Em 1918 o Estado de Goiás também foi assolado por outra epidemia de influenza, e também naqueles dias, ficar em casa era um bom remédio.

Leia o artigo:

 

As receitas de vó Chiquinha às suas filhas contra a Gripe Espanhola 

Marcus Vinícius

 

Minha querida mãe, Euza Ferreira de Faria completa hoje 87 anos. Está lúcia, bem de saúde e cumprindo o isolamento imposto a todos nós brasileiros nestes dias de pandemia de Covid19. Liguei cedo para parabenizá-la e no meio da conversa ela me lembrou da experiência de sua mãe, Francisca Alves de Faria,  em relação à Gripe Espanhola.

Nascida em 05 de julho de 1894, a “”vó Chiquinha”, morava em Goiatuba, na região àquela época conhecida como “Fazenda Safada”. Meu avó, Ovídio Raimundo de Faria, era naquela ocasião barqueiro que atravessava pessoas  e mercadorias pelo Rio Meia Ponte. As notícas da epidemia chegaram primeiro aos seus ouvidos, de viajantes que diziam que “no estrangeiro” estão morrendo milhares de pessoas por uma ‘tal gripe espanhola’.

Cientistas e pesquisadores estimam que entre 50 milhões a 100 milhões de pessoas morreram (300 mil no Brasil) em razão da influenza espanhola, que aliás, não teve início na Espanha, e sim numa fazenda no Kansas (Estados Unidos), e de lá se espalhou para o mundo, pois naquele ano de 1918 o governo americano enviou tropas para a Europa, que ainda vivia os horrores da I Guerra Mundial. O Detalhe é que o presidente Woodrow Wilson não notificou os países aliados que seus soldados estavam gripados. Deu no que deu: a gripe em dois anos matou mais gente (100 milhões) do que a guerra, que vitimou 20 milhões em quatro anos (1914-1918) de conflito.

Mas, voltando à minha vó Chiquinha, dona Euza conta que o sertão goiano também adoeceu. “Minha mãe sempre falou pra gente daquela grande gripe e como ela abalou Goiás. Morreu gente nas cidades da estrada-de-ferro, mas isto chegou também em Morrinhos, Goiatuba, Santa Rita (Pontalina) e foi parar na capital Goiás”, revela.

Em razão do morticínio, vó Chiquinha tomou providência para que ela e o esposo não fossem vítimas da influenza. Ela que teria ao todo 14 filhos,  naqueles dias da peste ainda não era mãe, mas passaria adiante a receita para manter o corpo livre de gripes e resfriados.

“Minha mãe Francisca ensinou às sete filhas e aos dois filhos que Deus colocou sob sua responsabilidade que o corpo tem que ficar quente por dentro, por isto sua receita era que a alimentação tinha que ter coisas quentes. E dessas coisas quentes constituia o hábito de comer inhame, cará, colocar açafrão na comida, o chá de gengibre e de canela, comer melado de cana e quando houvesse o mel. O corpo quente por dentro não deixa a doença de fora entrar”, relata.

 

Eu que sempre gostei de inhame, cará, melado, mel e gengibre não fazia idéia (até então) do porque minha mãe gostava de utilizar este tipo de alimentos. Agora sei.

“Outra coisa que minha mãe fazia era trabalhar muito, sem reclamar. A gente não tinha tempo para falar mal da vida dos outros não. Era o dia inteiro cardando, fiando, fazendo farinha, polvilho,ou costurando, cozinhando, lavando roupa e cuidando dos afazeres domésticos”, frisa.

 

 

Vó Chiquinha com filhas e netos na Festa de Trindade em 1940. Dona Euza é a menina de sete anos a sua esquerda

Dona Euza diz que a vida das mulheres melhorou demais com a introdução dos eletrodomésticos, e, principalmente, o acesso ao estudo e ao mercado de trabalho. Mas alerta que muitos hábitos de vida simples e saudável se perderam, e isto também adoeceu o povo. “O povo hoje tem tudo e não tem tempo pra nada. Esse isolamento vai fazer muita gente pensar nestas coisas”, profetiza.

Parabéns mãe Euza, parabéns vó Chiquinha e parabens a todas as mulheres goianas e brasileiras que vivem esta dura realidade do isolamento imposto pela pandemia, muitas vezes em casas ou apartamentos  minúsculos, tendo que lidar com uma nova rotina estressante. Estes dias difíceis são de muitos aprendizados, que certamente o Criador quer que façamos. Peçamos a Deus a virtude da paciência e da intuição para fazer o melhor uso destes dias difíceis, para que saiamos melhores  deste confinamento como pessoas e como sociedade.