Debate promovido pela ABC abordou questões como tratamentos, recessão econômica e mudanças de atitudes sociais.

Os impactos da pandemia da covid-19 sobre a saúde, a economia e a sociedade foram discutidos  durante o primeiro webnar transdisciplinar promovido pela Academia Brasileira de Ciências (ABC). Transmitido pelo Facebook, o encontro virtual intitulado “O Mundo a partir do #coronavírus” contou com a participação de especialistas membros da instituição, com a mediação do presidente da ABC, o físico Luiz Davidovich. Ao final foi aberto para perguntas dos internautas, entre eles cientistas como Vanderlan Bolzani, Glaucius Oliva, Renato Cordeiro e Helena Nader.

A primeira exposição foi do médico imunologista Mauro Martins Teixeira, presidente da Sociedade Brasileira de Inflamação (SBIn). Professor titular da UFMG e membro da comissão científica da Anvisa, Teixeira pesquisa as respostas inflamatórias em doenças infecciosas e autoimunes.

Ele explicou que o SARS-COV-2 é o mais recente de uma família de seis coronavírus dos quais dois são mais conhecidos por causar pneumonias em humanos. Não são os únicos, há vários vírus que causam pneumonias respiratórias e o mais comum é o influenza, único para o qual existe tratamento específico, o oseltamivir (mais conhecido pelo nome comercial, Tamiflu), quando aplicado precocemente.

Segundo Teixeira, a maioria das pneumonias virais têm tratamento, porém não específicos, o que leva os médicos a aplicar terapias antibacterianas e tratamentos de apoio como a ventilação invasiva não-invasiva e suporte circulatório e renal.

Teixeira reiterou que não existe tratamento específico para a covid-19 até o momento e que, como o desenvolvimento de um fármaco demora anos, o foco das terapias tem sido no “reposicionamento de moléculas” através de medicamentos usados no tratamento de doenças como Hepatite C e HIV (Favipiravir, Ribavirina), ou uso de agentes que já eram desenvolvidos para outras enfermidades como Ebola ou MERS/SARs.

Sobre a cloroquina e hidroxicloroquina, hoje no centro do debate no Brasil, Teixeira explicou que são substâncias conhecidas desde 2005, durante a epidemia de SARS, quando mostraram-se capazes de coibir o coronavírus in vitro. Mas, até o momento, tudo o que se sabe sobre o uso da cloroquina em pacientes com coronavírus parte de alguns poucos estudos acadêmicos inconclusivos, o principal deles feito com apenas 20 indivíduos aos quais a substância foi aplicada.

“O estudo abre uma perspectiva, mas não temos ainda uma resposta sobre a eficácia”.

Sobre o momento certo para interromper o isolamento, Teixeira disse que não há respostas simples, e espera que o conhecimento norteie qualquer decisão nesse sentido.

“O que é muito importante é focar na vida humana.”

Economia e recessão

A segunda exposição foi de Naércio Menezes Filho, membro titular da ABC. Economista, professor titular do Insper, Menezes Filho desenvolve pesquisas em educação, desigualdade, mercado de trabalho, produtividade e tecnologia.

Ele alertou para a intensa recessão mundial que já está se instalando como efeito da covid-19 – principalmente o isolamento social – e que poderá durar muitos meses, acarretando alta taxa de desemprego e profunda queda da produção. O desenrolar da recessão vai depender, na visão de Menezes Filho, das medidas que sejam tomadas daqui em diante. Ele explicou que, ao atingir cadeia grandes, médias e pequenas empresas, que dependem de vender seus produtos e serviços para fazer caixa e pagar seus funcionários, a recessão dificulta que essas empresas mantenham os empregos.

Mas a pior situação, segundo Naércio, é dos mais vulneráveis e o que ele chama de “invisíveis”, ou seja, aqueles que estão fora dos cadastros de famílias assistidas pelo governo.

“Os trabalhadores informais não têm poupança e dependem da sua renda gerada no dia a dia”. Sem esse fluxo de renda diário, eles não têm como fazer frente às suas necessidades de alimentação e higiene. Para ele, nesta camada da sociedade as condições de sobrevivência não estão garantidas.

“Fico preocupado com a crise social, as pessoas não vão ficar esperando alguma coisa acontecer se não tiverem comida para dar a suas famílias”, afirmou, completando: “haverá um aumento grande da pobreza e da desigualdade”. As maiores vítimas, diz, são as crianças, o que poderá comprometer o futuro do País.

“A ciência mostra que o período de zero a seis anos é fundamental para desenvolver habilidades cognitivas e sócio emocionais das crianças e se ela não se desenvolve nesse período, dificilmente vai recuperar depois e elas podem ter problemas de aprendizagem no futuro.”

Para o economista, a medida mais importante para evitar uma crise social é o programa de renda básica, com transferência de recursos através dos programas sociais. Na opinião dele, o governo está tomando as decisões corretas nesse sentido, com a liberação de recursos para estimulo ao crédito para as empresas e as transferências de renda para os mais pobres. O problema é que as medidas estão num ritmo muito lento.

“O governo tem que ser mais eficiente para evitar a crise social.”

Mudanças sociais

Na terceira apresentação do webnar, o antropólogo Ruben George Oliven, professor titular do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da UFRGS, reiterou a necessidade de investimento em ciência, saúde e educação para conter esta e as próximas epidemias.

Ele criticou o desinvestimento nestas áreas essenciais, com o Estado deixando de ter gastos obrigatórios como resultado de uma narrativa que prevaleceu nos últimos anos, de que a sociedade poderia ser regida pelo mercado e o Estado deveria ter papel mínimo.

“A economia talvez possa ser regida pelo mercado, mas a sociedade não; o Estado tem que ter um papel fundamental em preparar a nação para futuras epidemias”, afirmou.

Segundo ele, do ponto de vista de políticas públicas, uma das consequências dessa crise será a rediscussão do modelo tributário, com redução dos tributos sobre os assalariados e aumento daqueles sobre ganhos de capital, grandes fortunas e heranças. Do ponto de vista de comportamento, Oliven disse que a tendência é haver um maior uso de atividades realizadas a distância, o que “pode ser bom, como pode ser ruim”, avaliou.

Educação à distância

Acompanhando a audiência da webnar, o físico Antônio Martins Figueiredo Neto, da Universidade de São Paulo, disse que estava preocupado com o destino das aulas presenciais.

“Há um certo endeusamento de aulas virtuais, inclusive pelos dirigentes de universidades. Tenho receio do ‘boom’ do EAD para substituir aulas presenciais.”

Ruben Oliven respondeu que várias instituições privadas têm usado o EAD há muito tempo, como forma de reduzir salários dos professores, e é provável que a pandemia reforce o discurso e a prática no ensino privado. Ponderou, entretanto, que a aula virtual responde a uma necessidade gerada com a pandemia.

“Aula presencial é importante, mas o que estamos fazendo é transformar uma necessidade em uma virtude, já que não temos aulas presenciais.”

Lembrando que outros profissionais também estão utilizando o ambiente virtual para o trabalho – advogados, psicanalistas -, Oliven disse acreditar que haverá uma “mistura” de práticas virtuais e presenciais.

“A gente já tem feito isso. Dez anos atrás eu pegava avião para participar de bancas de defesa em outros estados e nos últimos anos tenho participado cada vez mais à distância”, contou.

O presidente da ABC, Luiz Davidovich, encerrou o encontro dizendo que é preciso aprender lições com essa pandemia, para que o País esteja preparado para as próximas.

Para ele, a questão dos vírus está relacionada a outras, como meio ambiente, o projeto econômico para o País e a questão do saneamento.

Davidovich mencionou o documento Pacto pela Vida e pelo Brasil, assinado por seis entidades – ABC, SBPC, OAB, ABI, Comissão Arns e CNBB (e que já ganhou apoio de quase uma centena de instituições e associações) -, e reafirmou o caráter interdisciplinar da pandemia.

“É uma questão que envolve ciências sociais, economia, matemática, físicos, químicos, biólogos, enfim, envolve a ciência como um todo. E esse país precisa cada vez mais da ciência.”

Janes Rocha – Jornal da Ciência