Se presidente não tem apoio para um golpe, “agitadores e agitações” estimulados por ele podem gerar pretextos para alguma medida de “emergência” antes do pleito de 2022, pondera professor da Unicamp

Da RBA

O embate entre Jair Bolsonaro e as instituições se tornou mais agudo de julho para cá. Suas investidas contra pilares da democracia, no entanto, têm recebido respostas duras. Nos últimos dias, o ex-deputado e presidente do PTB, Roberto Jefferson, foi preso após ameaças nas redes sociais com direito a armas em punho. O blogueiro Allan dos Santos, entre outros, foi objeto de uma ação do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) contra a monetização de seu canal na internet por espalhar fake news. Até mesmo o popular cantor Sérgio Reis se meteu em confusão. Ele e o deputado Otoni de Paula (PSC-RJ) foram alvos de mandados de busca e apreensão da Polícia Federal autorizados pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, nesta sexta-feira (20).

Já o chefe do governo vem radicalizando com o discurso contra as eleições e o sistema eleitoral desde o início deste mês. Ele aproveitou o gancho da defesa do voto impresso para alimentar o cada vez menor séquito de seguidores de “raiz”. Desferiu uma série de insanidades antidemocráticas contra o STF, o TSE, a urna eletrônica e figuras dessas instituições. Ainda em julho, já chamara Luís Roberto Barroso, presidente do TSE e ministro da mais alta corte do país, de “imbecil”. Já em agosto, às vésperas de a Câmara dos Deputados votar a bandeira que alimentava o bolsonarismo nas redes, ameaçou jogar “fora das quatro linhas” da Constituição.

Mas sofreu derrotas seguidas. Principalmente, viu a Câmara “enterrar” a PEC do voto impresso. O termo fúnebre para a horda bolsonarista foi utilizado pelo deputado federal Arthur Lira (PP-AL), presidente da Casa. Para aquele mesmo dia 10 de agosto, o presidente havia programado um desfile de blindados em plena Esplanada dos Ministérios, o que assustou os democratas, mas a bravata se transformou em um fracasso, memes nas redes e constrangimento para as Forças Armadas.

Moraes: “inimigo maior“
Após a queda do voto impresso, ele se volta àquele que elegeu como seu inimigo maior, Alexandre de Moraes, que no início do mês incluiu o presidente no inquérito das fake news por seus ataques sem provas às urnas eletrônicas. Nesta sexta, o presidente protocolou no Senado um pedido de impeachment do ministro. A medida, cuja perspectiva de êxito é zero, é mais uma para alimentar seus seguidores e redes sociais infestadas de robôs.

Para o cientista político Frederico de Almeida, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), está claro que Bolsonaro “está cada vez menor em termos de apoio” e, nesse quadro, o mandatário tenta manter o diálogo com o também cada vez menos ocupado “cercadinho” – como passou a ser chamado o local onde o presidente encontra apoiadores à porta do Planalto. “Para ampliar a base e recuperar eleitores perdidos, ele depende de política pública, auxílio emergencial e incentivo à economia, coisas que não consegue fazer com a equipe que tem, a incapacidade de liderança e gestão e a relação com o Congresso, que está com ele na mão”, avalia o analista .

O problema para a majoritária parcela democrática da sociedade, e também para os que votaram no atual mandatário, mas se arrependeram, é que o isolamento não parece apontar para um fim iminente de seu governo. Para Almeida, a intenção das instituições é justamente acuá-lo e, de certa forma mantê-lo sob controle e diminuir o tamanho do cercadinho ainda mais. “O plano é esse. Mas a questão é saber se acuar esses caras e o próprio Bolsonaro no cercadinho é suficiente para levar o país às eleições de 2022. Não parece haver uma vontade das mesmas instituições que o acuam de adotar medidas institucionais mais diretas, como impeachment, processo de responsabilização criminal etc.”, diz o professor da Unicamp.

Agitadores e agitações
Em sua opinião, é até possível que surja um desfecho que aponte concretamente para o fim do mandato antes das eleições, por exemplo como resultado da CPI da Covid ou de um fato novo antes das eleições. “Mas a estratégia das instituições me parece ser mantê-los acuados e administrar isso até as eleições. Por outro lado, é muito tempo até lá para o grau de radicalização acelerado que Bolsonaro mostra”, pondera Almeida.

Para ele, o presidente não tem apoio para um golpe, “mas agitadores e agitações” estimulados por ele podem gerar pretextos para alguma medida de emergência ou exceção. Isso seria a senha para que os militares entrassem como “salvadores da situação que eles mesmos criaram, abandonando Bolsonaro e entrando como garantidores da ordem no momento em que as coisas saiam de controle”.

No Congresso, a situação do chefe do clã presidencial mudou para relativamente melhor, com a eleição de Arthur Lira (PP-AL) no lugar de Rodrigo Maia (sem partido), recém-nomeado secretário de Projetos e Ações Estratégicas do governo paulista de João Doria.

“Maia tinha claramente uma posição de enfrentamento a Bolsonaro, embora muita gente vá dizer que era um enfrentamento pouco combativo. Mas, embora o Centrão seja, da pior maneira possível, uma força de contenção de Bolsonaro, porque querem sugar o governo, eles não têm nenhum interesse em entrar numa aventura golpista”, conclui Frederico de Almeida. Não custa lembrar que a bandeira do voto impresso foi “enterrada” na Câmara.

Preço da “brincadeira”
Já o cantor Sérgio Reis está pagando caro por prometer “quebrar tudo e tirar os caras (do STF) na marra”. Mesmo depois de dizer que “era tudo brincadeira”, recebeu a “visita” da Polícia Federal em sua residência de alto padrão na Grande São Paulo na manhã de hoje. Para completar, seus parceiros musicais estão se afastando. Gutemberg Guarabyra – da antiga dupla Sá & Guarabyra – , Guilherme Arantes e a cantora Maria Rita informaram que desistiram de participar de seu novo disco, contrariando parcerias anteriormente firmadas.