Estamos nas mãos de um governo orientado por política de morte”, alertam as igrejas cristãs do Brasil, em nota divulgada  sábado, 16, assinada pelo Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (CONIC), tornada publica no site oficial da instituição

“As imagens de Manaus-AM angustiam toda e qualquer pessoa com a capacidade de se colocar no lugar da outra pessoa. Imagens que poderão se repetir em outros estados se não frearmos nossos comportamentos negacionistas e egoístas”, afirma a nota.

“A empatia é uma condição para o pensamento ético, tendo contribuição decisiva para o altruísmo e para a coesão social. Essa última é essencial para constituição de uma nação e de uma identidade nacional”, defendem as igrejas cristãs.

VEJA A NOTA

Aquele, pois, que sabe fazer o bem e não o faz, comete pecado. (Tiago 4:17)

Iniciamos o ano de 2021 com muitas incertezas em relação ao cenário político, econômico e sanitário. As campanhas negacionistas em torno da pandemia da Covid-19, a falsa oposição entre fé e ciência, com a gradativa perda de empatia e de responsabilidade coletiva, visíveis na resistência ao uso correto de máscara e nas aglomerações contribuíram para que os índices diários de morte e infecção superassem os do início da pandemia.

As imagens de Manaus-AM angustiam toda e qualquer pessoa com a capacidade de se colocar no lugar da outra pessoa. Imagens que poderão se repetir em outros estados se não frearmos nossos comportamentos negacionistas e egoístas. A compaixão é um dom de toda e qualquer pessoa, religiosa ou não, capaz de sentir a dor do outro.

A empatia é uma condição para o pensamento ético, tendo contribuição decisiva para o altruísmo e para a coesão social. Essa última é essencial para constituição de uma nação e de uma identidade nacional.

A ausência de empatia, no entanto, é perceptível não somente no comportamento individual. Ela também se revela nos direcionamentos políticos e econômicos do país. Em função de uma política e economia não empáticas, orientadas única e exclusivamente para o lucro de alguns, o Brasil vive, talvez, o momento mais difícil de sua história recente. As decisões tomadas na política brasileira estão destruindo o país como nação. A Emenda Constitucional 95 – Lei do Teto de Gastos – é um exemplo das causas que potencializam os impactos causados pela pandemia, porque reduziu o investimento na saúde pública. Outras opções políticas equivocadas que precisam ser lembradas são: a interrupção do Programa Mais Médicos, por razões ideológicas, e a expulsão de médicos e médicas cubanas que atendiam nas regiões mais carentes do país. A não valorização dos e das profissionais de saúde também é causa da realidade visível nas mais de 200 mil mortes que poderiam ter sido evitadas. E, por fim, o desinvestimento em pesquisas.

A falta de oxigênio em Manaus, a estafa dos e das profissionais da saúde, a desesperança e o medo precisam cair na conta de todas as instituições, empresas, corporações que vislumbraram seus lucros em detrimento do bem-comum.

De fato, colocar o lucro na frente do direito à existência das pessoas parece ter funcionado. Vejamos um exemplo: o lucro líquido das grandes empresas não financeiras da bolsa brasileira teve alta de 86,9% no terceiro trimestre, quando comparado com o mesmo período de 2019, chegando a R$ 20,856 bilhões.

No entanto, a economia real não se beneficiou disso, pois a taxa de desemprego, segundo dados do IBGE, chegou a 14,6%, com mais de 14 milhões de pessoas desempregadas. Além disso, mais de 600 mil micros e pequenas empresas foram à falência e 9 milhões de pessoas foram demitidas em função dos efeitos econômicos da pandemia. Por entraves burocráticos e demora na liberação de recursos menores do que os necessários, a ajuda às micro e pequenas empresas só chegou a 15% delas. Com o fim do Auxílio Emergencial, sob o argumento de que o “Brasil está quebrado”, uma parcela significativa da população fica abandonada por seu próprio país.

Estamos nas mãos de um governo orientado por política de morte. Os números mostram que o argumento utilizado para justificar a não realização de lockdown para conter a pandemia foi falacioso e é um dos principais indicativos da ausência de responsabilidade das pessoas que ocupam postos-chave no país: Executivo, Legislativo e Judiciário.

Enquanto pessoas enterram seus familiares, amigos e amigas, assistimos o governo federal anunciando planejamentos inconsistentes para dar início à imunização da sociedade. O sufocamento das pessoas que lutam e lutaram por suas vidas não tem sido suficiente para que as autoridades responsáveis assumam o seu papel.

Cada anúncio inconsistente realizado na televisão e nas mídias sociais representa escárnio e desrespeito com a vida da população brasileira.

Que neste domingo, e ao longo do mês de janeiro, possamos orar por todas as famílias enlutadas.

Oremos pelos profissionais de saúde, pela comunidade científica, pelos pesquisadores e pesquisadoras.

Oremos também pelos  movimentos sociais, ONGs, comunidades religiosas, lideranças comunitárias que, desde o início da pandemia, não cessaram seu esforço em concretizar ações solidárias que diminuíram o sofrimento das pessoas desempregadas e sem amparo.

Que ao longo deste mês, ainda peçamos a Deus piedade por todas as pessoas e lideranças religiosas, ou não, que de maneira irresponsável potencializam campanhas negacionistas e comportamentos egoístas.

Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (CONIC)