Artigo reflete sobre o radicalismo das mensagens que convocam para ato em favor do presidente no dia 26. Fechamento do Congresso Nacional, do STF, e intolerância contra educadores, artistas, intelectuais, socialistas e movimentos sociais mostram total desapego à democracia. Discurso dos  bolsonaristas é fascista, autoritário e revela intenção daqueles que querem jogar o país numa ditadura.
Bolsonarismo incentiva o ódio, mas pode deixar o presidente  isolado
Marcus Vinícius
A Constituição Cidadã, promulgada no dia 5 de outubro de 1988  fundamenta-se nas liberdades democráticas, no pleno Estado de Direito e na autoderminação do povo brasileiro, deixando bem claro no no seu artigo  1º , parágrafo único: “Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição”.
O povo  governa, lhe é facultado escolher ou tirar os seus representantes pelo voto e mostrar seu descontentamento em  reuniões, greves e manifestação por meios pacíficos. A Constituição, no entanto, proíbe as manifestações de ódio, o uso de armas e atos paramilitares.
A convocatória para os atos no dia 26 de maio, em apoio ao presidente Jair Bolsonaro (PSL-RJ) prega exatamente o contrário do que reza na Carta Cidadã: é um convite ao confronto, ao ódio, à volta do autoritarismo e ao fim das instituições democráticas.
Confronto
Os memes que circulam na internet dizem tudo. Eles são contra a democracia e  incentivam o fascismo:
“Bolsonaro vai acabar fechando o Congresso e o Supremo”.  “Vem pra rua dia 26/05 pelo impeachment de Gilmar Mendes, pelo impeachment de Dias Tofolli, e pelo apoio ao pacote anticrime e Lava Jato”. “Dia 26/05 Vamos invadir Brasília. Esse bando de criminosos vão experimentar a ira do povo – Cansamos de ver os corruptos querendo destruir o governo do pres.Bolsonaro”, dizem as mensagens bolsonaristas.
Além de criminalizar o Legislativo e o Judiciário, as mensagens também atacam a Imprensa, artistas, intelectuais e a Educação. Num meme com a foto de Bolsonaro a mensagem diz: “Ele encarou a Globo, a Folha, a Veja, os reitores esquerdistas, a classe artística privilegiada. Ele encarou o sistema e não ficará sozinho”,
As mensagens que se multiplicam no wathssap e no twitter indicam movimento feito  por impulsionamentos em massa,  com uso dos chamados robôs que geram milhares de disparos.
É um tudo ou nada. O presidente Bolsonaro indica claramente que quer governar acima de tudo e de todos. Um governo ditatorial, sem os freios e contrapesos do Legislativo, do Judiciário, da Imprensa, da Inteligensia e dos movimentos social, sindical, partidos políticos ou qualquer tipo de oposição.
A manifestação do dia 26 de maio é um perigosíssimo convite a lançar o país numa guerra civil. As mensagens incitam os grupos mais radicais no bolsonarismo, que fogem ao controle das regras mínimas de convivência pacífica e democrática.
As mensagens convocam milícias, extremistas, fascistas, celerados a rumar para Brasília e qual uma horda de unos, não deixar pedra sobre pedra.
Direita dividida
Assustados com estas mensagens vários apoiadores do presidente estão tirando o corpo fora. O primeiro foi o MBL (Movimento Brasil Livre) que atuou fortemente para queda da presidenta Dilma Roussef (PT). O líder do grupo, o deputado Kim Kataguiri (DEM-SP), tirou o MBL da linha de frente de defesa do bolsonarismo e considera um erro o ato no dia 26.
Outro líder do MBL, Renan Santos, afirma os bolsonaristas radicais querem guerra.
“Esses caras estão buscando o conflito. Quem busca o conflito e o caos não está interessado no andamento das reformas, por exemplo. Tem que escolher um caminho. Não dá para escolher o caminho da guerra, é cansativo. Quando você avisa que é um caminho errado, pouco institucional, eles ficam bravos, chamam você de comunista, ”frisa.
A advogada Janaína Paschoal, uma das autoras do pedido de impeachment de Dilma também pulou fora do barco bolsonarista. Deputada estadual mais votada nas eleições de São Paulo, disse no twitter  que não é papel de  governo mobilizar para o confronto de rua.
“Pelo amor de Deus, parem as convocações! Essas pessoas precisam de um choque de realidade. Não tem sentido quem está com o poder convocar manifestações! Raciocinem! Eu só peço o básico! Reflitam!”, enfatiza.
 A mensagem está entre os assuntos mais comentados no twitter, juntamente com outros dois onde  alerta: “Estão causando um terrorismo onde não há! As pessoas estão apavoradas, escrevendo que nosso presidente está correndo risco. Ele não é amado pela esquerda, pelos formadores de opinião? É verdade. (…) amos enfrentar os adversários (que são muitos) com argumentos! Há tempos, não temos um Ministério tão bom! Profissionais de ponta, nas pastas adequadas, orientados por boa teoria, bons valores, com experiência prática. E o Presidente gerando o caos?”, questiona.
Choque de realidade
Até agora o presidente Jair Bolsonaro não fez o dever de casa. Não apresentou saídas ao desemprego, e nestes quatro meses e meio de governo agiu como se ainda estivesse em campanha, combatendo adversários políticos, com os cortes na Educação, com o desmonte na na Saúde, com a expulsão dos médicos cubanos do país e com ameanças a jornalistas e imprensa em geral.
Não será fazendo arminha com as mãos que sua Excelência irá fazer o dólar baixar de R$ 4,10, ou reduzir o desemprego que já atinge 13,4 milhões de brasileiros.
Graves denúncias que atingem a família Bolsonaro, a partir das investigações do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro, que apontam ligação do presidente e de seus filhos com as milícias que dominam o crime organizado no Estado, no tráfico de armas, extorsão, grilagem de terras e assassinatos.
A cada destempero presidencial, a cada apelo à violência, o presidente e seus filhos se deslegitimam como representantes do povo.
O povo põe e também tira. É o seu direito consagrado na Constituição.
Sua Excelência deveria ouvir os apelos da população, ao invés   de propor o confronto com os dois milhões de manifestantes que foram ás ruas repudiar os cortes na educação, a reforma da previdência e  pedir emprego e mais  dinheiro para saúde, educação.
A história é implacável com aqueles que se arvoram de querer o poder absoluto.
O presidente Jânio Quadros tentou governar acima das instituições e se atrapalhou. Assinou a renúncia no dia 25 de agosto de 1961 prevendo burlescamente que voltaria ao poder nos braços do povo. Teve que sair do país.
Fernando Collor de Mello se indispôs com o Congresso Nacional e com o povo em geral após o Plano Cruzado. Ele também convocou para ir às ruas de verde e amarlo no dia 7 setembro de 1992, mas acabou acelerando o seu impeachment, que lhe tirou do poder no dia 29 daquele mês.
Diz o ditado: quem semeia vento, colhe tempestade, ou no caso de Bolsonaro, tsunami.