Para o ex-chanceler e ex-ministro da Defesa  Celso Amorim, o presidente Jair Bolsonaro cometeu crime de responsabilidade.

A submissão do presidente Jair Bolsonaro aos EUA passou de todos os limites no final de semana. Ex-militar expulso do Exército por suspeita de terrorismo, Bolsonaro, o patriota de araque, compareceu no sábado (4) à embaixada americana para comemorar a independência estadunidense. O gesto simboliza a traição do presidente à soberania nacional e ao povo brasileiro, já abandonado à própria sorte em meio à pandemia do coronavírus. Bolsonaro decidiu humilhar 210 milhões de compatriotas ao comparecer a almoço ao lado do ministro da Defesa, Fernando Azevedo, do ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, e dos ministros Braga Netto (Casa Civil) e Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de Governo), além do filho, o deputado federal Eduardo Bolsonaro.

Para o embaixador, ex-chanceler de Lula, e ex-ministro da Defesa de Dilma Rousseff, Celso Amorim, Bolsonaro cometeu crime de responsabilidade. Em entrevista à colunista Denise Assis, do ‘Jornalistas pela Democracia’, Celso Amorim citou o artigo 4º da Constituição Federal, cujo primeiro parágrafo trata da independência nacional. O texto estabelece que o Brasil não se submeterá a nenhum outro ordenamento jurídico. Além disso, a República Federativa do Brasil também deve buscar a “integração econômica, política, social e cultural dos povos da América Latina, visando à formação de uma comunidade latino-americana de nações”. 

“Veja bem, não teria nada demais ele fazer uma visita em um tempo que fosse normal, se ele visitasse outras embaixadas também. Cada presidente tem lá uma escolha. Agora, ir com aquela equipe toda, em um ambiente desfrutável, de estar confraternizando… Só faltou comer melancia com sal e pimenta para se identificar mais lá com os norte-americanos”, observou Amorim. Para o embaixador, a presença de militares no almoço com o embaixador americano é preocupante.

“Eu, no plano simbólico, acho que os militares dão muita importância, não é uma coisa boa. Não é uma coisa boa estar lá com os ministros militares, com o ministro da Defesa, ministro das Relações Exteriores”, declarou Celso Amorim. Para ele o gesto “é uma submissão tão explícita, que deveria até envergonhar”.

O artigo também faz menção à igualdade entre os Estados, baseado no princípio da reciprocidade. O que torna incompreensível a submissão de Bolsonaro aos EUA, uma vez que sua devoção não trouxe nada de positivo ao Brasil. Ao contrário, só favoreceu o governo de Donald Trump. “Qual o objetivo de explicitar tanto esta relação?” questionou o ex-chanceler.

“Não sei”, respondeu. “É para agradar alguém. Deve ter alguém que vê e ache que isto está bem. Eu sinceramente não consigo compreender o que é que isto traz de ganho para o próprio governo, junto a uma parte considerável, inclusive uma parte conservadora, que gostaria de ver pelo menos uma certa decência nas ações e nas imagens”, espantou-se Amorim.

Trapalhadas

Desde o início do governo, a guinada imposta pelo ministro Ernesto Araújo gerou uma série de trapalhadas diplomáticas que resultaram em um verdadeiro vexame e humilhação para o país na política externa. Inexperiente e despreparado, Araújo adotou um alinhamento cego aos americanos que transformou o país em anão diplomático, prejudicando não apenas o Brasil mas toda a América Latina.

Em fevereiro, por exemplo, Trump decidiu retirar o Brasil de uma lista de países classificados como em desenvolvimento no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMS). A participação brasileira na lista conferia vantagens comerciais, perdidas após a decisão de Trump. Em outras palavras, o comércio exterior do país sofreu severo golpe sem que o governo brasileiro emitisse uma nota denunciando ou protestando contra a arbitrariedade americana.

Trump voltou a demonstrar seu desdém pelo “aliado” Bolsonaro em maio, ao decretar a suspensão da entrada de brasileiros e mesmo estrangeiros de ingressar nos EUA em voos procedentes  do Brasil. “Hoje o presidente tomou a ação decisiva para proteger nosso país, ao suspender a entrada de estrangeiros que estiveram no país (Brasil) durante um período de 14 dias antes de buscar a admissão nos Estados Unidos”, informou um comunicado da secretária de Imprensa da Casa Branca, Kayleigh McEnany. Na ocasião, 24 de maio, o país já havia ocupado o segundo lugar em número de casos de Covid-19, com 365 mil casos e 22,7 mil mortes.

Engano

“Essa ideia de que haverá uma fidelidade do governo Trump para com o Brasil é um engano”, observou Fernanda Magnotta, doutora em Relações Internacionais, coordenadora do curso de Relações Internacionais da Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP) e especialista em Estados Unidos, em depoimento ao blog ‘Entendendo Bolsonaro’. “

“Isso já ficou muito claro nesta última declaração que o presidente estadunidense fez apontando o Brasil e a Suécia como exemplos do que não deve ser feito durante a pandemia. Quando os interesses dele e do bolsonarismo estiverem contrapostos, certamente o Trump não hesitará em jogar o Brasil embaixo do ônibus, porque está é a lógica da política internacional”, afirmou Magnotta.

Aberração diplomática

A última aberração diplomática ocorreu no mês passado, quando Araújo emitiu uma nota expressando contentamento com manobra dos EUA para obter a presidência do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Diz o inacreditável comunicado: “o governo brasileiro recebeu positivamente o anúncio do firme comprometimento do governo dos Estados Unidos com o futuro do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) por meio da candidatura norte-americana à presidência da instituição”.

Ocorre que, tradicionalmente, o banco é presidido por um latino-americano desde a década de 50.  Diante da incompreensível anuência do Itamaraty, a ofensiva de Trump encontrou resistência em uma declaração assinada por cinco ex-presidentes da região. “A proposta de nomeação não anuncia bons tempos para o futuro da entidade, o que nos leva a expressar nossa consternação com essa nova agressão do governo dos Estados Unidos ao sistema multilateral, com base nas regras acordadas pelos países membros, diz o comunicado assinado pelos ex-presidentes, entre eles o brasileiro Fernando Henrique Cardoso.

Crise de legitimidade

“O Itamaraty enfrenta uma crise profunda, inclusive, de legitimidade do ministro (Ernesto Araújo), que não representa a maioria dos diplomatas”,, conclui Fernando Magnotta. Para a especialista, a atual política externa brasileira representa “uma descontinuidade de valores e tradições considerando o que hoje se pratica. Eu diria que há, sim, uma crescente onda de descrédito do Brasil no plano internacional, porque o país vem deixando de ocupar os espaços e perdeu respeitabilidade”, ressaltou Magnotta.

Fonte: Jornalistas pela Democracia