Em artigo para o site Viomundo , o jornalista Lelê Teles critica o banditismo fardado e o coronelismo no Ceará, e lembra o episódio da facada sem sangue que definiu as eleições de 2018.

Vá de retro Cid

por Lelê Teles

Por uns minutos tive Cid como um herói, quem diria. Ou anti herói. Na verdade ele me pareceu um chapolin colorado, aquele que aparece na hora exata e faz o que ninguém recomendaria.

Dizem que os irmãos Gomes são cabras machos, o que já é uma tremenda fuleiragem, porque cabra macho é bode, a não ser que se trate de uma cabra trans.

antônio carlos magalhães e fernando collor de melo (vai em minúsculas mesmo) também tinham fama de serem bode trans.

E são abjetas criaturas. Macheza sempre foi sinônimo de prepotência.

Essa caricatura de macho dos Gomes, que na verdade é destempero e arrogância, gerou um fato inusitado.

Alvejaram El Cid, e o cabra sangrou, o que o coloca em uma categoria humana distinta daquele seu colega de política que por enquanto nos preside.

Este num sangra com facada, com tiro e nem com estaca de madeira no peito.

Levemos a coisa a sério: é inacreditável que policiais armados estejam em motim, usando familiares como escudo e a sociedade como alvo, levando o terror à população sobre o pretexto de pedirem aumento salarial.

Sim, eles ganham mal, mas nem por isso têm o direito de barbarizar o Estado.

Quando a greve do trabalhador civil, desarmado, é considerada abusiva ou ilegal, a polícia, armada e fardada, vai lá e senta a cacetada em pais e mães de família.

E quando o ilegal é o cabra de farda? E agora quem poderá nos proteger?

É nessas horas que a gente precisa de um sujeito que saiba pilotar uma retroescavadeira.

E Cid parece ter frequentado a autoescola, porque o fez com maestria.

Agora eu te pergunto, de onde diabos saiu aquele veículo?

Cid veio pilotando o estranho carango de casa e o deixou estacionado numa esquina esperando o momento adequado para entrar em cena? Por se acaso, como se diz em español.

Aí seria premeditação.

Ou será que o trator passava pelo caminho e El Cid, movido por forte emoção e senso de urgência, arrancou o motorista da boléia e assumiu o comando, como um super-homem do sertão?

Acho mais provável essa.

Não nos esqueçamos que o fato se deu em Sobral, terra natal de Didi Mocó. e a coisa toda cheirou-me a um filme dos Trapalhões.

Se o veículo pertencia ao município e estava a serviço, o desvio de percurso foi, também, um desvio de finalidade, o que pode gerar um processo administrativo.

Cid, é bom que se diga, tentou o diálogo, queria resolver tudo na saliva e na garganta.

Não lhe deram ouvidos.

Então, ele voltou, megafone em punho, e falou grosso: ligou o cronômetro e deu cinco minutos para os amotinados se desamotinarem.

Deram-lhe uma banana.

Mas Cid não é de levar desaforo pra casa; por isso, o inusitado aconteceu.

Você sabe, meu caro folião, quando um irmão se chama Ciro e o outro Cid, você já percebe o tamanho da humildade da moçada, eles não vieram ao mundo a passeio.

E quando passeiam é montado numa patrola.

Há imagens de um sujeito atirando no senador cearense, o atirador tinha o rosto oculto. Mas há de ser desmascarado e pagar pelo crime que cometeu.
Legítima defesa?

Ah, cara, Cid tava blefando. Claro que ele não sairia esmagando as pessoas como um doido varrido.

Sobral é terra de Didi, mas também é berço de Belchior e já recebeu a inusitada visita de Albert Einstein, cabelo arrepiado e língua de fora.
Há razão na loucura!

Sinto muito pelo o que ocorreu com Cid, o seu agressor é um covarde e tem que ser punido com os rigores da lei.

Sinto muito que El Cid tenha que ter chegado a essa situação limite.

Torço pela sua recuperação e a sua volta à refrega política, e que da próxima vez que for de retro use um colete à prova de bala e um capacete blindado; todo super-herói tem uma carapaça, amigo.

Ir de peito aberto contra uns caras que já tinham se mostrado dispostos a tudo, e já estavam a delinquir pela cidade, de balaclavas, barbarizando a vida dos cidadãos, é suicídio, man!

Finalizo assim: agora, ferido, Cid é um ser humano e merece toda a minha solidariedade; porém, uma vez curado, volta a ser um machão arrogante e mascarado, um coroné das típicas oligarquias que há muito entram de peito aberto a mostrar os dentes e a exibir poder; no gogó, um tipo de retroescavadeira verbal.

Dessa vez tamo junto, o inimigo do meu inimigo é meu amigo.

Mas há ressalvas: em cima daquela retroescavadeira, El Cid foi um herói pra mim; no chão, não.

Comigo ele não dança xaxado, porque fico vexado só de escutar chiado do chinelo dele.

Palavra da salvação.

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