Olimpíadas consagram como campeões atletas negros, de origem nordestina e humilde, que tiveram muita determinação para continuar nas suas modalidades e conseguir a façanha de subir no lugar mais alto do pódio em Tóquio.

As medalhas de ouro nas competições individuais vieram todas de atletas nordestinos:  Italo Ferreira, no Surf (Baía Formosa, RN), Rebeca Andrade, na Ginástica Olímpica (Guarulhos, SP), Ana Marcela Cunha, na Maratona de Natação (Salvador, BA), Isaquias Queiroz, Canoagem (Ubaitaba, BA), Hebert Conceição, Box (Salvador, BA). Outra pode vir das mãos de outra baiana de Salvador, Beatriz Ferreira, campeã mundial de box e favorita na luta contra a irlandesa Kellie Anne Harrington, às 2h deste domingo.

São medalhistas que honraram o Brasil e as suas origens. Hebert Conceição, por exemplo,  posicionou-se contra o racismo:

“Em pleno século 21 ainda conviver com casos de racismo é muito lamentável. Como negro, não poderia deixar de fazer a minha raça se sentir representada e mostrar pra eles que nós podemos. Basta a gente trabalhar, não ligar pra críticas, absorver apenas as críticas construtivas e ter fé, seja lá quem alimente a sua fé. Respeite o próximo, seja branco, negro, pardo, índio. Trabalhe, porque com certeza você será recompensado”, disse Herbert, em reportagem no portal Uol.

O canoísta Isaquias Queiroz fez história em Tóquio. Para dar a dimensão do seu feito, basta lembrar que a prova em que ele foi campeão era vencida só por europeus há 73 anos. Último ouro de não europeu foi em Berlim-1936, um canadense. Assim como Rebeca Andrade na Ginástica, o brasileiro é o primeiro vencedor do Hemisfério Sul. E do sul da Bahia. No momento da vitória lembrou dedicou sua medalha às milhares de famílias que perderam entes queridos para a covid-19; ele enalteceu sua cidade-natal, Ubaitaba e todo o povo brasileiro. Fez mais: postou uma mensagem contra a discriminação de gênero: “Vivo num mundo onde a palavra preconceito não existe no meu vocabulário”.

O atleta, que ao contrário do surfista Gabriel Medina, se vacinou,  também postou fotos no momento de sua imunização. Quando ganhou o mundial de canoagem na Hungria em 2019, Isaquias fez o sinal de “L” com a mão, de “Lula Livre”, numa homenagem ao ex-presidente que ainda se encontrava encarcerado na masmorra da Lava Jato de Curitiba. Na Rio 2016, ao ganhar as medalhas de prata e bronze, elogiou os programas de apoio ao Esporte dos governos Lula e Dilma.

Pentacampeã mundial e eleita cinco vezes a melhor do mundo, a brasileira chegou a Tóquio como uma alta expectativa de subir ao pódio e, mais uma vez, fazer história. “Dessa vez, para conquistar a primeira medalha em Jogos Olímpicos”, disse, relembrando a frustração de não ter chegado ao pódio nas olimpíadas Rio 2016.
Após garantir o ouro na maratona aquática de 10 km, Ana Marcela defendeu a igualdade de gênero.

“A mulher pode ser o que ela quiser, onde quiser e como quiser. (A medalha) também é fruto do tanto que a gente vem recebendo de ajuda por igualdade”, disse em entrevista coletiva.

Primeiro surfista a receber uma medalha de ouro numa olimpíada, Italo Fereira também relembrou a origem humilde, dos tempos em que improvisava uma prancha de surf com a tampa da caixa de isopor onde o pai armazenava os peixes que vendia no mercado em Baia Formosa (RN), cidade onde nasceu para a vida e para o surf.

Fenômeno da Ginástica Olímpica, Rebeca Andrade esbanjou simpatia e urbanidade após ganhar prata e ouro em Tóquio.

As medalhas de Rebeca contrariaram a frase dita pelo vice-presidente Hamilton Mourão (PRTB) de que “famílias pobres compostas apenas por mãe e avó são fábricas de desajustados”. A mãe de Rebeca, empregada doméstica e Dona Rosa é mãe solo de sete filhos em Guarulhos, na Grande São Paulo, dona Rosa apoiou o talento da filha desde cedo, e a encaminhou a um programa de esporte da prefeitura que incentiva o esporte para crianças dos bairros pobres na gestão do prefeito Elói Pietá (PT).

Mais medalhas devem vir amanhã, domingo, com Bia Ferreira e as meninas da seleção feminina de vôlei. Que venha o ouro, e com ele, novas demonstrações de civilidade, espírito público e amor ao Brasil e ao esporte. Discursos de paz e de superação, num país que vive ainda o drama de uma pandemia que fez quase 600 mil mortos sob a presidência de um mandatário que não cuida de seu povo, pois só tem olhos para seus projetos pessoais.