Parece que a ignorância sobre o funcionamento do sistema elétrico é um caso bem mais grave do que se pensa.

Lamentavelmente, no sentido inverso do mundo, o Brasil vai criar dificuldades para uma forma de geração de energia elétrica a partir do sol.

É bom lembrar, que, até agora, a imensa maioria de geração de eletricidade se dá através de energia cinética. Turbinas giram (hidroelétricas, eólicas, térmicas) e, através das leis físicas do eletromagnetismo, geram eletricidade.

A energia fotovoltaica é uma novidade até nesse aspecto, pois a produção de energia elétrica se dá pela interação da luz do sol com materiais fotossensíveis. Não há turbinas.

Mas, para explicar porque está tudo errado nesse confuso modelo brasileiro, é preciso “desenhar”. Vamos imaginar um micro país. Já que as próprias autoridades dizem que estamos “distribuindo renda dos consumidores com menor poder aquisitivo para consumidores com mais poder aquisitivo”, vamos imaginar o seguinte:

Esse país tem apenas 2 moradores. Um “rico” e um “pobre”. Vamos supor que haja uma hidráulica e uma térmica.

  • O “rico” consome o dobro do “pobre”.
  • Vamos supor que o kWh da usina hidráulica custe R$ 1.
  • Vamos supor que o kWh da térmica custe R$ 3.
  • Essas proporções não são muito diferentes da realidade.
  • Vamos supor que a hidráulica gera 200 kWh e a térmica gera 100 kWh.
  • Qual é o custo médio de geração desse sistema?
  • (200 kWh x R$ 1 + 100 kWh x R$ 3) / 300 kWh = R$ 1,6/kWh
  • Portanto, a conta do Rico seria 200 x R$ 1,6 = R$ 320
  • A do Pobre seria 100 x R$ 1,6 = R$ 160

Ai, o Rico instala um painel fotovoltaico pagando do seu próprio bolso e passa a consumir a metade do que consumia, de 200 para 100 kWh.

Nesse micro país, o consumo total se reduziu de 300 para 200 kWh. Uma redução de 33%!

Ora, nessa situação, pode ser que o operador desligue a térmica.

  • O custo por kWh passa a ser R$1.
  • A conta do Rico passa a ser 100 x R$ 1 = R$ 100.
  • A conta do Pobre passa a ser 100 x R$ 1 = R$ 100.
  • O Rico economizou R$ 220, mas gastou o preço do telhado.
  • O Pobre economizou R$ 60 sem gastar nada!

Mas, vamos supor que o operador apenas diminua a geração térmica. Hidráulica gera 150 kWh e a térmica gera 50 kWh. Uma situação de proporção bem pior do que a real.

  • O custo médio por kWh passa a ser (150 x 1 + 50 x 3) / 200 = R$ 1,5 /kWh.
  • A conta do Rico seria 100 X R$ 1,5 = R$ 150.
  • A do Pobre seria 100 x R$ 1,5 = R$ 150.
  • O Rico economizou R$ 170, mas pagou o telhado.
  • O Pobre economizou R$ 10, sem gastar nada!!!

Quanto maior a diferença entre o consumo do Rico e do Pobre, na instalação do fotovoltaico pelo Rico, melhor fica para o Pobre.

Se, mesmo com redução do consumo o custo de geração não cai, então o problema é o sistema que está subdimensionado. Nada a ver com o telhado do Rico.

Mas a ANEEL e as autoridades do governo acham que o Rico explora a rede pois a energia que ele gera e não consome imediatamente trafega num longo passeio pelos fios da distribuidora. Nesse micro país é fácil ver que isso é falso.

Na realidade, o suprimento das usinas se reduz porque parte da energia do Pobre é suprida pelo telhado do Rico. Se isso não acontecer então as leis de fluxo de corrente precisam ser revistas! Na realidade, a corrente elétrica que vai para o Rico se reduz e a rede se alivia justamente no horário de maior consumo (15hs) (*).

Mas, no Brasil, os interesses comerciais se sobrepõem à lógica e, apesar das contas aqui mostradas, usa-se o argumento que o foco é a cobrança dos fios das distribuidoras. Ora, a cobrança da tarifa TUSD, que não é nada barata ( ~ R$ 0,4/kWh), é proporcional ao consumo de energia.

Por exemplo, imaginem 2 vizinhos com o mesmo consumo de energia. A tem fotovoltaicas e B não tem. Digamos que, sob o ponto de vista das distribuidoras, o consumo deles seja exatamente 100 kWh. Portanto, se a regra é pagar proporcional ao consumo, eles desembolsam R$ 40 todo mês.

Mas, A resolve viajar e desliga todos seus eletrodomésticos por um mês. Quando volta vê que não adiantou nada zerar seu consumo, pois recebeu uma fatura de TUSD de, digamos, R$ 20. Ou seja, sem consumir energia do sistema, A paga TUSD. Portanto, na prática, a regra deixa de ser proporcional ao consumo. O consumidor A aprende a lição, e na próxima viagem, desliga seu telhado fotovoltaico deixando de proporcionar alívio ao sistema. É um país de cabeça pra baixo!

E, por fim, reparem que existem outros fios. Os que vão das usinas para o poste. Esses se chamam de transmissão e ninguém paga mais por usar essa rede.

Isso mostra que o problema das distribuidoras é outro totalmente diferente, tem a ver com o mercado livre e com o estado dessa rede no mundo real.

Essa bagunça ai da foto parece não incomodar a equipe do Paulo Guedes e nem a ANEEL. Estranho, não é?

 

(*) É apenas uma suspeita, mas, se o horário de maior consumo é após as 18 hs, por que cancelaram o horário de verão? Se o verdadeiro horário de pico de consumo é as 15 hs e o governo propõe a tarifa branca para que os consumidores lutem por uma redução da fatura de luz, isso não seria uma tentativa de desvalorizar a energia solar?


Parecer entregue à Aneel sugere que atual sistema prejudica consumidores sem painéis fotovoltaicos em casa Por Daniel Rittner — De Brasília 08/01/2020 05h00 ·

Menos de uma semana antes da ofensiva deflagrada pelo presidente Jair Bolsonaro contra o que ele chama de “taxa do sol”, a equipe econômica entregou um documento à Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) defendendo que o atual sistema de compensação fomenta “subsídio cruzado” nas contas de luz e prejudica consumidores sem painéis fotovoltaicos em suas casas.

Em nota técnica conjunta, dois órgãos do Ministério da Economia – a Secretaria de Desenvolvimento da Infraestrutura (SDI) e a Secretaria de Avaliação de Políticas Públicas, Planejamento, Energia e Loteria (Secap) – preveem que os incentivos podem custar R$ 34 bilhões de 2020 a 2035 e classificam como “regressivo” o sistema que está em vigência.

“O atual sistema de compensação fomenta um subsídio cruzado daqueles que não têm painéis solares instalados para aqueles que possuem sistemas fotovoltaicos”, afirmam as secretarias, em documento encaminhado à Aneel em 30 de dezembro. “Considerando que a instalação de equipamentos de GD, em função do elevado investimento inicial, restringe-se ao grupo de consumidores com maior nível de riqueza ou renda, o incentivo é regressivo, distribuindo renda dos consumidores com menor poder aquisitivo para consumidores com mais poder aquisitivo.”

Há apenas cinco anos, segundo o Ministério da Economia, a Aneel imaginava que a geração distribuída atingiria cerca de 500 megawatts (MW) de capacidade instalada em 2019, no “cenário mais otimista”. No entanto, em parte devido à queda de 75% no preço dos painéis solares, terminou o ano passado com pouco mais de 2 mil MW. É o que se esperava alcançar apenas em 2021.

Se nada for feito, sustenta a nota, as regras atuais vão gerar um custo aos consumidores brasileiros de R$ 34 bilhões entre 2020 e 2035. “Valor que poderia ser alocado para outros fins, tais como a construção de mais de 9 mil creches ou para a aquisição de 180 mil ambulâncias”, afirma a nota.

Essa estimativa provém do fato de que, a cada novo mini ou microgerador de energia por meio de painéis fotovoltaicos, é um consumidor a menos para participar do rateio da tarifa de uso do sistema de distribuição (TUSD) – fiação, postes, subestações. Quanto menos gente paga, mais paga quem fica no sistema.

O Ministério da Economia manifesta apoio à alternativa – uma das cinco estudadas pela Aneel – em que nada muda, até 2030, para quem já tem seus painéis instalados. Mas, para quem instala a partir da mudança, os benefícios valem apenas até que se atinja a potência instalada de 4,7 mil MW.

A expectativa é que os investimentos em painéis solares continuem valendo em pena. Só que o retorno, a amortização de tudo o que foi investido demoraria um pouco a mais. Na visão da equipe econômica, o mais produtivo é contratar energia fotovoltaica de forma centralizada, ou seja, por meio dos leilões de energia em que as distribuidoras se organizam em “pool” e compram dos fornecedores mais baratos. De 2015 a 2019, nos leilões do mercado regulado, a fonte solar teve uma queda de R$ 363 para R$ 85 por megawatt-hora negociado. Por isso, uma sugestão da equipe econômica é que se amplie a oferta de energia fotovoltacia por meio de fazendas solares centralizadas, sem subsídios.

Isso mostra que o problema das distribuidoras é outro totalmente diferente, tem a ver com o mercado livre e com o estado dessa rede no mundo real.

 

Roberto Pereira D’Araujo – Diretor do Instituto Ilumina.

Obs: Texto originalmente publicado no site do Instituto Ilumina.

 

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