Belém (PA) – O Museu Paraense Emílio Goeldi é a segunda mais antiga instituição de pesquisa científica do Brasil, atrás apenas do Museu Nacional, no Rio de Janeiro. Apesar de sua relevância para a ciência, o Goeldi sofre cortes orçamentários desde 2017, com sua situação agravando-se em 2019. Em abril deste ano, a instituição sofreu um corte orçamentário de cerca de R$ 4,1 milhões. 

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A defesa da instituição fez parte da agenda de celebração do Dia da Amazônia, realizada na quinta-feira (05), em Belém. A data foi lembrada em várias cidades brasileiras, com mobilizações em defesa da Floresta Amazônica e sua população. Na capital paraense, estudantes bolsistas do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), além de pesquisadores, realizaram um protesto em frente ao Mercado de São Brás. A manifestação recebeu o nome de “Ato Científico e Cultural”.

Com banners dos estudos acadêmicos, pendurados ao longo da deteriorada Praça Floriano Peixoto – palco de vários protestos na época da ditadura militar (1964 – 1985) –, acadêmicos apresentavam, ao público presente, alguns espécimes (exemplares de seres vivos para estudo) das coleções Entomológicas (insetos), Ictiológicas (peixes) e Herpetológica (répteis e anfíbios), que integram parte do acervo da UFPA e do Museu Emílio Goeldi. Os manifestantes também apresentaram resultados de pesquisas apresentadas em congressos e conferências, dentro e fora do Brasil.

Dia da Amazônia em Belém (Foto: Cícero Pedrosa Neto/Amazônia Real)

Thalita Costa Viana, 25 anos, mestranda do Museu Goeldi e uma das expositoras, disse a demonstração era uma forma de mostrar à população o trabalho dos cientistas. “Temos a maior floresta tropical do mundo e ela, assim como todos os seres que vivem nela, incluindo as populações humanas e as não-humanas da fauna e da flora, estão correndo perigo”, disse a estudante.

O Museu Paraense Emílio Goeldi completará no dia 6 de outubro 153 anos de atividade na Amazônia. Fazem parte da estrutura da instituição o Parque Zoobotânico e a Estação Científica Ferreira Penna. A população, os pesquisadores e os políticos mobilizaram-se em manifestações contra a medida de redução do orçamento o governo do presidente Jair Bolsonaro (PSL) às instituições de pesquisa do país.

A pesquisadora do Goeldi, Alba Lins, 71 anos, alertou que cortar verba das instituições de pesquisas é levá-las ao retrocesso. O mesmo acontece com os órgãos de fiscalização e proteção do meio ambiente.

“Nós não sabemos até quando teremos recursos para manter os cursos de pós-graduação que oferecemos no Museu. É um cenário que não imaginei que pudéssemos voltar a ver no Brasil. Eu que fui militante da UNE (União Nacional dos Estudante) na época da ditadura militar e lutei para que tivéssemos o direito de estudar”, contou Alba Lins.

Neste ano, a Capes, ligada ao Ministério da Educação, teve R$ 819 milhões contingenciados, ou 19% do valor autorizado para o seu orçamento. No último dia 02 a instituição anunciou o corte de 5.613 bolsas de mestrado, doutorado e pós-doutorado no Brasil a partir de setembro. Ao todo, deixarão de ser oferecidas para novos pesquisadores mais de 11 mil bolsas, ou 12% das 92.253 bolsas de mestrado e doutorado financiadas no início do ano.

Já o CNPq, ligado ao Ministério de Ciência e Tecnologia, pode deixar de pagar 84 mil bolsistas a partir do quinto dia útil deste mês. O CNPq é uma das principais agências de pesquisa científica e tecnológica do país, ofertando bolsas a alunos da educação básica, graduação, pós-graduação, doutores e pesquisadores experientes no país e no exterior.

Estudantes da UFPA e do Museu Goeldi apresentam espécimes dos acervos das instituições (Foto: Cícero Pedrosa Neto/Amazônia Real)

Para alguns cientistas, como é o caso de Maria Cristina Costa, bióloga e professora da UFPA, o corte do investimento em ciência é uma forma de “mutilar a verdade” sobre as crises ambientais e climáticas que acontecem no país e no mundo.

“Nós transmitimos informações que desagradam o governo, como é o caso das mudanças climáticas e o papel da Amazônia na manutenção da vida no planeta Terra, frente aos projetos de desenvolvimento predatório que eles possuem como pauta. Parece que estamos vivendo na Idade Média. É inacreditável”, conclui a professora.

Ato reuniu vários segmentos

O evento relativo ao Dia da Amazônia, em Belém, contou com a presença de estudantes e pesquisadores de diversas Instituições de Ensino Superior e Pesquisa. Os participantes protestaram contra as queimadas na região amazônica no mês de agosto e contra os posicionamentos do Governo Federal, com relação às mudanças climáticas, à demarcação de terras indígenas, ao agronegócio e à mineração.

Segundo Laélia Brito, que integra a organização da frente “Salve a Amazônia”, organizadora do ato em Belém, o movimento nasceu da iniciativa de várias organizações que se reuniram para refletir sobre o contexto político e ambiental do Brasil atualmente e no dia marcado para o protesto.

“A gente aglutinou diversos movimentos: ONG’s, partidos políticos e ativistas ambientais em torno de uma agenda comum de defesa da Amazônia, e como forma de resistência à política antiecológica de Jair Bolsonaro”, afirmou a ativista, que é presidente da ONG Olhar Futuro da Amazônia (OFAM). A frente foi a responsável também por organizar o ato SOS Amazônia no dia 24 do mês passado.

Durante a mobilização, uma carta aberta foi divulgada e lida. Um dos trechos da carta dizia o seguinte: “Nós, do movimento ‘Salve a Amazônia’, criticamos e repudiamos a postura do Presidente da República, o senhor Jair Bolsonaro, devido sua total falta de atenção responsável e efetiva para combater com seriedade os desastres ambientais que vêm ocorrendo (…) criticamos também os discursos do presidente que acabaram por inflamar ainda mais a prática das queimadas, negando a importância que as florestas têm para a manutenção do clima mundial, assim como julgando desnecessárias e excessivas as reservas florestais já existentes”.

Na carta, o movimento Salve a Amazônia se posiciona contra os cortes de verbas impostos pelo governo federal aos órgãos de fiscalização e combate de incêndios florestais, como o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), como também sobre a demissão do presidente do Instituto do Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), no último dia 2 de agosto.

Em Manaus, os bolsistas do CNPq e da Capes, além de pesquisadores, também protestaram contra o corte do orçamento das instituições e deram um abraço simbólico no lado de fora do prédio do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa). Mas, ao ocuparem a sede do instituto para pedir diálogo, a diretora do Inpa, a bióloga Antônia Maria Franco, chamou a Polícia Militar para conter uma manifestação pacífica. A referida diretora não participou do processo eletivo democrático para a direção do Inpa e também não fez parte da lista tríplice dos candidatos indicados para o cargo de direção. Contudo, foi empossada pelo governo do ex-presidente Michel Temer (MDB), em 2018.

Movimento de Mulheres da Amazônia em protesto no Dia da Amazônia em Belém
(Foto: Cícero Pedrosa Neto/Amazônia Real)

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