Há 37 anos, a ditadura pôs cavalos e tanques nas ruas para intimidar os deputados federais que iriam votar a Emenda Dante de Oliveira, que restabelecia o voto direto para escolha de presidente da República. O presidente Jair Bolsonaro parece utilizar o mesmo expediente para pressionar os deputados que votam nesta terça-feira, 10, se o Brasil volta aos tempos do coronelismo e das fraudes eleitorais do voto impresso, ou se continuamos uma democracia respeitada em todo mundo pela eficiência e lisura das urnas eletrônicas.

Uma semana antes da votação da emenda Dante de Oliveira, o general presidente João Baptista Figueiredo decretou estado de emergência no Distrito Federal, em Goiânia e em nove municípios do entorno da capital do país. A medida objetivava  isolar Brasília, evitar manifestações pró-Diretas e intimidar o Congresso Nacional. O direito de reunião foi suspenso e foi impostacensura aos noticiários de rádio e televisão.

O general Newton Cruz, chefe do Comando Militar do Planalto foi o responsável pela implantação do Estado de Sítio que fechou todas as fronteiras de Brasília. Barreiras foram colocadas nas saídas de Goiânia, Alexânia, Ipameri, Cristalina, Pires do Rio, Luziânia, Formosa, Anápolis, Goianésia, Itumbiara, Jataí e Catalão, para impedir que comboios de carro ou ônibus fossem a Brasilia manifestar apoio aos deputados que votariam a emenda que iria acabar com a escolha de presidentes pelos militares.


Montado em um cavalo branco, Newton Cruz desfilada nas avenidas da Esplanada dos Ministérios para reprimir protestos, aglomerações ou buzinaços de motoristas que passavam em frente ao Congresso Nacional. A ditadura impôs censura as telecomunicações, proibindo emissoras de rádio e de televisão de emitir opiniões sobre a votação, ficaram proibidas reuniões e permitidas busca e apreensões em domicílios.

O desfile de tanques que o presidente Jair Bolsonaro programou para Brasília nesta terça-feira, 10,  tenta cumprir o mesmo roteiro de guerra psicológica que Newton Cruz impôs aos deputados naquele 25 de abril de 1984.

Diante daquele cerco a Brasília, o presidente do PMDB, Ulysses Guimarães, em discurso enérgico, condenou “o ato ditatorial que afronta a nação”. O presidente do PT, Luiz Inácio Lula da Silva, disse que “o governo assinou seu atestado de óbito”. Um dia antes de decretar as medidas de emergência, o governo havia apresentado uma emenda constitucional marcando eleições presidenciais para 1988. Ulysses rejeitou a proposta, com apoio da maioria dos

Buzinaço, tanques e cavalos nas ruas

General Newton Cruz chicoteava carros que faziam buzinaço em frente ao Congresso Nacional

Na segunda-feira do dia 23 de abril de 1984, a pretexto de comemorar o aniversário do Comando Militar do Planalto, o general desfilou na Esplanada dos Ministérios montado sobre um cavalo branco, à frente de 6 mil militares e 116 tanques e carros de combate. No dia seguinte, a população de Brasília promoveria um buzinaço e o general reagiria chutando e chicoteando automóveis que passavam pela avenida. “Buzina agora seu filho da…” Apesar do general, as buzinas tocaram até a madrugada do dia 25, data da votação. Das janelas dos prédios, os moradores batiam panelas.

Congresso cercado

O Congresso Nacional foi cercado por policiais militares na véspera da sessão, mas isso não impediu que na manhã do dia 25 milhares de estudantes ocupassem o gramado em frente ao edifício. Deitados sobre a grama, escreveram com seus corpos a palavra de ordem Diretas-Já. Dentro do prédio, a votação se prolongou até as 2h da madrugada do dia 26, sem que o país pudesse acompanhar os discursos e os votos pelo rádio ou pela TV. As informações saíam do prédio apenas por telefone e por telex para as sedes de sindicatos e outras entidades em diversos pontos do país.


A intimidação da ditadura funcionou. A emenda Dante de Oliveira precisava de 320 votos (dois terços dos deputados) para ser aprovada. Alcançou 298, incluindo votos de 54 deputados do PDS. Houve 112 ausências, quase todas de parlamentares do partido do governo que tinham vergonha de votar contra as Diretas. Apenas 25 votaram “não”.

Bolsonaro claramente se inspirou na história da ditadura e do cerco a Brasília pelo general Newton Cruz para tentar amedrontar os deputados que nesta terça-feira, 10 de agosto, decidem se põe fim ao projeto de retorno do voto impresso ou se sepultam a democracia e mergulham no golpe bolsonarista.

Certo filósofo alemão disse certa vez: “A história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa”, vejamos o que nos aguarda no dia de hoje.

 

Com informações dos jornais O Globo, Estado de S. Paulo, Jornal do Brasil, Correio Braziliense e portal Memorial da Democracia