França do Marechal Philip Pentain aderiu e colaborou com o nazismo, destruindo direitos sociais. Ele criou milícia armada para  perseguir judeus, estrangeiros, democratas, comunistas, sindicalistas , Poder Legislativo e a Corte Suprema em nome de uma “nova política”, cujo discurso e práticas muito se assemelham ao modo bolsonarista de governo.

 

Marcus Vinícius 

 

Interpretar a história é mais fácil depois do que viver no calor dos acontecimentos. Mas este é um exercício  necessário para entendermos o tempo em que vivemos.

Tudo seria diferente no Brasil se o então senador Aécio Neves (PSDB-MG) tivesse aceitado a derrota para a presidenta Dilma Roussef (PT-MG) nas eleições de 2014. Se tivesse agido nos marcos da democracia, optando pelo papel de chefe da oposição a Dilma, ao invés de trabalhar pela sua derrubada, hoje Aécio seria presidente e jamais a nação brasileira passaria o vexame de ter na presidência da República uma figura tão despreparada e desequilibrada quanto o ex-capitão Jair Bolsonaro (sem partido).

Sejamos claros: Dilma deu um calote eleitoral. Venceu com um programa social-democrata e tentou governar com uma agenda neoliberal ao nomear para o Ministério da Fazenda, Joaquim Levy, um “cabeça de planilha”,  que segundo a definição do jornalista Luis Nassif, são economistas com fixação pela política monetária – lê-se taxa de juros, câmbio e inflação -,  sem sensibilidade para o desenvolvimento econômico com geração de emprego e justiça social).

A tendência natural era Dilma terminar mal o governo e Aécio sucedê-la numa transição democrática do poder. Mas não foi assim que Aécio quis, e os fatos que se sucederam estão gravados na história.

Derrubada Dilma no golpe parlamentar de 2016, Aécio se deu mal. Foi envolvido pelo lavajatismo dos procuradores de Curitiba e do até então aliado juiz Sérgio Moro. Juiz e promotores escantearam Aécio e preferiram eleger o ultra-direitista Jair Bolsonaro. Moro, que tirou Lula da disputa (o único que derrotaria Bolsonaro), aceitou o convite para ser ministro da Justiça ainda no segundo turno das eleições de 2018, como revelou o próprio Bolsonaro. Hoje Moro esconjura a cria, mas no registro de nascimento sempre vai constar que é pai do bolsonarismo, ou como diz a sua “conje”: “ Moro e Bolsonaro são uma só pessoa”.

Aécio foi ruim para o PSDB e péssimo para ao Brasil. Os oito anos de governo tucano no Brasil foram, como são todos os governos, de erros e acertos. O período de Fernando Henrique Cardoso no Palácio do Planalto é marcado pela estabilidade econômica, política e social. A democracia ganhou com FHC, os mais ricos ficaram mais ricos e os mais pobres ganharam menos, mas ganharam. Filho de general que lutou pelo “Petróleo é nosso”, FHC apostou na desestatização, vendeu a Vale do Rio Doce, a Telebrás, comprou a emenda da reeleição mas cobrou a conta da ditadura: criou o ministério da Defesa, dirigido por civis e sancionou a Lei 10.559/2002, que trata da reparação econômica aos anistiados políticos. Por estas atitudes é odiado por Jair Bolsonaro que já disse em entrevista que lhe desejava a morte.

Contraditoriamente, a herança do PSDB não é o legado de FHC,  mas o de  Aécio: a eleição de Jair Bolsonaro.

Nesta semana o ex-deputado federal Bruno Araújo (PE) que preside nacionalmente os tucanos tomou posse deste espólio ao declarar que o partido é contra o impeachment de Jair Bolsonaro.

Penso que, embora seja oficial, a declaração de Bruno Araújo não reflete o pensamento da maioria dos militantes da social-democracia tucana. Quando estava na Câmara Federal em 2016, Bruno Peixoto deu o voto decisivo que cassou Dilma Roussef, talvez esteja tão ligado ainda a este momento que lhe tenha sido tolhida a razão, não percebendo que o atual presidente não possui as condições éticas, morais e políticas para governar o Brasil.

Livro de Tzvetan Todorov mostra que franceses liderados pelo Marechal Petain mandaram judeus, sindicalistas, democratas, liberais e comunistas para a morte nos campos de concentração nazistas

Petain e Bolsonaro

Mas há outras considerações a serem feitas. E aí volto mais ao passado, tomando emprestada, em parte, a análise feita pelo professor e Doutor em História, Luís Rafael Araújo Corrêa, em sua reflexão para o site Mediun sobre o livro “Uma tragédia francesa”, de Tzvetan Todorov. Filósofo e linguista búlgaro radicado em Paris, França o autor esmiúça o colaboracionismo francês da República de Vichy com os nazistas durante a ocupação alemã na França (1940-1945).

Vichy foi um “Estado-Satélite” da Alemanha Nazista, que colaborou com o esforço de guerra alemão, e mais que isto: abraçou suas ideias, criando inclusive uma milícia paramilitar para combater a Resistência Francesa – grupo difuso, formado por liberais, democratas cristão, comunistas e socialistas – que fustigava  os nazistas:

“A Milícia Francesa, organização paramilitar criada pelo Estado de Vichy, visava eliminar os resistentes, considerados como “terroristas” pelos milicianos. Notadamente autoritária, fascista, antisemita e anticomunista, a “Milícia Francesa” representava a parcela da população francesa que se identificava com os princípios defendidos pela França de Vichy e, por conseguinte, pela Alemanha nazista.

Alguma semelhança entre as relações da ‘famiglia’ Bolsonaro com as milícias do Rio de Janeiro e Brasil afora?

Todov também observa:

“Vichy não foi uma zona ocupada pelos alemães, como a maior parte da Europa e parte da própria França. É interessante perceber a passividade dos franceses durante os anos imediatos após a derrota, com os anos situados entre 1940 e 1942 caracterizados por uma ausência de reação. Em meio a asse atordoamento da própria sociedade, o Marechal Petáin, assumindo o posto de herói nacional, busca dar novos rumos ao país, lançando bases para o que ficou conhecido como Revolução Nacional. Ideologicamente alinhada com o nazismo, o movimento defendia que não foram os alemães ou a fraqueza do exército que fez com que a França perdesse a guerra, mas sim os pecados dos próprios franceses, sendo, portanto, culpa deles próprios”.

Estaria aí a origem do vira-latismo bolsonarista com os Estados Unidos de Donald Trump?

A França da República de Vichy era um Estado-Satélite da Alemanha, talvez como o presidente Jair Bolsonaro pense o Brasil em relação aos Estados Unidos

Herói da I Guerra, o Marechal Philip Pentain aderiu a Hitler e ao nazismo em 1940

O escritor vai além. Observa que a França de Vichy pregava um “novo homem”, livre dos valores tradicionais, com forte nacionalismo, antissemitismo, anticomunismo, xenofobia e hostilidade à democracia parlamentar, tendo inclusive cerceado os poderes da Corte Suprema da França.

Lembra algo que acontece no Brasil do “Deus acima de todos” e das passeatas bolsonaristas pelo fechamento do Congresso, do STF e pela volta do AI-5, com a tal “intervenção militar constitucional”?

De acordo com o livro,“no bojo da “Revolução Nacional”, pregava-se uma “França Eterna”, onde os deveres deveriam ser maiores que os direitos, de modo que imperasse a ordem em detrimento das reivindicações.

O desmonte da legislação trabalhista pelo ministro da Economia Paulo Guedes não é mera coincidência.

Apatia e colaboracionismo vs resistência

Para o professor Luis Araújo Rafael Correia o principal debate no livro de Tzvetan Todorov é procurar entender a “alma” francesa durante a ocupação nazista. O que levou a elite francesa capitular tão rápido? Pior: a abraçar de imediato os ideais nazistas?

“(…) não devemos entender Vichy unicamente como produto do Estado. Na verdade, corroborando com a posição do historiador francês Pierre Laborie, é a passividade da própria sociedade francesa que produziu tal situação, abrindo as portas para o Estado de Vichy. Ou seja, não podemos entender tal situação como algo imposto de cima para baixo; novamente recorrendo a Laborie, a opinião pública que se formou é fruto do contexto, revelando o significado da espera, o chamado Attentism. Portanto, se o governo de Vichy muito colaborou com os alemães, e de forma voluntária, isso deve ser entendido a partir da própria sociedade francesa, considerando a sua passividade”, ressalta o livro.

E  Todorov sublinha:

“O discurso do general Charles de Gaulle, considerava a França como vítima e os franceses como bravos resistentes. Quando nos damos conta da forte presença e atuação dos milicianos pró-alemães isso logo cai por terra. A trajetória de seus membros nos dão bem a idéia de que a integração a milícia não só era voluntária, como também pressupunha a assimilação de diversos dos valores difundidos no bojo da Revolução Nacional de Pétain e que tanto se afinavam com os nazistas. Isso pode ser muito bem visto na trajetória de Francis Bout de l’An: após ter sido um militante comunista, ele acaba convertendo-se em fascista depois de uma visita à URSS; quando volta à França “vai estar, em 1943, entre os fundadores da milícia, assumindo aí uma posição ultracolaboracionista”, tendo como grande sonho “a criação de um grande partido nazista, do qual a milícia será o núcleo armado”. Ou seja, longe de ser desprezível, as milícias francesas pró-alemães eram “uma das únicas forças incontestes” em meio a insegurança crescente na França de Vichy”, frisa.

Reação fascista contra conquistas sociais

Há várias interpretações, além das de Tzvetan Todorov para o colaboracionismo com o nazismo na República de Vichy. Eu particularmente tenho minhas observações, e traço nelas um paralelo entre a França dos anos 1940 e o Brasil destas primeiras décadas do século XXI.

Leon Blum governou a França com justiça social de 1936-1938

Antes de Vichy, os franceses foram governados pela Frente Popular de Leon Blum (1936-1938). Em menos de dois anos, Blum – o primeiro judeu e socialista a dirigir a França -, realizou grandes reformas sociais: descanso semanal remunerado, férias remuneradas, jornada de trabalho de 40 horas, acordos coletivos de trabalho, participação das mulheres no governo (elas ainda nem votavam naquela época), estatização de transportes públicos, fábricas de armas e do Banco da França e realização de grandes obras públicas para gerar emprego e renda combatendo a Grande Depressão, originada em 1929 pela quebra da Bolsa de Valores de Nova Iorque, que lançou o mundo inteiro numa profunda recessão.

Vichy foi a reação de parte da elite francesa contra as conquistas trabalhistas. A “Revolução Nacional” do General Pentain varreu a classe trabalhadora do horizonte de governo. Direitos trabalhistas foram revogados e para os resistentes (sindicalistas, democratas, liberais, comunistas, judeus, ciganos, coloniais), a deportação para Alemanha onde eram submetidos a trabalhos forçados nas fábricas de armas alemãs, para ajudar no esforço de guerra nazista.

Para o ex-presidente Lula, a relutância de parte da elite brasileira em desapear Jair Bolsonaro do poder é porque embora não se sintam confortáveis com os arroubos autoritários do ex-capitão, concordam com a agenda ultra-liberal do ministro da Economia Paulo Guedes.

Desde que assumiu o poder, Paulo Guedes só fez cortes e mais cortes em direitos trabalhistas, de aposentados, de agricultores familiares. Mais:  no fatídico diálogo do dia 22 de abril, tornado público pelo STF (Supremo Tribunal Federal), Guedes disse que “tem que vender a porra do Banco do Brasil” e que o governo não tem dinheiro para “ajudar empresinhas”, negando de antemão socorro às micro, pequenas e médias empresas brasileiras, fragilizadas pela recessão econômica e pelos efeitos da pandemia do covid19.

Que falta faz o Henfil

 

O colaboracionismo com os nazistas manchou de forma indelével a biografia dos membros da Republica de Vichy e de seus apoiadores, que foram expurgados da política e lançados à lata de lixo da história. Mesmo fim reserva aqueles que  encontram brechas para apoiar o bolsonarismo, que tornou o Brasil um pária na comunidade internacional, tendo já lançado mais de 41 mil à morte com o negacionismo da pandemia, impedindo a implantação das políticas sanitárias necessárias ao real combate do covid19.

As últimas ideias tresloucadas do presidente Jair Bolsonaro – censurar a divulgação do número de mortos e insuflar apoiadores a invadirem hospitais de campanha para “desmentir” os médicos, prefeitos e os governadores –, são posições que devem ser tratadas como crimes contra a humanidade.

Não há diferenças entre os ideais da República de Vichy e do Governo Bolsonaro. A história está aí para tirar dos olhos o véu da ignorância. Sobre os dois regimes fico com a fala do saudoso Ulysses Guimarães, ao promulgar a Constituição de 1988:

“Temos ódio à ditadura. Ódio e nojo. Amaldiçoamos a tirania aonde quer que ela desgrace homens e nações. Principalmente na América Latina.”!

 

 

Com informações do site Medium e Wikipedia.