Professora de Sociologia na Universidade de San Francisco, Califórnia (EUA), Cecília Macdowell Santos analisa a “pandemia” de obscurantismo , que afeta uma parcela barulhenta da população.

 

Por Cecilia Macdowell Santos

O bolsonavírus nasceu no Brasil há 65 anos, mas somente se tornou uma questão de saúde pública a partir de 2018, quando contagiou milhões de corpos brasileiros. Ele passou por mutações, instalando-se em diferentes organismos ao longo da ditadura militar (1964 a 1985) e do período de redemocratização, entre 1985 e 2016. Na sua primeira fase, o bolsonavírus se instalou no corpo do Exército. Mas foi facilmente combatido e expelido da corporação militar há cerca de 30 anos. Não sendo levado a sério, nenhuma vacina antibolsonavírus foi desenvolvida no Brasil. Durante 28 anos, o bolsonavírus contaminou, de maneira parasitária, o Congresso Nacional e a assembleia do estado do Rio de Janeiro. Mas era um vírus localizado e blindado pelos órgãos estatais, que respiravam graças aos aparelhos milicianos.

O golpe parlamentar-midiático-judicial de 2016 abriu uma grande ferida em diversas corporações do estado e no corpo social, tornando-os altamente vulneráveis ao ataque e à propagação do bolsonavírus em quase todas as corporações e associações no território nacional, principalmente nas regiões Sudeste e Sul do país.

A morfologia do bolsonavírus é semelhante a de um revólver, simbolizado pelos dedos polegar e indicador, eretos em formato de arma. O bolsonavírus atira para todos os lados e combate a vida de todos os corpos em que se aloja. Ele encontra resistência apenas nos corpos dissidentes que lutam pela vida de todos os humanos e do meio ambiente.

O bolsonavírus ataca até mesmo seus semelhantes. É um vírus exterminador de seus próprios agentes, fiéis que o propagam no corpo social. Este é um vírus letal. É um parasita que inocula fakeconhecimento para se alimentar do corpo social, onde dissemina fakecorpos que acabam por matar corpos verdadeiros, mesmo que isto leve ao suicídio do próprio bolsonavírus. O bolsonavírus cria fakecorpos para impedir que o sistema imunológico da consciência social distinga entre fakecelulas e células verdadeiras.

O bolsonavírus é um parasita alimentado especialmente pelos telecorpos de classes altas e médias, brancas e heteromasculinistas. Ele também contamina e se propaga nos corpos marginalizados por raça, classe, gênero e deficiência. O contágio do bolsonavírus se dá pelas fakemensagens, divulgadas pelas redes sociais, principalmente pelo WhatsApp, e nas reuniões de cunho religioso sobretudo evangélico.

Os fakecorpos penetram nas redes sociais e nos grupos de WhatsApp, disparando fakecelulas nas comunicações virtuais de grupos de família, de amizade, de associações profissionais e religiosas. O bolsonavírus espalha-se nas igrejas, através das fakepalavras de lideranças religiosas, principalmente nas igrejas neopentecostais.

A melhor estratégia para se combater o bolsonavírus é o isolamento digital, sobretudo o boicote ao WhatsApp. É preciso interromper a disseminação do bolsonavírus por todas as redes sociais. Se usar WhatsApp para ler notícias ou memes, deve lavar, por pelo menos 20 segundos, com o elixir da verdade, várias vezes ao dia, todas as mensagens, depurando a veracidade dos fatos e desarmando os efeitos mortíferos do bolsonavírus sobre todos os dedos e a palma da consciência social. Esta é a estratégia mais eficaz para se combater a expansão do bolsonavírus. Do contrário, o sistema político democrático entrará em colapso em um mês e milhões de vidas contaminadas pelo bolsonvírus serão transformadas em armas mortíferas e suicidas.

O bolsonavírus já é reconhecido no Brasil e no mundo como uma tele-epidemia do fakeconhecimento, e está sendo combatido no seio dos organismos políticos, inclusive no interior do próprio organismo federal, sem falar nos organismos políticos de âmbito estadual e municipal que começam a se insurgir contra o bolsonavírus. Mas vários desses novos antibolsonavírus políticos são anticorpos de ocasião, e quando a epidemia brasileira do bolsonavírus passar, nada garante que os fakecorpos desaparecerão do organismo político e social.

 

Cecília Macdowell Santos é  Formou-se um Direito pela UFPE, fez pós na USP e hoje é professora de Sociologia na Universidade de San Francisco, Califórnia (EUA).