Bolsonaro entupiu os primeiros escalões com generais, coronéis e oficiais resgatados dos pijamas

por Ayrton Centeno, no BdF

Jair Bolsonaro é tudo isso que se sabe e que sempre se soube, conforme atestado por sua condição de protagonista durante três décadas no picadeiro do baixíssimo clero da Câmara Federal. Qualquer pessoa, de mediana inteligência, teria isso claro em minutos. Como se não bastasse, seus últimos dois anos de luta demencial contra as palavras, a ciência, a cultura, a saúde, a educação, a diversidade e o meio ambiente são mais do que suficientes para aquilatar a estupidez do personagem. Pergunta-se, então, por qual motivo as Forças Armadas gostosamente saltaram a bordo da nau dos insensatos do bolsonarismo?

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Aliar-se à figura tem um custo óbvio. Quando Bolsonaro bravateou sobre usar “pólvora”, aludindo a uma guerra com os Estados Unidos depois que o então candidato democrata Joe Biden criticou a devastação da Amazônia, as FFAA é que pagaram o pato. Receberam um bombardeio de memes nas redes dos quais os mais brandos registravam seu notável talento no ofício de pintar meios-fios…

Quando o presidente fala em “gripezinha”, incentiva aglomerações, condena a máscara, embarca no charlatanismo da cloroquina, chama de “maricas” quem receia uma doença mortal, desdenha do sofrimento das famílias ao dizer que não é coveiro, ataca a eficácia da vacina produzida pelo Butantan, rejeita comprá-la para logo, no desespero, correr atrás da Coronavac, o que se ouve é o silêncio dos quartéis. É um silêncio que delata a cumplicidade.

A inépcia do maluco no comando contamina a caserna. Não existe prova maior do que Eduardo Pazuello, o fantástico general que encolheu. Derrotado no entrevero com João Doria pelos holofotes da Coronavac, mostra-se aplastado, vacilante, perdido. Sem oxigênio, sem seringas, sem vacinas. Sem logística.

Pela exposição e pelo fiasco, Pazuello é hoje a face mais exposta da instituição militar. Sua performance servil – manda quem pode, obedece quem precisa – é a síntese atualizada da mentalidade castrense.

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É o preço pago pelos militares por retornarem ao poder 34 anos após o último dos cinco generais da ditadura abandonar Brasília findando uma época que legou um passivo devastador. E por voltarem pelas artes de um ator do submundo da política.

Por qual razão? Para defender a soberania nacional? Qual soberania mesmo, após a entrega do Pré-Sal, da Base de Alcântara e do esquartejamento da Petrobras?

Se falta soberania, sobra ridículo quando Bolsonaro declara-se para Trump diante das câmeras dizendo-lhe “I love you”. Até então, o troféu máximo da vassalagem brasileira aos EUA era de um civil, o antigo deputado Otávio Mangabeira, da UDN, ao ajoelhar-se para beijar a mão do general Dwight Eisenhower.

Então, o motivo não é a defesa da nação, do povo, das riquezas ou do território nacional. Das três explicações disponíveis no mercado, uma delas está conectada ao arcaísmo da formação militar, com a cabeça ainda enfiada no mundo bipolar da Guerra Fria e fabricando uma oficialidade que procura comunistas debaixo da cama.

As outras duas razões se relacionam afetuosamente com a palavra “dinheiro”. A começar pelo fato de que, segundo Veja, o orçamento das FFAA aumentou R$ 5,1 bilhões de 2020 para 2021. Enquanto isso, o da Saúde perdeu R$ 2,2 bilhões, apesar da tempestade viral que assola o país.

Bolsonaro entupiu o primeiro, segundo e terceiro escalões com generais, coronéis e oficiais resgatados dos pijamas. São mais de seis mil, dos quais 1.249 instalados em cargos de profissionais de saúde. Aparentemente, o segundo holerite tem um poder de sedução arrebatador. Um cálculo tosco, atribuindo modestos honorários de R$ 10 mil mensais a cada um desses seis mil abnegados, indica que a turma embolsa R$ 60 milhões a cada 30 dias. Nada mau.

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Curiosamente, um dos bordões do bolsonarismo é “Acabou a mamata”, reportando-se aos governos civis que antecederam o golpe de 2016 e atribuindo-lhes a concessão de vantagens indevidas aos seus próximos. Como mamata é sempre mamata, a superlotação de militares em cargos civis da administração federal pode lhes brindar com uma nova identidade, a de Forças Armadas da mamata.

**Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

Edição: Rogério Jordão

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