Articulista do site Brasil247, Alex Solnik comenta a entrevista  do ex-presidente do Banco Central Armínio à GloboNees onde dá a mão à palmatória: Lula tinha razão.

A surpresa da noite foi ele dizer que diminuir a desigualdade deveria ser a prioridade número um e que “a desigualdade impede o crescimento”. Parecia Lula falando

Por Alex Solnik

Poucas vezes eu vi um entrevistado tão para baixo como Armínio Fraga ontem à noite. Seu desalento era tão palpável que contaminava o time de entrevistadores do programa Central Globo News e certamente os telespectadores. Embora se rotulasse como otimista.

Poucas vezes eu vi um entrevistado falar muito menos que seus entrevistadores. Eles – Merval Pereira, Valdo Cruz, Miriam Leitão, João Borges, Natuza Nery e Heraldo Pereira – faziam longas e implacáveis exposições acerca da situação política e econômica e ele apenas confirmava:

Está pior do que antes”?
“Está”.
“Está vendo melhora no horizonte”?
“Não”.

Estava ali um ex-presidente do Banco Central e atual gestor de fundos milionários, de dentro e de fora do país. Um homem do mercado.

Alguém que conhece os dois lados do balcão.

Seu quadro depressivo deve ter a ver com as cobranças dos clientes. Ele apostou em Bolsonaro; apostou as fortunas de seus clientes; e agora está vendo a fria em que meteu seus clientes e ajudou a meter o país. Me lembrou aquele quadro de Munck, O Grito. Desesperado. Mas seu desespero era um grito murcho, lacônico.

Ninguém perguntou em quem Armínio votou em 2018, mas não deve ter sido em Fernando Haddad, a julgar por suas opiniões pretéritas acerca do PT.

Se os entrevistadores não tivessem uma pergunta engatilhada atrás da outra o silêncio tomaria conta: para cada pergunta de dois minutos ele respondia em dez segundos.

“As declarações do presidente e de seus filhos prejudicam o ambiente de negócios”?
“Prejudicam”.
“Quais? Sobre a Amazônia? Sobre a mulher dom Macron?
“Todas… aquela do dia sim, dia não…”

Citou preocupação no exterior com a Amazônia, com a incapacidade de o país crescer e com a “qualidade da democracia” brasileira, que também o preocupa. “Não há que vá ter um golpe” arriscou.

A surpresa da noite foi ele dizer que diminuir a desigualdade deveria ser a prioridade número um e que “a desigualdade impede o crescimento”. Parecia Lula falando.

A surpresa foi tal que Miriam Leitão disparou: “O senhor é de esquerda”?

Ele admitiu ter adotado a tese depois de ler relatórios recentes com números do Brasil comparados aos de outros países e constatar que o nosso país é campeão na modalidade:

“Sem diminuir a desigualdade não há como crescer. E a desigualdade sequer está na pauta do governo”.

Depois de duas horas de clima de velório o apresentador Heraldo Pereira encerrou com uma brincadeira para desanuviar o ambiente:

E o senhor disse no começo que era um otimista”…
“Imagina se eu não fosse” respondeu Armínio.”

Alex Solnik é articulista do Brasil247.