Universidade de Alberta no Canadá, Universidade de Chicago  e o laboratório Gilead Sciences fazem testes na China e nos EUA com o antiviral remdesivir .

O remdesivir foi desenvolvido pelo Gilead Sciences como antiviral para o combae ao Ebola. A empresa está fazendo testes nos EUA e na China. Entrevistados pelo site C&EN (Chemical & Engineering News) especialistas em doenças infecciosas que estão na linha de frente alertam que é improvável que os dados respondam claramente à questão se o remdesivir funciona no COVID-19, a doença respiratória causada pelo vírus SARS-CoV-2. Os primeiros testes são feitos nos pacientes mais doentes e difíceis de tratar. Além disso, os antivirais não apresentam ótimo histórico em eliminar os coronavírus, que pode ser um pouco mais sofisticado do que o vírus RNA comum.

Ainda assim, alguns observadores do setor esperam que os estudos apontem um grau de sucesso suficiente para convencer a Food and Drug Administration dos EUA a aprovar o medicamento experimental da Gilead.

Canadá
No fim de fevereiro, pesquisadores da Universidade de Alberta, no Canadá, haviam descoberto que o remdesivir era eficaz contra o vírus da síndrome Respiratória do Oriente Médio (Mers), um coronavírus relacionado ao Sars-Cov-2.
A substância é um dos vários medicamentos que estão tendo os ensaios clínicos acelerados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em pacientes com Covid-19 hospitalizados em diversos países.

Um dos hospitais que testam o medicamento é o Cedars-Sinai, nos Estados Unidos. Em um artigo publicado na revista The New England Journal of Medicine, pesquisadores dessa e de outras instituições nos EUA, na Europa, no Canadá e no Japão relatam que, em um pequeno grupo de pacientes internados em estado grave e tratados com a substância, 68% tiveram melhora clínica e 47% receberam alta hospitalar.

Jonathan Grein, diretor de Epidemiologia Hospitalar do Cedars-Sinai e um dos autores do estudo, explica que a terapia experimental foi fornecida aos pacientes por uso compassivo. Esse programa permite, nos Estados Unidos, acesso a tratamentos ainda não aprovados pela Food and Drug Administration (FDA) quando um paciente tem uma condição com risco de morte e nenhuma outra opção está disponível.

A análise incluiu dados de 53 pacientes, que receberam pelo menos uma dose de remdesivir até 7 de março. Os resultados mostraram que 68% das pessoas tratadas com a substância apresentaram melhora no nível de suporte de oxigênio ao longo dos 18 dias de acompanhamento. Além disso, das 34 que foram intubadas e necessitaram de ventiladores mecânicos, 57% tiveram os tubos respiratórios retirados.

Chicago
Um estudo feito pela Universidade de Chicago, e divulgado pelo site médico Stat, indica que o remdesivir ajuda na recuperação de pacientes que desenvolveram a doença covid-19.
O tratamento acelera a recuperação da febre e de sintomas respiratórios, o que fez com as pessoas que participaram do estudo fossem liberadas do hospital em menos de uma semana.
A melhor notícia é que a maioria dos nossos pacientes já recebeu alta, o que é ótimo. Apenas dois pacientes morreram”, disse Kathleen Mullane, especialista em doenças infecciosas da Universidade de Chicago que supervisiona os estudos de remdesivir. “A maioria dos nossos pacientes é grave e sai em seis dias, o que indica que a duração da terapia não precisa ser de dez dias. Temos muito poucos que duraram dez dias, talvez três”, afirmou.
A Universidade de Chicago, no entanto, ressalta que as descobertas do estudo, feito com 125 pessoas, não são definitivas e não devem ser adotadas para tirar conclusões.

Fracasso contra Mers, esperança contra o Covid19

Embora Gilead tenha desenvolvido o remdesivir para o Ebola, que pertence a uma família de vírus diferente do SARS-CoV-2, a “maquinaria viral tem elementos em comum”, afirmou Erica Ollmann Saphire, especialista em vírus do Instituto de Imunologia La Jolla, por e-mail. Esses elementos comuns incluem polimerases, o que significa que, para qualquer “molécula segura, biodisponível e fabricável, a única questão restante é se ela funcionará contra esse outro vírus”, afirmou ela.
Quando o coronavírus começou a se espalhar, um dos primeiros compostos a ser retirado do freezer foi o remdesivir. Descoberto por Gilead e pelo instituto do Exército durante o surto de Ebola de 2014 na África Ocidental, o inibidor da RNA polimerase parecia uma boa escolha. Embora não tenha funcionado no Ebola – um fracasso que muitos atribuem ao atraso com que foi usado na progressão da doença – estudos em pessoas saudáveis e infectadas mostraram que a droga é bastante segura.
E os pesquisadores apontam para uma ciência sólida sobre por que o remdesivir ainda pode funcionar contra o COVID-19. O genoma do SARS-CoV-2 é constituído por uma sequência de nucleotídeos que, durante a replicação, são reconstruídos, um a um, pela polimerase viral. A RNA polimerase dependente de RNA é um bom alvo de drogas porque é “quase exclusivamente associada ao vírus”, afirma o virologista da Universidade de Wisconsin-Madison, Andy Mehle. Os inibidores da polimerase serão altamente específicos para células infectadas, poupando as saudáveis.

É inserido o remdesivir, que age como uma imitação da adenosina – um dos nucleotídeos dessa cadeia. O vírus é levado a incorporar a forma ativa da droga em seu genoma, impedindo-o de fazer mais cópias de si mesmo. O mecanismo pelo qual o remdesivir faz isso ainda não está claro, mas “os inibidores da polimerase funcionam principalmente causando mutações no genoma ou bloqueando a função da polimerase”, diz Mehle.

Durante a testagem do remdesivir em pessoas com Ebola, vários grupos acadêmicos e governamentais estavam explorando seu potencial para conter outros vírus, incluindo os coronavírus que causam SARS (síndrome respiratória aguda grave) e MERS (síndrome respiratória do Oriente Médio). Eles mostraram em experimentos de laboratório e estudos em animais que o remdesivir poderia tratar infecções e preveni-las completamente – o que os cientistas chamam de profilaxia.
Uma razão pela qual tantos compostos falharam é que os coronavírus são um pouco mais inteligentes do que outros vírus de RNA. Eles são os únicos com uma polimerase que pode corrigir erros em seus genomas, o que significa que eles podem detectar e ignorar as imitações que os caçadores de drogas normalmente projetam. O laboratório de Denison descobriu que o remdesivir, como o EIDD-2801, pode ignorar essa função de revisão.

Esses estudos, combinados com os dados de segurança do Ebola, forneceram uma justificativa para testar o composto contra o novo coronavírus.

(Com informações do C&EN, Correio Braziliense e Revista Exame).