Em entrevista ao site ‘Tutaméia’, ex-ministro das Relações Exteriores e da Defesa defende a saída das Forças Armadas do governo. Diplomata apela à sensatez de oficiais do comando com quem conviveu: “Talvez alguns tivessem a ilusão de que poderiam tutelar o presidente. O Bolsonaro é intutelável”

Apontado por David Rothkopf, comentarista da revista norte-americana ‘Foreign Policy’, como “o melhor chanceler do mundo”, em 2009, Celso Amorim é o antípoda do atual chanceler Ernesto Araújo, “o pior diplomata do mundo”.

Do alto de sua experiência como chanceler brasileiro entre 1993 e 1995, e depois entre 2003 e 2010, e ainda como ministro da Defesa entre 2011 e 2015, ele lamentou o rebaixamento atual das Forças Armadas e defendeu sua retirada do desgoverno Bolsonaro, que considera “tóxico”.

Em entrevista ao site ‘Tutaméia’, Amorim lembrou de “pessoas sensatas” do comando das Forças Armadas com as quais conviveu quando foi ministro da Defesa. “Eram pessoas respeitosas da lei, pessoas que se interessavam pela defesa do país – estávamos debatendo acordos militares com a China e com a Rússia”, recordou.

“Fico muito espantado com essa visão diminuída do Brasil, do ponto de vista estratégico, de ser um quintal dos Estados Unidos, e todos esses desmandos na área governamental – na área de educação, na área ambiental, nas relações governamentais, em todos esses lugares é um desastre sem tamanho”, prosseguiu Amorim.

Conheci pessoas muito sérias nas Forças Armadas. Mas vejo que elas estão muito afetadas. Acho que todas essas coisas são lamentáveis em todos os aspectos. A minha opinião é que as Forças Armadas deveriam sair”, concluiu o embaixador.

“É lamentável para a instituição, como instituição, essa contaminação política”, critica Amorim, lembrando que há um general na Casa Civil, um general da ativa na Saúde e a presença de milhares de militares em cargos federais, ressaltando que nem todos nas Forças Armadas estão satisfeitos com isso, embora ainda não haja verbalização. Com exceção do general Santos Cruz, ex-ministro da Secretaria do Governo de Bolsonaro.

Em resposta ao ex-chefe, que havia dito que “quem decide se um povo vai viver na democracia ou na ditadura são as suas Forças Armadas”, Santos Cruz retrucou: “Só posso dizer que isso é covardia com a população e com as Forças Armadas, que trabalham e se dedicam às suas atividades, à defesa do Brasil e em auxílio à população em todos os momentos de necessidade, sempre dentro da lei”.

Para o general, a fala de Bolsonaro foi mais uma tentativa de enganar a população e de arrastar as Forças Armadas para o centro de discussões políticas. “Isso aí é um devaneio completo. Falta de responsabilidade total, não tem cabimento querer envolver Forças Armadas em aventura política pessoal. Isso não é estratégia nenhuma, idiotice não é estratégia”, atacou o ex-ministro.

 Impeachment

Sobre a polêmica entre o presidente e seu ex-subordinado, Amorim disse acreditar que as declarações do presidente denotam a preocupação de Bolsonaro com a possibilidade cada vez mais palpável de impeachment. “No fundo é isso. Então, ele é preventivo, do ponto de vista dele. Não foram as Forças Armadas que disseram; quem disse foi o presidente. Claro que dessa vez elas não desmentiram…”

Amorim considerou a reação de Santos Cruz significativa. “Ele não falaria o que falou se isso não tivesse o mínimo de sentimento no mesmo sentido dentro das Forças Armadas. Ninguém quer falar no vazio”, avalia.

“Eu acho que isso reflete um sentimento também de incômodo das Forças Armadas. Mas, na medida em que ficam, que as coisas vão acontecendo, que as tragédias vão acontecendo, que os desastres vão acontecendo, eles estão no governo. Talvez alguns tivessem a ilusão de que poderiam tutelar o presidente. O Bolsonaro é intutelável. E fica difícil até imaginar como sair. Ficaram colados, porque obtiveram vantagens individuais e corporativas”, concluiu o ex-ministro da Defesa.

Celso Amorim disse ainda que a queda de Donald Trump e a posse de Joe Biden representam perda de apoio ideológico para Bolsonaro, que “fez alianças com um líder falido”. O conjunto de falas e ações de Bolsonaro, somado às barbaridades de Araújo no Ministério das Relações Exteriores, diz o embaixador, agora deverão atravancar as possibilidades de relações mais positivas com o novo governo ianque.

“Esse mundo da diplomacia brasileira é um mundo absolutamente alucinado. É o conjunto da política brasileira, mas na diplomacia isso fica mais óbvio pelo contraste com o que sempre foi. Nunca vi nada nem de longe parecido. Vivemos um delírio. O Itamaraty de hoje, que não é o verdadeiro Itamaraty, é parte do problema”, criticou Amorim.

“Mas, veja bem, o esteio dessa ideologia extremada, reacionária, está se desfazendo. Não que vá se desfazer, não tenho ilusões de que a extrema direita dos Estados Unidos vai acabar, mas ela está perdendo poder, o poder de fato neste momento”, ressaltou.

“Bolsonaro perde força com a chegada do governo Biden. O Brasil não está nas prioridades do governo Biden. Claro que não vai ser ignorado”, prevê Amorim. “Bolsonaro teria uma disjuntiva. Ele vai tentar evitar, ele vai tentar conciliar. Mas eu acho que é irreconciliável, a médio prazo. Não sei se a gente resiste, o país, as pessoas… É uma disjuntiva.”

Sobre as primeiras medidas anunciadas por Biden, Celso Amorim é categórico: “O que o Biden anunciou como programa econômicos de emergência, aquilo poderia ser copiado no Brasil: aumento de salário mínimo, pagamento de auxílio emergencial, apoio a pequenas e médias empresas. O Biden nomeou seis crises que os Estados Unidos enfrentam: o vírus, a mudança climática, a desigualdade, o racismo, a verdade e a democracia, e a posição internacional dos EUA. Tirando essa última, todas as outras eu compro integralmente. Se tivéssemos um governo aqui dizendo que está preocupado com o vírus, a mudança do clima, a crescente desigualdade, o racismo e a verdade –contra as fake news – eu compro integralmente”.

Leia e veja a entrevista na íntegra aqui.