Trabalhando com madeira que está em risco de extinção, Arthur Gonçalves diz que só utiliza troncos de pau brasil já caídos em áreas florestais de São Gabriel da Cachoeira (Foto: Ana Amélia Hamdan)


Ana Amélia Hamdan, especial para a Amazônia Real – São Gabriel da Cacheira (AM) – Durante o Sínodo para a Amazônia, que começou neste domingo (6) e vai até o dia 27 de outubro, no Vaticano, na Itália, o Papa Francisco receberá de presente da Diocese de São Gabriel da Cachoeira, na região do Alto Rio Negro, no Amazonas, obras em madeira pau-brasil feitas pelo artesão Arthur Gonçalves Gaspar. As obras são um cálice e um cibório, objetos usados na Eucaristia e que recebem, respectivamente, o vinho e as hóstias durante a missa. O bispo de São Gabriel, Dom Edson Taschetto Damian, que está participando do evento eclesial, será o responsável pela entrega dos presentes ao Papa Francisco.

Arthur Gonçalves Gaspar tem uma pequena oficina de artesanato montada na sua casa, no bairro Dabaru, na periferia de São Gabriel da Cachoeira. Junto ao presente confeccionado na famosa madeira avermelhada, que é símbolo do país, o Papa Francisco vai conhecer a tradição do artesanato, a lida diária comum a vários artesãos indígenas da região do Alto Rio Negro.

O Papa Francisco fez abertura da Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a Região Pan-Amazônica no domingo (6), na Basílica de São Pedro. Com o tema “Amazônia: novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral”, participam do evento 185 padres sinodais, sendo 58 do Brasil e 11 da Amazônia brasileira. Participam também da assembleia representantes de comunidades indígenas, mulheres e padres de várias congregações, entre eles, o indígena brasileiro Justino Sarmento Rezende.

O Papa Francisco na abertura do Sínodo da Amazônia com lideranças indígenas
(Foto: Vatican Media)

Durante a missa de abertura do Sínodo, o Papa Francisco criticou a degradação da Floresta Amazônica pelos incêndios florestais, mas não citou nomes de países onde as queimadas acontecem desde o mês de julho, a maioria pela ação dos desmatamentos. Leia a série Amazônia em Chamas.

“O fogo ateado por interesses que destroem, como o que devastou recentemente a Amazônia, não é o do Evangelho. O fogo de Deus é calor que atrai e congrega em unidade. Alimenta-se com a partilha, não com os lucros”, disse o Pontífice.

Árvore protegida por lei

Artesão Arthur Gonçalves em sua oficina
(Foto: Ana Amélia Hamdan)

Protegido por lei, o pau-brasil (ou Paubrasilia echinata-Fabaceae, no seu nome científico) é uma árvore nativa das florestas tropicais. A madeira atraiu os colonizadores europes em 1502 e foi duramente explorada, ficando em risco de extinção. Foram os portugueses que deram o nome pau-brasil, mas em tupi-guarani, a árvore era chamada de ibirapitanga, sendo que “ybirá” é árvore e “pitanga” significa vermelho.

Segundo o especialista em botânica e professor do Instituto Federal da Amazônia (Ifam), doutor Valdely Kinupp, o pau-brasil não é uma árvore nativa do bioma Amazônia. Mas em São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas, é possível encontrar a espécie cultivada.

A espécie é nativa da Mata Atlântica, encontrada em estados das regiões Sudeste e Nordeste do país. Dessa forma, artesãos da Amazônia podem utilizar em seus trabalhos o pau-brasil cultivado, diz o especialista.

Além disso, segundo Valdely Kinupp, no Amazonas também há ocorrência da espécie chamada de pau-rainha ou garrote (Brosimum rubescens).

“É uma madeira muito bonita. Nem usamos verniz. Só mesmo uma seladora para proteger”, diz o artesão Arthur Gonçalves, destacando que na produção do artesanato não derruba árvores, pois trabalha com troncos encontrados na floresta ou em roças antigas. “Só trabalhamos com aquelas que a própria natureza abateu”.

Em 2016, houve uma revisão da classificação taxonômica de diversas espécies de árvores do Brasil, entre elas o pau-brasil o que provocou uma mudança do nome científico da árvore símbolo do país de Caesalpinia echinata Lam para Paubrasilia echinata-Fabaceae.

Os presentes para o Papa Francisco da Diocese de São Gabriel da Cachoeira
(Foto: Ana Amélia Hamdan)

Com simplicidade e fala tranquila, o artesão Arthur Gonçalves, de 51 anos, recebeu a reportagem da Amazônia Real em sua casa e contou que foi procurado por representante da Diocese para fazer as peças para o Papa Francisco. “Fiquei feliz em fazer uma peça para alguém tão importante. Mas trato de maneira igual todas as pessoas que me fazem encomendas”, afirma ele.

Arthur é católico e, sem saber muito sobre o Sínodo, confessa que imaginou que os objetos já tinham sido entregues ao Papa anteriormente. “Só depois da nossa conversa é que vi uma reportagem sobre o encontro dos bispos e percebi a importância do encontro”, disse ele, em uma segunda entrevista. “Essa situação (da Amazônia) é preocupante. É o homem destruindo a si próprio. Isso acontece aqui e nas grandes cidades”, diz ele.

O artesão, também conhecido como “Arthur bagunceiro”, apelido que ganhou na infância, é casado e tem dois filhos. “Quando fui casar, uma pessoa até falou com minha esposa, que de bagunceiro eu não tinha nada”, diz o artista sobre a brincadeira dos amigos da escola.

Arthur Gonçalves montou em sua casa a oficina de artesanato onde está seu principal instrumento de trabalho, um torno, de onde saem cálices, porta-joias, entre outros objetos em madeira. Hoje, trabalha principalmente atendendo a encomendas.

“Acho que nasci para isso. Adoro o que faço”, diz ele. Também trabalha como segurança “para ter mais estabilidade”.

A artesã Gilda Barreto, da etnia Baré (Foto: Ana Amélia Handam)

Novamente mostrando simplicidade, Arthur diz que tem peças espalhadas no mundo todo, mas que não assina seu trabalho, preferindo o anonimato. Para encontrá-lo, a reportagem contou com a ajuda da artesã Gilda Barreto, da etnia Baré. Ela mantém uma loja de artesanato indígena no Centro da cidade e tem contato constante com os artistas.

Gilda explica que o artesanato em pau-brasil é tão tradicional entre os povos indígenas como a cestaria e a cerâmica. “Antes mesmo de os colonizadores chegarem, os indígenas já faziam objetos como colheres e garfos em pau-brasil. Só não tinham esse nome. É a melhor madeira para se trabalhar. Não estraga, não dá problemas”, diz.

Nascido em Cucuí, distrito de São Gabriel da Cachoeira, Arthur Gonçalves é indígena, mas se considera caboclo, pois afirma que não teve muito contato com as tradições culturais dos povos e nem sabe informar a etnia de seus parentes. No entanto, carrega dos indígenas a facilidade em lidar com artesanato. Além disso, passou pela experiência de viver da pesca, da caça e da roça.

E foi buscando uma forma de ter uma renda além dessas três alternativas que ele se tornou artesão. Ele diz que quando tinha cerca de 18 anos começou a aprender o ofício, ainda em Cucuí, com o o Sr. Flávio, um militar aposentado. E desde então vem confeccionando peças em pau-brasil.

O amigo cearense

O artesão Francisco João Araújo (Foto: Ana Amélia Hamdan)

Dessa época, guarda a amizade valiosa do Seu Chico, que ele chama mestre Chico. Trata-se do artesão Francisco João Araújo, de 65 anos. Eles aprenderam juntos a arte de esculpir em madeira. De Cucuí, vieram para São Gabriel da Cachoeira.

Muitas vezes trabalharam em conjunto para atender as encomendas. A parceria é tanta que, para se saber a autoria das peças destinadas ao Papa, houve dúvida se o artista era o Seu Chico ou Arthur Gonçalves. A certeza veio do seu Chico. “As peças são do Arthur. Já fiz muitos trabalhos para a Igreja, mas estou sem trabalhar há um tempo”, disse.

Ele também relata que suas peças estão espalhadas por todo o mundo. Turistas e o pessoal ligado à Igreja Católica já levaram exemplares feitos pelo artesão para países como Itália, Alemanha e Coreia. “Só não sei se é do Norte ou do Sul”, diz.

Seu Chico é cearense e chegou à região de São Gabriel da Cachoeira na década de 70. “Na cidade só tinha um carro particular naquela época”, relembra. E em 1975 perdeu a perna num acidente de barco no Rio Negro. “A gente andava por aí procurando trabalho”, diz. Por pouco não perdeu a vida. E, sem uma das pernas, acabou se afastando das pessoas e se tornou alcoólatra. “Acho que tive depressão, mas me virei sozinho, sem apoio”, diz.

Por iniciativa própria, conseguiu parar de beber e começou a trabalhar com diversas atividades, vendendo pipoca e din-din, sendo empregado de mercearia e consertando máquinas. E foi aí que se interessou pelo ofício de artesão. “Tentei sobreviver sem mendigar. Às vezes foi muito difícil. Ao ponto de pensar o que iria comer no dia seguinte”, recorda.

Seu Chico é conhecido na região por fazer muitos trabalhos para a igreja, mas também por seus jogos de xadrez. Ele reforça que utilizou só madeira encontrada já caída na natureza. “Não é o artesão que provoca dano ambiental”, diz. Mas desistiu do ofício. Hoje trabalha principalmente consertando máquinas de costura. “Agora, só quero deixar um jogo de xadrez para cada um dos meus três filhos”, diz ele, que é casado.

Para a confecção do jogo de xadrez, segundo ele, gasta-se muito “polimento no pau-brasil e polimento no banco”, referindo-se ao trabalho árduo do artesão para esculpir as peças e fazer o tabuleiro. Ele diz que já não tem tanta força para carregar e trabalhar a madeira. E, além disso, enfrentou dificuldades com clientes, que muitas vezes querem barganhar e pagar um preço aquém do que a peça vale.

Seu Chico é um exemplo para Arthur Gonçalves. “O Chico é uma pessoa sincera, honesta e correta. Passou por tanta situação e nunca deixou de trabalhar. Sempre foi consciente das coisas. Aprendi bastante com ele e não teria todo esse conceito de vida se não tivesse conhecido o Chico. Não gosto de inventar nada, de enganar as pessoas ou me endividar”, diz.

A amizade permanece. Arthur mora no Dabaru, bairro que fica próximo ao Graciliano, onde vive Seu Chico. O Papa Francisco, certamente, vai apreciar o presente feito com todo o cuidado pelo artesão Arthur Gonçalves. E o pontífice – conhecido pela atenção que dá à simplicidade e humildade – com certeza também apreciaria a história desses amigos. História que reúne elementos comuns a vários artesãos de São Gabriel: a persistência, o cuidado com o ofício, a arte, o talento para o artesanato, a luta pelo sustento, o respeito pela natureza que fornece a matéria-prima.


São Gabriel da Cachoeira fica no norte do Amazonas
(Foto Alberto César Araújo/Amazônia Real)

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