Médicos  advertem que o uso do medicamento explodiu durante a pandemia na capital baiana. Em Natal (RN), 90% dos pacientes em UTI usaram o vermífugo

Do Correio BA

Em mais de três décadas de trabalho como hepatologista, Raymundo Paraná havia atendido dois pacientes com lesões no fígado provocadas por Ivermectina, um vermífugo.

Havia, até outubro do ano passado. Nos últimos cinco meses, recebeu no consultório, em Salvador, mais gente lesada pelo medicamento que em 35 anos. Nove pessoas o procuraram. Todas ingeriram doses excessivas do remédio – cinco delas com prescrição médica.

De “evento raro”, como descreve Paraná, a procura de pacientes com problemas no fígado desencadeados pelo medicamento se “tornou frequente”.

O perfil de quem procura hepatologistas como Paraná varia de jovens a idosos, que viam na Ivermectina uma fantasia de cura ou prevenção contra o coronavírus. Chegam com olhos amarelados, urina escura e náuseas, geralmente.”

Em mais de três décadas de trabalho como hepatologista, Raymundo Paraná havia atendido dois pacientes com lesões no fígado provocadas por Ivermectina, um vermífugo. Havia, até outubro do ano passado. Nos últimos cinco meses, recebeu no consultório, em Salvador, mais gente lesada pelo medicamento que em 35 anos. Nove pessoas o procuraram. Todas ingeriram doses excessivas do remédio – cinco delas com prescrição médica.

De “evento raro”, como descreve Paraná, a procura de pacientes com problemas no fígado desencadeados pelo medicamento se “tornou frequente”. O perfil de quem procura hepatologistas como Paraná varia de jovens a idosos, que viam na Ivermectina uma fantasia de cura ou prevenção contra o coronavírus. Chegam com olhos amarelados, urina escura e náuseas, geralmente.

A reportagem do CORREIO tentou falar com, pelo menos, dez pessoas com efeitos da Ivermectina no fígado. Nenhuma quis – mesmo sob anonimato.

“Quando você usa indiscriminadamente, é um absurdo. Eu já vi paciente usando três vezes ao dia”, conta Paraná.

Normalmente, a dose de um vermífugo como a Ivermectina é anual. Na pandemia, ele tem sido, sem aval científico, propagandeado como uma opção para prevenir ou diminuir os riscos de uma evolução grave da covid-19. Nenhuma das premissas se provou. Todas ficaram no campo das convicções, que, no campo de saúde, cobram um preço. O fígado é um dos que pagam.

Em Natal prefeito “receitou” ivermetina

Já a reportagem do Correio Braziliense trouxe situação semelhante à de Salvador na capital do Rio Grande do Norte, Natal.

Em entrevista a um telejornal local, a infectologista Marisa Reis, integrante do Comitê Científico do Rio Grande do Norte, recriminou a recomendação do uso de ivermectina feita pelo prefeito de Natal, Álvaro Dias (PSDB).

Segundo a médica, ”mais de 90% dos doentes que estão internados nas nossas UTIs (no RN) fizeram uso de ivermectina. Então significa que ela não é capaz de fazer o que se promete’, adverte.

“É um acinte ao conhecimento médico, ao conhecimento científico. É inaceitável que médicos e o prefeito da cidade de Natal, que é médico, venham dizer que vão distribuir ivermectina nos postos. Isso é uma vergonha. Não adianta as pessoas se esconderem por trás de um comprimido de ivermectina achando que ele vai protegê-las. Não vai! Não há evidências de que esse medicamento protege contra a COVID”, advertiu Marisa.

Com alta de internações na capital, o prefeito indicou o uso da ivermectina no tratamento contra a doença causada pelo novo coronavírus:

“Até a vacinação ser concluída, o prefeito Álvaro Dias pretende reforçar as políticas de prevenção à doença e as voltadas para o tratamento precoce. O uso da Ivermectina, como medicamento profilático, por exemplo, é apontado pelo prefeito como extremamente necessário e benéfico, por evitar a disseminação da doença e ajudar a reduzir a carga viral e, assim, diminuir frontalmente os efeitos da COVID-19 nas pessoas”, diz comunicado da prefeitura de Natal divulgado em 15 de fevereiro.

A ivermectina é usada no tratamento de vários tipos de infestações por parasitas, entre elas as causadas por piolhos e sarna. O remédio entrou na pauta das discussões sobre a COVID-19 e possíveis indicações para terapia, e já foi recomendado como eficaz para tratar o coronavírus pelo ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, e pelo presidente Jair Bolsonaro.

Fabricante descarta uso para covid19

A fabricante do remédio, a Merck, veio a público informar, há duas semanas, que ele deve ser ingerido apenas em doses adequadas contra verminoses, não para tratar ou prevenir o coronavírus, contra o qual não existe sequer uma cartilha de tratamento. Procurada pela reportagem, a empresa não quis se pronunciar

A Ivermectina é colocada no centro do debate por duas razões: em dezembro passado, o governo federal autorizou a compra do medicamento sem prescrição; e as altas doses ingeridas, por ser equivocadamente citado como um remédio que, se não fizer bem, mal não faz.

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