Desde o início da pandemia do novo coronavírus em dezembro na China, outros eventos epidemiológicos, climáticos e naturais estão eclodindo em todo o mundo e chamam a atenção para os efeitos nocivos da interferência do homem na natureza.

Marcus Vinícius

Quando teve início em dezembro de 2019 na China, a contaminação pelo novo coronavírus covid19 ainda não tinha ganhado o status de pandemia, que só viria a ser confirmado em março deste ano, quando o contágio ganhou escala global. Uma das hipóteses para o surgimento do vírus são agressões ao meio ambiente, como o consumo de animais silvestres.

Marmota seria novo vetor da peste bubônica

No domingo, 5/6, novo alerta na fronteira da China com a Mongólia: 146 pessoas foram colocadas em quarentena na cidade de Bayannur, na Mongólia interior, no norte da China, depois que um pastor foi internado com diagnóstico de peste bubônica. Ele havia consumido carne de marmota, um roedor comum na região. A caça foi proibida. A bactéria Yersinia pestis, que provoca a peste bubônica pode ser transmitida para o homem por pulgas que tenham mordido um rato infectado.

Mas não são apenas os animais silvestres que transmitem doenças fatais aos homens. No final do mês de junho, autoridades chinesas comunicaram a OMS (Organização Mundial de Saúde) um novo subtipo do H1N1 detectado em porcos. Batizado de G4 EA H1N1 –  “G4” é o nome do novo genótipo, grupo de genes que faz o subtipo deste vírus -, ele seria “rearranjo genético” com o vírus que causou a pandemia de H1N1em 2009. O vírus conseguiu passar de porcos para humanos, mas não há registro de infecção entre pessoas. Por enquanto, os cientistas monitoram a situação. Entre 2011 e 2018, um total de  179 vírus da gripe em porcos foram detectados, sendo a maioria deles “G4”. A China possui 500 milhões de suínos.

Pesquisa mostrou novo tipo de vírus H1N1 em porcos

A superexploração da natureza está na raiz destes problemas,  seja na degradação das florestas, consumo de animais silvestres, ou na criação intensiva de animais para abate, como porcos e aves. Os novos vírus surgem como reação do planeta e mostram os limites para o modelo econômico vigente. O remédio, tudo indica, está na produção sustentada. Só não vê quem não quer.

Na música, “As aventuras de Raul Seixas na cidade de Thor”,  Rauzito dizia:

Buliram muito com o planeta,

o planeta como um cachorro eu vejo,

se ele não aguenta mais as pulgas se livra delas no saculejo”.

No dia 9 de fevereiro deste ano fevereiro, cientistas brasileiros da Missão Antártida, registram  a maior temperatura na história da Ilha Seymour, na Antártida, a 1.100 km da Argentina: 20,75ºC. O recorde do local até então era do ano de 1982, quando a temperatura havia chegado aos 19,8ºC. Três dias antes foi a vez da Antártida continental registrar sua mais alta temperatura da história: 18,3ºC.

Calor na Antártida

Ciclone em Santa Catarina

Quatro meses depois do registro na Antártida,  um evento metereológico chegou ao Brasil. Na última terça-feira, 30/06, um ciclone causou morte, medo e destruição em Santa Catarina. Denominado ciclone bomba o evento deixou ao menos 10 pessoas mortas, 1,5 milhão de unidades consumidoras sem luz e causou destruição em todas as regiões de Santa Catarina. Foi considerado o pior evento climático com ventos da história do Estado. O desastre superou o Furacão Catarina, em 2004 e o Tornado de Xanxerê, em 2015, segundo nota meteorológica divulgada no sábado (04/07), pela Defesa Civil.

Mamãe natureza tem formas agressivas para reagir. Com o desmatamento, florestas dão lugar a monoculturas de soja, trigo, milho, sorgo, arroz e outras culturas comerciais. Na fala de alimentação natural, insetos migram para outras áreas onde há comida. Isto pode explicar a nuvem de gafanhotos que apareceu no dia 26 de junho na Argentina, e que colocou produtores rurais de cabelo em pé no Rio Grande do Sul. Os informes de hoje dão conta de que os insetos estão a 180 quilômetros de Uruguaiana (RS), na fronteira com o Brasil.

Nova economia

O jornalista Miguel Ángel García Veja escreveu no dia 13 de abril deste ano artigo para o El País, onde analisou o mundo pós-covid19:

“O ser humano e os povos estão atravessados por cicatrizes e memória. Ambos constroem o que serão e o que foram. A hiperinflação da República de Weimar ainda pesa nas políticas alemãs e sua austeridade; a Grande Depressão deixou nos norte-americanos um sentimento de “não desperdiçar” (waste not, want not); e a crise de 2008 e seu legado de precariedade e iniquidade ainda empobrecem a vida de milhões de pessoas em muitas democracias ocidentais. Mas todo desastre é diferente. O crash de 1929 e a Segunda Guerra Mundial definiram as bases do moderno Estado de bem-estar, e a epidemia de gripe de 1918 ajudou a criar os sistemas nacionais de saúde em muitos países europeus”, aponta.

Na sua opinião, a pandemia do coronavírus covid19 está fazendo a Europa e os Estados Unidos reverem a globalização. A tendência é de incentivo à produção nacional – para evitar a dependência da China e de outros países -, e de adoção de novas tecnologias poupadoras de energia, eliminando ao máximo a dependência de combustíveis fósseis.

Em maio deste ano, em Amsterdan (Holanda), um manifesto assinado por 170 cientistas e intelectuais propôs as bases para um novo modelo de desenvolvimento para o século XXI:

  1. Passar de uma economia focada no crescimento do PIB, a diferenciar entre setores que podem crescer e requerem investimentos (setores públicos críticos, energias limpas, educação, saúde) e setores que devem decrescer radicalmente (petróleo, gás, mineração, publicidade, etc.).
  2. Construir uma estrutura econômica baseada na redistribuição. Que estabelece uma renda básica universal, um sistema universal de serviços públicos, um forte imposto sobre a renda, ao lucro e à riqueza, horários de trabalho reduzidos e trabalhos compartilhados, e que reconhece os trabalhos de cuidado.
  3. Transformar a agricultura comercial e intensiva para uma regenerativa. Baseada na conservação da biodiversidade, sustentável e baseada em produção local e vegetariana, ademais de condições de emprego e salário justas.
  4. Reduzir o consumo e as viagens. Com uma drástica mudança de viagens luxuosas e de consumo desenfreado, a um consumo e viagens básicas, necessárias, sustentáveis e satisfatórios.
  5. Cancelamento da dívida. Especialmente de trabalhadores e donos de pequenos negócios, assim como de países do Sul Global (tanto a dívida a países como a instituições financeiras internacionais).

Um mundo novo deve (e precisa) surgir após a pandemia. Não será algo automático, mas poderá ser mais rápido do que as mudanças anteriores. Esta década dos anos 20 deste século XXI promete ser pródiga para o surgimento de novas técnicas e invenções que virão para tirar a humanidade do capitalismo predatório para um modelo auto-sustentável.

Segundo o grande filósofo Platão, “a necessidade é a mãe da invenção”. Nunca antes na história da humanidade este pensamento foi tão necessário.

Com informações do G1, RBA, Folha, Inpe.

 

PS: Raul Seixas era mesmo um profeta. Além do “saculejo” da Terra, previu o coronavírus no hit: “O dia em que a Terra parou!”. Era mesmo um cabra arretado!