“Agora, ao invés da sua “imagem”, é melhor os militares se preocuparem com a situação desesperadora da maioria da população, porque a fome está batendo na porta de cada vez de mais casas no Brasil”, adverte o geógrafo Milton Pomar, em artigo. “E a fome não respeita hierarquia”, alerta ele.

Generais prezam muito a hierarquia e evitam meter-se em política, exceto os que articularam a eleição do ex-capitão e continuam trabalhando por sua manutenção na presidência. Desde que ele começou a mandar em generais, o desconforto tem crescido entre os oficiais superiores, porque o ex-capitão parece não poupar nada nem ninguém.

O jornalista Gerson Camarotti, da Globo, comenta em seu blog hoje (13/11), sobre esse desconforto, no dia seguinte à fala do comandante do Exército, Edson Pujol, que afirmou que “os militares não querem fazer parte da política, muito menos deixar ela entrar nos quartéis”. O vice-presidente general Mourão teria dito ao jornalista que “a política nos quartéis acaba com a disciplina e com a hierarquia.”

Impressiona o esforço desses dois generais em tentar negar o óbvio. O atual presidente da República quebrou a hierarquia de maneira pública e acintosa quando ainda estava no Exército, em 1986, e foi a partir desse crime militar que ele se projetou para a política. Generais o absolveram no Supremo Tribunal Militar, em 1988. E foram novamente generais a resgatá-lo da mediocridade parlamentar, em 2015, acenando com a perspectiva de sucesso em uma então improvável candidatura presidencial. Os que o procuraram para a aventura da presidência sabiam exatamente quem era o ex-capitão, porque havia sido preso em 1986 e como fora absolvido em 1988. Registre-se que essa iniciativa foi liderada pelo então ministro do Exército, general Villas Boas.

Mais do que a estupidez verbalizada a três por quatro pelo ex-capitão, o que preocupa e envergonha a Nação é a sucessão de fatos trágicos do desgoverno federal, que mantém o Brasil à deriva: pandemia descontrolada, a maior quantidade de mortos em tempo de paz, 52 milhões de pessoas na pobreza, economia destroçada, instituições em situação caótica, Pantanal queimado, Amazônia desmatada e incendiada, desempregoinflação dos alimentos, desindustrialização, importação de soja, tentativa de sabotagem da vacinação contra a Covid-19, isolamento internacional…

E o que será das 66 milhões de pessoas que receberam ajuda emergencial, a partir de janeiro de 2021, quando já não poderão mais contar com os míseros R$300,00 mensais?

Os generais não externam preocupação com esse quadro verdadeiramente explosivo, nem com os crimes de responsabilidade cometidos pelo ex-capitão, que embasam os processos de “ impeachment” contra o presidente da República – consta que já seriam mais de 50, sob a guarda do presidente da Câmara dos Deputados. Nesse contexto de pesadelo interminável, a preocupação dos generais com a “imagem” deles próprios é realmente notável: “Ao blog, um general da reserva alertou que na gestão Bolsonaro os militares estão sofrendo uma espécie de humilhação pública.”

Após apoiarem um “mau militar”, preso por quebrar a hierarquia, e absolvido em segunda instância por acordo político de oficiais superiores, o que os generais esperavam, além do considerável aumento salarial que conseguiram? Agora, ao invés da sua “imagem”, é melhor os militares se preocuparem com a situação desesperadora da maioria da população, porque a fome está batendo na porta de cada vez de mais casas no Brasil. E a fome não respeita hierarquia.

Milton Pomar é geógrafo, mestre em Políticas Públicas. Serviu Exército em 1978.