Empresa criada na época de Bush Jr. cometeu dezenas de assassinatos durante a guerra do Iraque e afirma que pode colocar de quatro a cinco mil homens a serviço de Juan Guaidó para derrubar o governo de Maduro.

O site Carta Maior, especializado em análise política e geopolítica, publica matéria veiculada originalmente pelo portal argentino Página 12 que revela a intenção de Washington de enviar mercenários á Venezuela, diante do fracasso da tentativa de golpe no dia 30 de abril pelo auto-denominado presidente Juan Guaidó.

Uma vez que os militares venezuelanos não aderiram ao golpe de Guaidó, um exército particular pode estar sendo mobilizado para esta função: o Blackwater, firma que cometeu dezenas de assassinatos durante a guerra do Iraque.

Um artigo publicado recentemente pela agência Reuters conta detalhes sobre a intenção dessa companhia de formar uma força irregular de quatro ou cinco mil combatentes para apoiar o golpe de Estado contra o presidente Nicolás Maduro. A informação é atribuída a Erik Prince, fundador dessa sociedade concebida para matar, e que pretende ganhar uma verba em dinheiro (cerca de 40 milhões de dólares) para financiar sua aventura militar.

Com esse propósito, segundo a agência britânica, o empresário, ex-marine e patrocinador da campanha eleitoral de Donald Trump mantém reuniões desde abril com multimilionários exiliados venezuelanos e simpatizantes do magnata que governa os Estados Unidos.

Prince é um sujeito de exuberante prontuário. Uma espécie de bucaneiro pós-moderno, que lembra um personagem do filme Walker, protagonizado por Ed Harris, onde um mercenário do Século XIX invade a Nicarágua. Embora a operação em curso, planejada por este prestados de serviços da CIA, parece ser difícil de ser concretizada, é bom não subestimá-lo: sua Blackwater atuou durante anos no Iraque, onde recebeu várias e graves acusações por suas intervenções. A principal delas ocorreu em 2007 quando seus jagunços profissionais mataram 17 civis na Praça Nisour, em Bagdá. São vários os casos em que empregados dessa empresa foram condenados por homicídio.

Baseada em quatro fontes diferentes, a investigação sobre a firma estadunidense menciona um tal de Lital Leshem, especialista em segurança e inteligência do Grupo de Recursos Frontier, cuja sede se encontra em Hong Kong, e que mantém vínculos comerciais com a Blackwater. Ele confirmou o interesse de Prince em se envolver no país sul-americano dono das maiores reservas petroleiras do mundo. “(A Blackater) tem uma solução para Venezuela, assim como tem para muitos outros lugares”, explicou Leshem. Entretanto, o assessor Marc Cohen, porta-voz do criador da Blackwater, expressou que “não há planos para operar ou implementar uma operação na Venezuela”.

A agência reuters também consultou o assistente especial em Comunicação estratégica de Trump, Garrett Marquis, que se negou a dar uma resposta sobre se Prince havia manifestado ao governo dos Estados Unidos o seu propósito de formar uma força mercenária. Essa força paramilitar, que ninguém quer confirmar se existe, seria integrada por “peruanos, equatorianos, colombianos e outros cidadãos latinos”, segundo um informante que argumentou que essas nacionalidades seriam, na visão do criador da Blackwater, “mais aceitáveis politicamente que os estadunidenses”.

A proximidade de Prince com o governo dos Estados Unidos vem de sua contribuição com a campanha de Trump, à qual ele doou 100 mil dólares. O Partido Republicano também está entre seus beneficiários. Mas há outro laço que os vincula: sua irmã, Betsy DeVos, é a secretaria de Educação da atual administração estadunidense.

DeVos é uma milionária e financiadora histórica das campanhas do Partido Republicano, e foi muito questionada desde que assumiu o cargo, em fevereiro de 2017 – tanto que o vice-presidente Mike Pence teve que agir no Senado para desempatar a votação para a sua nomeação. O líder da minoria (Partido Democrata) na Câmara Alta, Chuck Schumer, disse que DeVos era “uma das piores ocupantes do cargo na história”.

Seu irmão, Erik Prince, começou a ganhar dinheiro quando a mãe de ambos vendeu a corporação fundada pelo marido (pai dos irmãos) e comprou alguns hectares de um pântano na Virginia, onde instalou a Blackwater, e começou então sua carreira na indústria dos exércitos privados. Para a Venezuela, o ideólogo da intervenção mercenária concebeu a tese do “efeito dinâmico”, diz a Reuters. Quer acabar com a estagnação do conflito que existia até a terça-feira passada (30/4), quando Guaidó lançou sua iniciativa de ir às ruas de Caracas contra o governo. Um golpe de Estado en marcha ao qual a companhia de mercenários acredita que pode colaborar.

Por sua má reputação e pelas críticas que recebeu em suas ações no Iraque, Prince vendeu a companhia em 2010, e fundou uma segunda sociedade, batizada como Blackwater USA, que comercializava munições, silenciadores e armas brancas. Manteve o nome durante um tempo, mas logo o mudou, passando a se chamar Academi. Se mudou aos Emirados Árabes Unidos, onde montou o aparato de inteligência desse país, e continua com suas guerras privadas a serviço do melhor cliente. O Iêmen é outra de suas vítimas. Também foi denunciado pelo ex-primeiro-ministro do Qatar, Hamad Al Attiyah, acusado de preparar uma invasão mercenária ao território de seu país.

Seus antecedentes de prestador de serviços da CIA e do Departamento de Estado dos Estados Unidos explicam a vigência de Prince, que soube difundir seus negócios mundo afora. Em 2014, ele se tornou CEO do Grupo Frontier – cargo que ocupa até hoje, segundo a rede social Linkedin –, com sede em Hong Kong. Esse grupo o relaciona com a empresa de investimento estatal chinesa Citic, que por acaso é a porta de entrada para seguir vendendo, em um mercado ainda maior, os seus esmerados serviços de segurança e exércitos a la carte. A Venezuela não é o seu único objetivo, mas sim o que permitiu que ele voltasse a falar de sua velha criação, a Blackwater, nesta parte do mundo.

Ex-agentes da Blackwatersão condenados por massacre no Iraque

Um ex-agente da empresa de segurança privada Blackwater foi sentenciado à prisão perpétua e outros três receberam penas de 30 anos de prisão pelo massacre ocorrido em 2007 no Iraque, que deixou pelo menos 14 civis mortos.

Os quatro condenados da Blackwater foram declarados culpados em outubro passado por uma série de acusações que variam de homicídio doloso qualificado a homicídio não premeditado, após incidentes na praça Nisour de Bagdá.

Durante o julgamento de dois meses em uma corte federal de Washington, o júri escutou como os quatro acusados abriram fogo com fuzis com mira telescópica, metralhadoras e lança-granadas na praça lotada de gente, quando escoltavam um comboio diplomático.

Funcionários iraquianos disseram que 17 civis morreram na troca de tiros enquanto uma investigação de americanos determinou 14 mortes. Outros 18 iraquianos ficaram feridos.

O juiz federal Royce Lamberth sentenciou Nicholas Slatten à prisão perpétua pela acusação de homicídio doloso qualificado.

Os outros três acusados – Paul Slough, Evan Liberty e Dustin Heard – foram sentenciados a 30 anos, o mínimo previsto pela legislação por usar metralhadoras em um crime violento.

“O episódio violento que ocorreu jamais poderia ser consentido pela corte”, disse Lamberth, indicando que levou em conta as declarações em favor dos quatro acusados. “Está claro que estes jovens entraram em pânico”.

A chacina, ocorrida em 16 de setembro de 2007, aprofundou o ressentimento contra os americanos no Iraque.

Após o massacre, a Blackwater teve que cessar suas atividades no Iraque. Mas segundo mensagens diplomáticas americanas, difundidas pelo Wikileaks, centenas de ex-funcionários da empresa continuaram trabalhando no país para outras empresas. (Com informações do pagina12.com.ar e G1).