Nara Lacerda – Brasil de Fato – São Paulo (SP)
 Pouco mais de duas semanas após a confirmação do primeiro caso de coronavírus no Brasil, o país já registra situações de contágio comunitário, quando não é mais possível identificar nenhuma ligação entre os pacientes e pessoas que viajaram. Isso significa que o vírus está circulando com mais facilidade no país. Mas a boa notícia é que entre 80 e 90% dos casos são leves e os sintomas se assemelham aos de uma gripe comum.

A maior parte das pessoas que for diagnosticada não precisará de cuidados hospitalares mais complexos e será enviada para tratamento em casa. Mas se você for diagnosticado, o que é possível fazer no ambiente doméstico para melhorar os sintomas e passar por esse período de maneira mais confortável?

Brasil de Fato conversou com a médica sanitarista e supervisora acadêmica no Programa Mais Médicos na Grande São Paulo, Célia Medina, e traz algumas recomendações nesse sentido.

Boa parte dos conselhos servem também para quem não está doente, mas quer aumentar as defesas e melhorar o sistema imunológico. É importante lembrar que nenhuma dessas recomendações representa cura ou previne diretamente o coronavírus, mas podem te ajudar a se sentir melhor durante o tratamento.

Quando ir ao médico?

Com o avanço nas medidas de controle por parte do governo federal e de governos estaduais, crescem também as recomendações para que a população procure orientação se tiver algum sinal da doença. Claro que quem tiver viajado e apresentar qualquer sintoma de gripe, deve procurar um posto de saúde. O mesmo vale para os grupos de risco: idosos e doentes crônicos, por exemplo. Mas você não precisa correr para um hospital se der alguns espirros ou estiver com uma leve coceira na garganta.

É importante prestar atenção à tríade: febre, tosse e dificuldade respiratória. A busca desenfreada pelo sistema hospitalar pode, inclusive, trazer mais riscos de contaminação e criar uma demanda que vai estrangular o sistema de saúde em um momento crucial.

O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, afirmou que 90% dos casos poderão ser tratados em postos de saúde. Em alguns estados, os governos locais destacaram hospitais para onde serão enviados os casos suspeitos e confirmados. Mas as equipes de atenção básica têm as condições de orientar e encaminhar os pacientes.

E não se esqueça de usar máscara se você for ao posto ou hospital.

Hospital de Base de O Hospital de Doenças Tropicais em estrutura montada para atendimento a casos de coronavírus

Isole-se

Se você já tem o diagnóstico do coronavírus, provavelmente a primeira recomendação que recebeu do médico foi evitar o contato com outras pessoas. O comportamento é o ideal até mesmo frente a gripes comuns. Mas no caso do corona é ainda mais essencial, porque o vírus tem um tempo de vida mais longo. O período de isolamento é de duas semanas e, até em casa, é preciso tomar alguns cuidados para não contaminar quem vive no mesmo ambiente.

Use máscara e escolha um cômodo para passar a maior parte do dia. Se for possível, durma sem a presença de outras pessoas e com as janelas abertas para melhorar a ventilação do ambiente. Evite a contaminação do ambiente com limpeza regular e use álcool 70% e pano úmido, já que vassouras podem propagar o vírus pela poeira.

Não compartilhe pratos, talheres, copos, toalhas, roupas, óculos e outros itens. Lave as mãos com a maior frequência possível. Mantenha distância de cerca de dois metros das outras pessoas e evite contato com idosos, doentes crônicos e bebês com menos de um ano.

Ficar em casa e manter distância das outras pessoas é essencial para cuidar da saúde de toda a comunidade / Rex Pickar/ Unsplash

Só use medicamentos que o médico receitar

Provavelmente você vai sair do hospital ou do posto de saúde com uma receita que indica antitérmicos, analgésicos ou anti-inflamatórios. Use somente o que estiver nessa receita. Não se automedique, pois você corre o risco de tomar medicamentos que tenham contraindicações que podem piorar o quadro. Nunca, em hipótese alguma e sob nenhuma circunstância tome medicamentos vencidos.

Nunca use remédios sem orientação médica / Volodymyr Hryshchenko/Unsplash

Alimente-se muito bem

Aqui vale o conselho das avós: uma boa alimentação é essencial para fortalecer o sistema imunológico. Isso significa fazer três refeições por dia que garantam variedade de nutrientes.

O feijão, rico em ferro e tão tradicional na culinária brasileira, é um aliado importante. Peixes são ricos em ômega 3, substância que pode reduzir os processos inflamatórios. Frutas cítricas e ricas em vitamina C, como laranja, limão e acerola, podem fortalecer o sistema imunológico. Castanhas têm gorduras boas e antioxidantes, que também podem atuar como anti-inflamatórias. Na hora de montar a salada, não esqueça dos vegetais verdes escuros, da cenoura e da beterraba, que podem ajudar na produção de células do sistema imune.

A médica Célia Medina explica: “Existe uma espécie de síntese para as pessoas terem boa saúde, que é comer um prato colorido e comer pelo menos cinco porções de fruta e verdura todos os dias. Quando a gente come o arroz, o feijão e o ovo, a gente está comendo bastante cereal, proteína e carboidrato. Nesse prato básico do brasileiro você já tem tudo desses elementos que você precisa. Mas para garantir a diversificação de vitaminas que o corpo precisa, você precisa acrescentar uma pequena salada. Essas cinco porções não significam nada sofisticado, se você comer uma salada com alface, tomate e cebola, uma banana e uma laranja, você já consegue ter esse aporte de alimentação. Isso de fato deveria ser o cotidiano de todo mundo.”

No jantar, vale consumir a tradicional canja de galinha. A sopa é rica em proteínas, vitaminas e sais minerais e, além disso, ajuda na hidratação. O alho e a cebola usados como tempero podem contribuir para o funcionamento correto do sistema imunológico. A carne de frango contem zinco, que pode ser bom para a produção de glóbulos brancos, e cistina, um aminoácido que pode beneficiar o sistema respiratório.

Diversidade de vitaminas e nutrientes é essencial para a imunidade / Charles Koh/ Unsplash

Chazinhos e mel

Mais uma vez a razão está com as avós. Os chás podem ser aliados muito bem-vindos se trouxerem ingredientes que podem agir de modo anti-inflamatório, como o gengibre, o limão, o alho, a hortelã.

A quarentena pode afetar também a sua saúde emocional e as ervas que ajudam a amenizar a ansiedade e a ter mais qualidade no sono entram na lista de recursos. Entre as mais tradicionais no Brasil estão as conhecidas camomila, erva-cidreira e folha de maracujá. Os chás ajudam também a manter a hidratação do corpo, essencial para momentos em que o organismo está mais frágil.

Para adoçar tudo isso, use o mel. Ele ajuda a diminuir as inflamações na garganta e tem potássio, cálcio e ferro.

“O mel é um poderoso antibiótico e um poderoso estimulador do sistema imunológico humano. Para termos uma ideia, as múmias de milhares de anos são conservadas em mel. Eu aconselho o uso do mel na rotina para todas as pessoas. Uma pequena colher de chá já funciona” afirma Célia.

Chás e mel: a fórmula perfeita / Joanna Kosinska

Hidratação é essencial

Um fator importantíssimo para a cura é a manutenção da hidratação. Durante a doença, as febres são um agravante no processo de perda de água do corpo e garantir o consumo de líquidos ajuda o organismo a se recuperar. A água ajuda as células de defesa a chegaram em todo o corpo. Além disso, manter o organismo hidratado ajuda a amenizar dores de cabeça e eliminar toxinas. Por fim, as vias nasais, a boca e o pulmão agradecem.

Célia Medina esclarece que, quando essas áreas estão ressecadas, o organismo tem mais dificuldade em combater inflamações e infecções.

“O pulmão é um órgão que gosta de umidade e quando nós estamos desidratados ou em um ambiente muito seco o pulmão funciona com mais dificuldade. Então, nós precisamos de um nível de hidratação adequado para que o pulmão tenha suas células de defesa prontas para se defender.”

Hidratação é essencial para a defesa do sistema respiratório / Robina Weermeijer/ Unsplash

Mantenha-se aquecido

Não é lenda que o corpo fica mais forte se for protegido de variações de temperatura. Durante os estados de gripe é muito importante garantir essa proteção. Manter-se aquecido, principalmente nas regiões do pescoço, peito e costas é essencial. Para quem está em tratamento contra o coronavírus, o ar-condicionado é proibido.

“A medida que é submetido a variações de temperatura, o corpo fica mais vulnerável e o passo entre o resfriado é a gripe fica muito curto. Se o vírus já está por ali, a defesa fica mais comprometida”, afirma Célia.

Todos  esses conselhos são valiosos para quem já está doente e para quem quer preservar a saúde. Mas para o combate ao coronavírus, o passo mais essencial é sempre a prevenção. Não há como fugir dos conselhos básicos como: lavar as mãos constantemente, cuidar da higiene, evitar aglomerações, procurar ajuda médica em caso de suspeita e não se expor a riscos.

Confira a entrevista completa de Célia Medina ao Brasil de Fato para saber mais detalhes sobre o assunto.

*Colaborou o médico Eros Davi Bittar, que tem formação na Escola Latinoamericana de Medicina de Cuba e atua na área de saúde da família.

Edição: Rodrigo Chagas