Pesquisador compara presidente a imperador romano que entrou para a história como insano por mandar incendiar Roma.

 

Catarina Barbosa e Marina Duarte de Souza
Enquanto o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) diz que seu governo é “líder em conservação de florestas tropicais” e culpa indígenas, imprensa e ONGs por queimadas, dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) mostram que até o dia 26 de setembro deste ano já foram identificados 73.459 focos de calor só na Amazônia. Ou seja, 12% a mais do que o registrado em todo o ano passado, que já havia tido o pior resultado em mais de uma década.

Número de incêndios na Amazônia em 2020 já é 12% maior que em todo ano de 2019, segundo Inpe

Número de incêndios na Amazônia em 2020 já é 12% maior que em todo ano de 2019, segundo Inpe – Bruno Kelly/Amazônia Real

 O que a gente tem agora é o governo incentivando, legitimando e autorizando o fogo

O maior aumento em 2020 é observado no Pantanal, onde foram detectados 16.667 focos. O número é mais que o triplo do balanço de 2019 (5.891). O cenário no Cerrado também choca: foram confirmados 42.921 mil focos de queimadas entre os meses de janeiro e setembro.

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Para o pesquisador em política e conflitos ambientais Felipe Milanez, professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA), nem os dados em torno da destruição dos biomas brasileiros dão a dimensão da “tragédia” que está em curso no país.

“É impressionante o que está acontecendo este ano. Os números não dão conta de explicar a dimensão da tragédia que está ocorrendo. Tanto visual e física, para quem está lá, e está e está voltando a ver esse apocalipse, quanto de quem não quer ouvir as críticas, e as ridicularizam. Bolsonaro riu da devastação no Pantanal, ele está promovendo aquilo”, afirma.

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Milanez acompanha a Amazônia, Pantanal e Cerrado há quase 20 anos, e alerta que, diferente do que o presidente afirma, que “as queimadas sempre aconteceram”, agora a situação é “muito pior”. Em sua avaliação, as queimadas e a devastação do meio ambiente estão abertamente autorizadas pelo governo federal.

O especialista compara Bolsonaro ao imperador romano Nero, conhecido por um dos episódios mais trágicos da história de Roma, na Itália, em que toda a cidade foi devastada por um incêndio durante uma semana. De acordo com alguns historiadores, o próprio tirano causou o incêndio para poder reconstruir a cidade ao seu gosto.

“A queimada agora pode se parecer com aquelas de 20 anos atrás, mas porque agora ela é abertamente promovida. Se no início dos anos 2000 tinha muito fogo, ao menos havia a tentativa de dar uma resposta. O que a gente tem agora é o governo incentivando, legitimando e autorizando o fogo. Bolsonaro é o Nero [imperador romano] dos incêndios da Amazônia. Em termos da dimensão da destruição, é muito pior, estão destruindo tudo”, denuncia Milanez.


Abaixo, confira trechos da entrevista

Brasil de Fato – Desde agosto, quando iniciou o período de secas, a gente observa que a Amazônia está queimando mais rapidamente do que em anos anteriores. Como você, que acompanha a Amazônia desde 2006 e já visitou diversas regiões, avalia esse cenário?

Felipe Milanez – Parece que estou revendo os piores momentos. Quando comecei a trabalhar na Funai [Fundação Nacional do Índio], em 2006, estive em uma expedição em Rondônia, em uma área de indígenas isolados, e lembro que não conseguia nem ver o céu. E era mais ou menos nessa época do ano, entre agosto e outubro, o período mais seco.

Lembro que o céu era cinza, e me disseram que antes era ainda pior. Em 2007, eu estive no norte do Mato Grosso com o ISA [Instituto Socioambiental], e também me lembro de ver o céu com muita fumaça. E aquela era a cidade mais violenta do Brasil, com índice muito alto de desmatamento.

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Porém, naquela época, a gente sentia que denunciar, expor na imprensa aquela situação, ainda provocavam efeitos, respostas da Polícia Federal, no Ibama [Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis]. Ainda se debatia se o Estado tinha ou não força para atuar nessas regiões, e havia um debate sobre tecnologia de satélite, uso de helicópteros para expedições. E, de repente, as queimadas foram diminuindo.

Já em 2012, 2013, eu me lembro de andar pelo sul do Pará, e me acostumar com pastagens verdes. Ninguém colocava fogo, porque tinha repressão, tinha multa. Na sequência do golpe [contra a e-presidenta Dilma Rousseff, em 2016], a situação mudou muito. Com a ascensão do bolsonarismo, desse pensamento da ultradireita ganhando cada vez mais força, a situação ficou trágica. Hoje, vivemos um inferno.

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Se no início dos anos 2000 tinha muito fogo, ao menos havia a tentativa de dar uma resposta. O que a gente tem agora é o governo incentivando, legitimando e autorizando o fogo. Bolsonaro é Nero [imperador romano] mesmo, quando se trata de Amazônia.

Sobre a ascensão da ultradireita, como você interpreta a postura das pessoas que vivem na Amazônia, apoiam esses governos, e são igualmente prejudicadas?

Acho que é necessário separarmos quem são os líderes da ultradireita, do fascismo – [Donald] Trump e Bolsonaro, por exemplo –, quem são aqueles que ganham grana com esse movimento e que não estão nem aí para o resto, e quem é o sujeito pobre que entra nessa onda por falta de informação. É quase como um suicídio, porque ele não ganha nada em troca.

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Nesse sentido, temos os negacionistas, que sequer acreditam na mudança climática, ou que acham que a tecnologia vai nos salvar. E os mais pobres parecem estar descrentes, vivendo uma distopia mesmo: se nada vai mudar, então se aceita a destruição, conformando-se com uma vida nos limites da opressão, da violência, com a perspectiva de oprimir alguém lá na frente.

É o fascismo. Envolve ódio, prazer em ver o outro morrendo. E aí pode ser a onça, o jacaré, o preto, o comunista… está internalizado nessas subjetividades, e o diálogo se torna muito difícil. É uma bolha de morte muito perversa. E estamos falando de grande parte da população brasileira.

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Não adianta torcer para os gringos nos salvarem, boicotando o Brasil. Porque os gringos também ganham dinheiro com isso. O capital financeiro ganha dinheiro com a Amazônia.

Não vai adiantar prender o Bolsonaro em Haia [Tribunal Internacional de Justiça das Nações Unidas]. Ele merece, porque é um genocida dos povos indígenas e negros na pandemia. Não é que simplesmente morreu muita gente no Brasil. Eu defendo que ele seja preso em Haia, mas isso não vai nos libertar. Porque está dentro da maioria dos brasileiros na Amazônia e fora dela a vontade de destruí-la e destruir o outro, infelizmente.

Quando se pensa a criação de uma estrada, não há um olhar para indígenas, quilombolas e povos da floresta como pessoas que têm uma ancestralidade e ligação com a terra, e sim como um empecilho para o desenvolvimento. Como o desenvolvimento é visto pelo governo brasileiro?

Eu acho que essa é uma das questões centrais no Brasil desde a República, sobretudo na segunda metade do século passado, principalmente, após anos 1970, durante a ditadura militar, quando se entra numa aceleração da ideia de desenvolvimento, que é incorporada à ideia de progresso. Isso se expande de uma forma muito avassaladora, que é quando a Amazônia é invadida mesmo.

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Ela já tinha tido várias guerras de conquista, talvez tenha tido três grandes invasões. No período da colonização – as primeiras, portuguesas, com o [militar] Pedro Teixeira – a invasão da época da borracha, que foi uma destruição humana imensa. Depois, com a ditadura, que é quando se tem esse holocausto ecológico e humano, que leva a uma destruição, em tão pouco tempo, de 20% da Amazônia.

A ideia de desenvolvimento como uma continuidade da ideia de progresso, como uma noção de colonização puramente, de estabelecer um norte e uma direção evolucionista de civilização. Nesse sentido, os povos indígenas e quilombolas sempre foram obstáculos ao progresso e ao desenvolvimento, isso mostra que eles sempre tiveram em guerra anticonquista. Graças aos povos indígenas, que sobrou 80% da Amazônia, porque eles foram obstáculo, mesmo porque a ideia de desenvolvimento traz esse sentido puramente colonial.

Essa sua fala traz aquela ideia de “terra arrasada”: você arrasa a terra, para depois levar o desenvolvimento… 

Isso é literal. Aconteceu aqui na Bahia, eu aprendi com um historiador que chama Pedro Puldone, que teve uma reunião que era para acabar com os índios do sertão no século XVII. Daí se entra numa guerra de conquista extremamente violenta, genocida e a terra arrasada. Matam todo mundo, depois veem o que faz.

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É o que estão fazendo de novo, é uma política de “terra arrasada”. São piratas e saqueadores, não tem nenhum compromisso com o país. Bolsonaro não é patriota. [Ele e seu governo] são piratas, saqueadores, e tentam convencer mais meia dúzia. É terrível como essa engrenagem da morte seduz também.

Há esperança para o futuro da Amazônia e para os povos da floresta?

Eu tenho certeza que o Bolsonaro vai ser derrotado. É uma questão de tempo.

Ele vai passar. Os Munduruku, Xavantes, Krenak vão ficar. E os brasileiros não indígenas, não negros, brancos, que, quem sabe, reconstroem uma outra branquitude, outra ideia de Brasil, vão ficar também. Vamos aprender com essas pessoas a construir um outro horizonte.

Edição: Geisa Marques