Conselho Nacional de Enfermagem denuncia que Desde o início da crise, 88 profissionais de enfermagem brasileiros teriam sido mortos pela covid-19. Os EUA, com 71 mil mortes, perdeu 46 profissionais.

Trabalhadores de enfermagem na linha de frente do combate à covid-19 nos hospitais brasileiros estão morrendo a uma das maiores taxas do mundo. De acordo com o Conselho Federal de Enfermagem (Cofen), até esta quarta-feira foram identificados 72 óbitos de profissionais pela covid-19 no país. 61% das vítimas são mulheres.

Coube à enfermeira veterana Carla Mileni Siqueira dos Santos, 49, colher o material para exames da primeira pessoa com suspeita de covid-19 na pequena cidade de Rondon do Pará (PA), em meados de março.  Com mais de 20 anos de profissão, Carla fez aquilo que sempre fez ao longo da carreira: tranquilizou a paciente, uma idosa, e calmamente realizou o protocolo para testagem da doença. Mesmo tomando todos os cuidados, dias depois ela própria adoeceu. Ficou alguns dias em isolamento em casa, mas a situação piorou e ela precisou ser internada no final de abril. “No domingo de manhã, 3 de maio, ela teve uma piora e pediu para ser entubada. Mas teve uma parada cardiorrespiratória e não resistiu”, conta Nathalia Roberta Siqueira dos Santos, 25, filha de Carla. “Foram 21 anos dedicados à enfermagem com muito amor. Ela era apaixonada pela profissão, uma líder que além de trabalhar na linha de frente dava cursos e ajudava a formar profissionais de saúde, enfermeiros, técnicos e auxiliares”, conta.

Além das vítimas mencionadas, outros 16 óbitos estão sob análise, aguardando resultado de testes. Conforme os sistemas de saúde das cidades começam a entrar em colapso, este quadro de vulnerabilidade dos profissionais de saúde deve piorar. O Conselho avalia que os números divulgados são apenas a ponta de um iceberg, tendo em vista que as ações de fiscalização do órgão alcançaram, até o momento, 27% do total de profissionais da área.

Comparativamente, os Estados Unidos, com mais de 71.000 mortos, perdeu 46 profissionais de enfermagem, segundo entidades de classe. A Itália, com mais de 29.000 vítimas, teve 35 óbitos, e a Espanha, com mais de 25.000, teve apenas quatro óbitos entre profissionais da área. Os dois países europeus tiveram o início da crise antes que o Brasil e já passaram do pico de casos. Os dados da China somam 23 até o final de abril.

O dado foi levado à discussão na Câmara dos Deputados pela líder do PCdoB na Câmara, deputada Perpétua Almeida (AC), durante votação da PEC do Orçamento de Guerra na Câmara. Para a parlamentar, é urgente o encaminhamento de EPIs em quantidade e qualidade para garantir o atendimento adequado da população e a vida desses profissionais.

Profissionais de saúde reclamam de falta de EPIs e leitos

“Precisamos fazer alguma coisa para ajudar a enfermagem. Da forma como vai, nós vamos ficar sem profissionais de saúde, pois o governo não está fazendo nada. É preciso encaminhar EPIs para os estados”, cobrou a parlamentar.

Ponta do iceberg

Muitos dos profissionais mortos são jovens. Os dados mostram que 41 tinham menos de 60 anos, tendo falecida uma enfermeira de apenas 29 anos. A cidade de São Paulo, maior epicentro da crise sanitária no país, lidera o ranking com 18 mortos, seguida por Rio de Janeiro, com 14 casos.

O Cofen lançou uma plataforma para monitorar as mortes na enfermagem em todo o Brasil, com o auxílio dos Conselhos Regionais.

Por fim, o Conselho Internacional de Enfermagem estima que “mais de 100 enfermeiros e técnicos perderam a vida no mundo todo pela covid-19 enquanto trabalhavam na linha de frente”. Ou seja, o Brasil corresponde à maior fatia do total global de óbitos na profissão.

Motivos brasileiros

Um dos fatores para a alta mortalidade é que boa parte dos serviços de Saúde não afastou profissionais com idade avançada, acima de 60 anos, e com doenças crônicas. Eles continuam atuando na linha de frente da pandemia quando deveriam estar em serviços de retaguarda ou afastados.

A Justiça Federal determinou que profissionais de enfermagem que façam parte de grupo de risco (por idade ou doença) devem ser realocados para funções que não envolvam contato com pacientes. A decisão veio tarde.

Outro problema enfrentado é a falta de equipamentos de proteção individual, os EPIs. Não apenas na questão quantitativa, como na qualidade do material . O treinamento das equipes, quando muitos se contaminam pelo uso inadequado do EPI, ou na desparamentação, a retirada da máscara N95 (que cobre a boca e nariz), óculos, máscara facial, avental impermeável e luvas.

Veja no vídeo da BBC como se protegem os profissionais de saúde na Coreia do Sul:

É fácil se contaminar nesse momento, se não respeitar a ordem correta de retirada dos equipamentos. Muitas enfermeiras e técnicas acabam tendo que recorrer a métodos drásticos para conseguir ficar seis horas seguidas sem urinar ou usar o banheiro, como por exemplo, o uso de fraldas. Outro aspecto é psicológico, com enfermeiros tendo que lidar com a morte e apoiar esses pacientes de UTI no seu isolamento da família. Também tem o aspecto das dificuldades em conviver com a família após exposição a tanto risco de contaminação.

A situação dos profissionais de Saúde é crítica em todas as cidades onde o sistema sanitário se aproxima (ou já chegou) ao colapso, como Manaus, Belém, Fortaleza, Recife, São Paulo e Rio, por exemplo. Muitos leitos estão sendo abertos sem enfermeiros e médicos especializados em UTIs. Então o profissional acaba sendo colocado nesse serviço sem o treinamento adequado, o que é um fator de risco.

Segundo relatório do Conselho Federal de Enfermagem (Cofen) e da Fundação Oswaldo Cruz, 84,7% dos auxiliares e técnicos de enfermagem são do sexo feminino.

Fonte: Confem

Edição: Vermelho – www.vermelho.org.br

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