Uma intervenção potente tem tomado as redes sociais desde o último dia 25 de novembro, data mundial de combate a violência contra a mulher e marco inicial dos 16 dias de ativismo pelo fim da violência contra a mulher. Em fila mulheres vendadas fazem passos firmes e em coro cantam contra a violência de gênero. A letra, em espanhol, fala em uma língua universal compreendida por mulheres e meninas em todo o mundo: “el violador eres tú!”.

 

 Por Ana Cristina Santos – Fotos: Prensa Libre/EFP – A performance “Un violador em tu camino” foi criada em Valparaíso, cidade que fica a 120km de Santiago, capital do Chile, e tomou o mundo. Além de várias cidades chilenas há vídeos da coreografia sendo executada em Barcelona, Madri, Paris e México, só para citar alguns exemplos. “Y la culpa no era mía, ni dónde estaba , ni cómo vestía”. É difícil não se arrepiar enquanto assistimos.

Os indicadores apresentados pela ONU estimam que um terço das mulheres, em todo o mundo, ja foram vítimas de violência física ou sexual. No Brasil, de acordo com o Atlas da Violência 2018, 135 mulheres são estupradas por dia. Esse número pode ser ainda maior se considerada a subnotificação, que é um padrão nesses casos. A projeção do estudo é que entre 300 e 500 mil mulheres sejam estupradas, por ano, em nosso país.

Num cenário de medo e constante opressão pelos valores sociais arraigados pela tradição do machismo e do silenciamento não é de se estranhar que o canto das chilenas ganhe corações e simpatia também entre as brasileiras.

Deveria ser óbvio, mas ainda é preciso reafirmar todos os dias que a culpa não é da mulher, que não importa onde ela estava ou o que vestia. A culpa é do estuprador! E essas meninas e mulheres encontraram uma forma forte e efetiva de passar essa mensagem.

Coletivo LasTesis

As criadoras da canção são Dafne Valdés, Paula Cometa, Sibila Soromayor e Lea Cáceres, de Valparaíso, que há um ano e meio criaram o coletivo LasTesis, com o objetivo de retomar teses de autoras feministas e levá-las a um número maior de pessoas através de um formato cênico.

Para a performance que viralizou se inspiraram nos textos da argentina Rita Segato, antropóloga feminista que escreve sobre os estupros e sua desmistificação. ” Não queríamos falar sobre a desmistificação do estupro como um problema pessoal, ou a atribuição de doença do homem que estupra, queríamos dizer também que este é um tema social”, explica Sibila.

“Não queremos que a intervenção seja só algo bonito, queremos que sirva de passo para fazer as mudanças radicais que são necessárias. É um incitamento para que parem já e comecemos a reagir e gerar políticas realmente equitativas para todos”, comenta Cáceres em entrevista ao chileno El Desconcierto.

Nesta entrevista elas também falaram sobre a atuação dos “carabineros”,  ( polícia chilena), e a violência político-sexual exercida como abuso de poder durante as manifestações  que tem tomado conta do país. “Os aparatos estatais do monopólio da violência, como as Forças Armadas e policiais, abusam de seu poder. Consequentemente, uma detenção não é só uma detenção, há desnudamento, castigo físico, violência político sexual, torturas, como o tema dos agachamentos (…) há um abuso sistemático de poder, é consciente“, afirma Cometa.

Assista à performance:

Leia a letra completa:

El patriarcado es un juez, que nos juzga por nacer y nuestro castigo es la violencia que no ves.

O patriarcado é um juiz | que nos condena por nascer. | E nosso castigo | É a violência que você não vê

El patriarcado es un juez, que nos juzga por nacer y nuestro castigo es la violencia que ya ves.

O patriarcado é um juiz | que nos condena por nascer. | E nosso castigo | É a violência que você já vê

Es feminicidio Impunidad para el asesino Es la desaparición Es la violación

É o feminicídio |  Impunidade para o assassino |  É a desaparição | É o estupro
Y la culpa no era mía, ni dónde estaba, ni cómo vestía

E a culpa não era minha, nem de onde eu estava, nem de como me vestia
Y la culpa no era mía, ni dónde estaba, ni cómo vestía Y la culpa no era mía, ni dónde estaba, ni cómo vestía Y la culpa no era mía, ni dónde estaba , ni cómo vestía

E a culpa não era minha, nem de onde eu estava, nem de como me vestia

El violador eras tú El violador eres tú Son los pacos (policías)Los jueces El estado El presidente

O estuprador era você|  O estuprador é você  | os policiais | Os juízes | O Estado |  O presidente

El estado opresor es un macho violador El estado opresor es un macho violador

O Estado opressor é um macho estuprador.

El violador eras tú

O estuprador era você

El violador eres tú

O estuprador é você

Duerme tranquila niña inocente, sin preocuparte del bandolero, que por tus sueños dulce y sonriente vela tu amante carabinero.

Dorme tranquila | Menina inocente | Sem se preocupar com o bandoleiro | Que o seu sonho | Doce e sorridente | Será velado por um amante carabinero

El violador eres tú El violador eres tú El violador eres tú El violador eres tú

O estuprador é você | O estuprador é você | O estuprador é você | O estuprador é você