A troca do nome dos hospitais é um desrespeito aos seus antecessores, mas o soerguimento da Pedra Goiana repara um vandalismo que desmereceu a história da cidade de Goiás.

Marcus Vinícius de Faria Felipe

Não é feliz a ideia do governador Ronaldo Caiado (DEM) de trocar nome de hospitais públicos do Estado. O que diriam do ex-governador Iris Rezende (MDB), se nos seus governos de 1982 e 1990 tivesse trocado o nome do Estádio Serra Dourada,  do Colégio Hugo de Carvalho Ramos ou do Hugo? Diriam que seria revanchismo de Iris contra os ex-governadores da Arena, Leonino Caiado e Ary Valadão e uma retaliação ao ex-governador Henrique Santillo.

Pois Iris Rezende não fez isto. Respeitou os seus antecessores, em que pese a discordância que tivesse com eles.

Caiado ao propor renomear os hospitais criados por Henrique Santillo, Alcides Rodrigues e Marconi Perillo mostra desrespeito por aqueles que, como ele, foram eleitos pelo voto direto do povo goiano. Mais: a mudança representa um desnecessário gasto de dinheiro público sem nenhum benefício objetivo à coletividade.

Melhor deixar do jeito que está, até porque ninguém em Goiânia vai deixar de chamar Hugo de Hugo assim como a população nos municípios vai trocar o nome  daquelas unidades que vieram depois, inspiradas na nomenclatura do Hugo: Hospital de Urgências de Goiás. Assim foi denominado o Huana (Hospital de Urgência de Anápolis), Huapa (Hospital de Urgências de Aparecida de Goiânia), Hutrin (Hospital de Urgências de Trindade) e Hurso (Hospital de Urgências do Sudoeste).

A Assembleia Legislativa deve se movimentar para impedir esta indignidade com o povo e com os ex-governadores.

Vale dizer também que aquele que vendeu ao governador esta troca de nomes como uma “grande jogada de marketing” fez ele cuspir para cima, pois abriu o flanco para que a oposição compare o governador Caiado ao presidente Jair Bolsonaro, que em dois anos e meio de governo não inaugurou uma única obra sequer feita na sua administração e vive de inaugurar obras iniciadas pelos seus antecessores Lula e Dilma. Agora Bolsonaro também “danou” a mudar nomes de projetos criados pelos ex-presidentes petistas como o Minha Casa Minha Vida, que virou Casa Verde e Amarela e o Bolsa Família para Auxílio Brasil.

Mas outra ação do governador Ronaldo Caiado merece o nosso aplauso e quiçá de todos os goianos: o soerguimento da Pedra Goiana, gigantesco bloco de pedra, de 50 toneladas equilibradas sobre duas pequenas pedras, que foi levada ao chão pela ação de vândalos oriundos da Cidade de Goiás (veja vídeo abaixo).

 

Certa vez entrevistei a grande pintura Goiandira do Couto, famosa mundialmente por criar a técnica de pintura com as areias colhidas da Serra Dourada. Na entrevista discorremos sobre a seu trabalho, o desenvolvimento de sua arte e aspectos da sua vida em Goiás, uma vez que ela era natural de Catalão. A certa altura perguntei quem tinha derrubado a Pedra Goiana. Ela não titubeou:

– Foram os camisas vermelhas!

– Os comunistas?, questionei.

– Não rapaz, quem veste camisa vermelha na Festa do Divino Espírito Santo são filhos das famílias tradicionais de Goiás.

– Então é muita gente, o que não falta é família tradicional em Goiás, retruquei.

Goiandira me olhou e prontamente me chamou para cozinha.

– Falamos de pintura e de política, agora vamos falar de café, bolo de arroz e pão-de-queijo.

Entendi que o assunto ainda era tabu em Goiás, mas capitei a sutileza da sua resposta.

A escritora Ercília Marcedo-Eckel, no entanto, foi direto ao ponto no seu artigo  “A Pedra Goiana tombou do céu”, onde ela dá nome aos bois, ou aos “boys”/play-boys, que derrubaram o símbolo da goianidade, num infeliz 11 de julho de 1965 (confira a íntegra do artigo no final desta matéria).

O governador Ronaldo Caiado anunciou que em parceria com a Universidade Federal de Goiás vai repor a Pedra Goiana ao seu antigo equilíbrio. O monumento está localizado em Mossâmedes, distante 140 km da Capital, numa área de preservação ambiental que está sob os cuidados da UFG.

Que seja exitosa a iniciativa.

Tomara que esta experiência leve o governador Caiado a se concentrar noutras ações edificantes para o Estado, uma delas poderia ser a preservação do Cerrado. Caiado prestaria uma homenagem aos goianos de hoje e do futuro se seguisse os passos de um de seus ilustres parentes, o ambientalista Leolídio Caiado, apaixonado defensor do Rio Araguaia e do bioma de árvores tortas, cheias de orquídeas, plantas medicinais e flores que marcam a paisagem ancestral de Goiás.

 

Confira abaixo o artigo da escritora Ercília Macedo-Eckel:

 

A Pedra Goiana tombou do céu

Foto de 1940

 Ercília Macedo-Eckel

Ela exibia poderes extraterrestres, devido ao seu inexplicável equilíbrio e desafio às leis da física, à força da gravidade – desde sempre. Era quase o símbolo do deus Goyá, domiciliado nas vizinhanças da Serra Dourada. Era a materialização da alma de nossos ancestrais.

A Pedra Goiana estaria acima das leis de mudança, do AI-5, da decrepitude e da morte, não fossem as mãos baderneiras, de vândalos, que a arremessariam brutalmente serra abaixo, como se fora ela um aerólito ou meteorito caindo do céu.

Naquele momento dessacralizou-se a energia criativa da natureza. Não por acaso, mas por vontade planejada de uma gangue composta de nove playboys da cidade de Goiás: Aluizio de Alencastro (Luz da Lua), Joel de Alencastro Veiga (Vequinho), José Alves (Zé Sancha), Sebastião Alves (Tião Sancha), Ailton da Silva Oliveira (“Dentista”), Sebastião Bento de Morais (Bentinho), Nelson Curado Filho (Curê), Luiz Nascimento (Lulu) e Eugênio Brito Jardim (Tatá). Hoje, provavelmente, são aposentados, beirando 70 anos, mais, ou já falecidos. Ao abandonarem as arruaças e contravenções, tiveram profissões dignas. Foram (ou são): médico, escritor ou dentista; proprietário de serraria e servidor da Assembleia Legislativa do Estado do Tocantins; prof. universitário ou diretor de Faculdade e Fundação.

Pelo menos quatro desse grupo parece terem se tornado cidadãos comuns, pois deles não há notícia por qualquer meio de comunicação.

Esse bando não sofreu punição (até hoje, apesar da abertura de “inquérito rigoroso”) pela ousadia de derrubar a Pedra.

O ato foi planejado e desafiador:

“Olhe, soldado Miguel, não vá dizer que não avisamos. Estamos indo destronar a Pedra Goiana de aproximadamente 30 toneladas. Queremos entrar para a História de Goiás, através desse feito original e inimaginável. A ex-capital já não aguenta mais os quebra-quebras promovidos por nós, sob efeito de cachaça ou não. Então, estamos partindo na pick-up jeep de Alaor Barros Curado para esse acontecimento histórico na Serra Dourada. Brevemente seremos manchete em Goiás e no Brasil.”

Soldado Miguel nem ligou, achou um disparate, conversa de doidos, de bêbados quebradores de baile.

“Chegaram lá”. Expressão da moda. Há 48 anos: 11 de julho de 1965. Altitude de 1.050 metros, área de difícil acesso, entre Mossâmedes e a cidade de Goiás, às margens da GO-164. Objetivo desses vândalos, já expresso no parágrafo anterior: Lançar ao vento aproximadamente 30 toneladas do monumento entalhado pela natureza e que há séculos e séculos (700 milhões de anos para ser esculpido) balança sobre duas pedras pequenas, mas que nunca perdera o equilíbrio. Levaram para usar com “inteligência” e realizar a façanha um macaco hidráulico. E, quem sabe, dinamite.

Os “rebeldes sem causa” nada tinham a ver com autoritarismo e vida difícil. Mas, por oportunismo, se abrigariam à sombra da crise política, da ditadura recém-estabelecida e receberiam , por certo, a proteção das autoridades locais, pois tinham “costa larga”. E a maioria vinha de linhagem, com “pedigree” familiar de sobrenome, desde o Império e primeiros anos da República.

O curioso é que “luz da lua” é apenas o reflexo do sol. Não tem luz própria. E estava na minguante, quando a Pedra caiu. Pode se imaginar o estrondo. Apesar de quase trevas naquele momento, os cachorros da redondeza latiram tanto, que inflaram ainda mais o ego daqueles astros, girando na utopia de entrarem para a História de Goiás.

A verdade é que esse ato de vandalismo não pode ser considerado como uma rebeldia política, uma insurreição ideológica. O que defendiam? A baderna generalizada em Vila Boa? Muito menos pode esse grupo de jovens ser incluído na Geração AI-5, naquele momento: A Pedra Goiana foi derrubada em 11 de julho de 1965. O AI-5 foi instituído em 13 de dezembro de 1968, três anos e cinco meses depois.

Diante daquele macabro acontecimento, nós nos sentimos tão arrasados, como se sentiriam os cariocas, se uma gangue de baderneiros arremessasse o Cristo Redentor das nuvens do Corcovado para o despenhadeiro lateral, a uma altitude de 710 metros e peso aproximado de 1.145 toneladas. Ainda alimentamos a esperança da difícil execução de um projeto que devolveria a Pedra Goiana ao seu local e forma originais. Ela está lá no pé da Serra Dourada e tem deus Goyá por sentinela. Aguarda o governador que, certamente, entrará para a História de Goiás, com essa fantástica realização. Que tal, em 2015, 50 anos depois de sua queda?  A baderna e o vandalismo daqueles playboys da cidade de Goiás lembram os movimentos de rua de hoje (2013), 48 anos depois.

Muitos dos jovens de agora sabem o que querem e defendem o que é realizável, vestidos com a bandeira nacional. São ordeiros e, apesar de fragmentados, têm noção de controle do comportamento coletivo em determinada situação. Mas há sempre aquela minoria de baderneiros, de mente subterrânea, primitiva, desprovida de rumo e de idéias (porque lê pouco) – e que só promove quebra-quebras, incêndios, saques, arrastões; agressões, obstrução de rodovias, sujeira, pânico e destruição generalizada.

Espero que grande parte desse último grupo minoritário se encontre existencialmente, torne-se cidadãos honrados, como aconteceu com, praticamente, os nove da cidade de Goiás. Embora derrubar aquela gigantesca Pedra, esculpida pela natureza durante séculos, e ponto turístico de grande interesse, pareça mais aterrador e mefistofélico que o vandalismo praticado nas ruas do Brasil, nesses meses de junho e julho de 2013.

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https://www.youtube.com/watch?v=4AoRl8CSpd4