, é uma pobreza em um nível…”, lamentou o médico.

“Lugares impróprios”

A desigualdade resulta em grande parte da população vivendo em “lugares impróprios”, em residências superpovoadas, com cômodos únicos, sem divisão entre quartos e demais áreas. Às más condições de habitação, soma-se a falta de renda, que obriga as pessoas a saírem às ruas em busca da sobrevivência.

Segundo Drauzio, “enquanto tiver gente vivendo nessas condições, se infectando e transmitindo o vírus uns para os outros, esse vírus vai atingir todo mundo, porque as pessoas se interconectam de uma forma ou de outra, ou dividem espaços comunitários de um jeito ou de outro”.

Tragédia nacional

Ele disse que já foi “otimista”, no início da crise, quando as informações preliminares apontavam alta letalidade do coronavírus apenas em pessoas com idade avançada ou que sofriam de doenças crônicas. Mas agora acredita que “vamos ter um número muito grande de mortes, vamos ter um impacto na economia enorme, vamos ter uma duração prolongada”.

O médico também afirma que não é possível prever quando serão relaxadas as medidas de isolamento social. “Dois meses? Três meses? Seis meses? Ninguém sabe. Ninguém arrisca dizer por ter responsabilidade. Nós não sabemos. Isso é um vírus novo, nunca existiu uma situação como essa.”

Letalidade

médico infectologista da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) Evaldo Stanislau Afonso de Araújo também destacou que a letalidade do coronavírus é maior nas áreas periféricas, que contam com menos estrutura de atendimento em saúde. Na cidade de São Paulo, por exemplo, os três distritos mais atingidos com o maior número de casos estão nas zonas mais ricas da cidade, de acordo com boletim divulgado pela secretaria municipal de saúde na última sexta-feira (17). Mas os três distritos que tem mais mortes estão na periferia.

“É mais um componente desse momento que nos preocupa, que é essa característica da desigualdade da doença. Ela é democrática, acomete a todos, mas sobretudo as classes mais humildes, as populações das zonas periféricas vão ser mais impactadas do que as pessoas que têm uma condição social melhor”, afirmou em aos jornalistas Marilu Cabañas e Glauco Faria, para o Jornal Brasil Atual, nesta segunda-feira (20).

Isolamento

A queda no isolamento social, que na semana passada registrou as menores taxas desde o início da pandemia, chegando a apenas 46,2%, também é “absolutamente preocupante”, segundo Afonso de Araújo. Ele atribui a redução a “discursos irresponsáveis” de autoridades, como do presidente Jair Bolsonaro, que nesta domingo (19), voltou a ignorar as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) e se reuniu com apoiadores em frente em quartel-general do Exército, em Brasília.

“Parece que as pessoas incorporaram esse discurso irresponsável de algumas autoridades, de que tem que abrir tudo, senão a economia vai sofrer. Não estão entendendo que, para que a economia esteja viva e cresça, a gente tem que ter pessoas vivendo. Nosso primeiro compromisso é com a vida. Primeiro a gente vence essa guerra com a covid-19, depois a gente se recupera.”

Ele disse que, com as atitudes de Bolsonaro, o Brasil se alinha ao que “há de pior” no mundo, do ponto de vista das posturas sanitárias adotadas diante da pandemia. Aglomerações como as ocorridas ontem em Brasília e algumas outras cidades trazem as condições para uma “cadeia perfeita” de transmissão do vírus, segundo o especialista.

Drauzio Varella também destacou que o “isolamento vertical”, política defendida por Bolsonaro, que prevê o resguardo apenas para os mais velhos e doentes crônicos, não foi adotado em nenhum lugar do mundo.

“Não há prova de que esse isolamento funcione, e provavelmente não vai funcionar mesmo, porque você pode ser jovem mas os brasileiros são gregários, moram muito próximos, você pode pegar o vírus na rua e trazer para a sua casa. Nesse momento o que nós sabemos fazer é isolar. Aí as pessoas dizem: vai dar uma crise econômica. A crise econômica já está estabelecida.”