Como homem de Deus, pastor de almas e crente na salvação, recuso-me a perder as esperanças! A esperança é sagrada, a esperança é uma ordem divina! Pois, que então a cumpramos.

Reverendo GERALDO MUNIZ (*)

Não é novidade para ninguém que debaixo do céu e sobre a terra vivemos tempos muito estranhos.

Assistimos o crescimento das super-potências econômicas, a globalização, o espetáculo da comunicação instantânea e da informação ao alcance de todos através da rede mundial de computadores, a glorificação da sociedade de consumo, o brutal agravamento da má distribuição de rendas e das injustiças sociais, uma civilização que abriga avanços tecnológicos que impressionam e, ao mesmo tempo, abriga toda sorte de mazelas, dentre as quais enfermidades que julgávamos extintas ou controladas (tuberculose e hanseníase, por exemplo), além do advento brutal do Corona Vírus, a Covid 19.

O que está acontecendo com a humanidade? Faz meio século chegamos à lua, avançamos no desenvolvimento de medicamentos que tornaram crônicas doenças que eram sentenças de morte. Países se levantaram do caos econômico e da destruição das guerras e, em muito pouco tempo, despontavam no horizonte da prosperidade e da paz. Homens sábios e bons, verdadeiros estadistas, autênticos espíritos iluminados pela sapiência divina, conduziram seus povos destruídos, falidos, derrotados e humilhados para o progresso, a riqueza e a democracia com claro viés social. Assim foi com os EUA arrasado pelo ‘crash’ de 1929 e o grande Franklin Delano Roosevelt, com o New Deal; também a Itália, saída do fascismo de Mussolini, teve nas mãos do grande De Gasperi o seu condutor para uma nova história de paz e progresso; e Adenauer, o espetacular Chanceler que juntou os cacos de uma Alemanha destruída e desmoralizada depois do diabólico capítulo nazista em sua história, em menos de uma década colocava o povo de Goethe, de Beethoven, dez Martinho Lutero, de Thomas Mann e outras almas elevadas, como uma das dez nações mais poderosas e desenvolvidas.

Criamos armas que numa fração de segundos podem destruir países e matar centenas de milhões de pessoas. O que era uma ficção hoje é tenebrosa realidade. Mas nas ruas nos deparamos com irmãos que já estão destruídos por outras bombas que não as nucleares. Sãos os deserdados de nossa indiferença, do descaso oficial, da ausência de empatia de toda sociedade. Perambulam famintos ou drogados, vestem andrajos, mendigam esmolas, restos e migalhas. E passamos adiante, com a indiferença que irá multiplicar essa situação dramática, desumana e absolutamente vil.

Como homem de Deus, pastor de almas e crente na salvação, na beleza das inesgotáveis reservas de solidariedade do ser humano, na impressionante capacidade de reinvenção de nossa espécie, na incrível possibilidade de soerguimento do caídos, na salvação dos injustiçados e na redenção dos humilhados, recuso-me a perder as esperanças! A esperança é sagrada, a esperança é uma ordem divina! Pois, que então a cumpramos.

Não é possível que estejamos na marcha batida para a vergonhosa cifra de 100 mil irmãs e irmãos brasileiros, do Oiapoque ao Chuí, mortos pela pandemia do Corona Vírus, e se note uma indiferença mesquinha em algumas autoridades, como se tudo estivesse na mais absoluta ordem. Nos deparamos tanto com a falta de uma política nacional clara para enfrentar a Covid 19 quanto com inacreditáveis desvios de dinheiro público nas compras de respiradores ou na montagem de hospitais de emergência e UTIs. Se a justiça dos homens falhar, a de Deus será totalmente implacável!

O Brasil testemunha o esforço heróico de seus médicos, enfermeiros, pessoal da saúde, todos esses homens e mulheres abnegados que correm risco de vida diariamente, lançando-se na divina tarefa de salvar o seu semelhante. Aos nossos irmãos de branco nossas orações, além do respeito, carinho e gratidão.

É um crime e um pecado que não tenhamos uma politica nacional clara, definida, correta, para enfrentar a pandemia. Nova Zelândia, Uruguai, Austrália, Canadá, Portugal e países impensáveis como Angola, nossa pátria-irmã lusófona, apresentam invejáveis resultados enquanto assistimos um descalabro no Brasil. É um crime e é um pecado que o governador Wilson Witzel, do Rio de Janeiro, tenha pagado para uma arapuca chamada IABAS um caminhão de milhões de dólares por oito hospitais e só dois tenham sido entregues, ainda assim, ambos em precárias condições; é um crime e é um pecado que o governador Wilson Miranda Lima, do Amazonas, tenha comprado de uma loja importadora de vinhos (de vinhos!!!) respiradores – que nunca chegaram enquanto milhares de pessoas morriam – a um custo superfaturado; é um crime e um pecado o médico Francisco Eduardo Cardoso Alves mentir descaradamente perante a justiça federal do Piauí dizendo-se do corpo clínico do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, ser desmentido em nota oficial daquela respeitadíssima entidade, e, além de continuar sua pregação contra os protocolos seguidos na luta contra a pandemia, ainda seja candidato à liderança da importantíssima Associação Médica Brasileira (AMB), justamente pela chapa oficial. Por sinal, o mesmo médico prega, em artigo publicado, a proibição de que os membros da comunidade LGBT sejam proibidos de doar sangue, posição desumana, contra a ciência e profundamente preconceituosa;

Onde estamos? Onde os que delinqüem se dão bem? Os maus pregam a maldade e nada lhes acontece? Onde as vidas humanas perderam a majestade e o as espera é uma cova sem identificação num anti-funeral? Esses restolhos humanos, essas anti-pessoas, obviamente, não teme ao Senhor dos Céus, das Terras, dos Mares. A saúde do povo de Deus não pode ser utilizada para a ganância, a corrupção, a promiscuidade dos costumes. Escarnecer sobre milhares de vida que se foram é blasfemar. Os que o fazem não conhecerão o Reino de Deus, mas a eterna condenação pela genocídio de que participam crendo na (impossível) impunidade.

Busco nas sagradas escrituras os exemplos definitivos para o nosso tempo. E o faço em nome de mais de 100 mil irmãs e irmãos mortos pela Covid 19 e de outros milhares que, infelizmente, poderão nos deixar no rastro da pandemia e da incúria governamental.

Atravessaremos o deserto e chegaremos à terra prometida. É o desígnio do nosso Pai e Senhor. A terra da justiça social, da fraternidade, do amor ao próximo, do respeito à vida.

Como, em momento de ira sagrada, Jesus, o filho do Homem, chicoteou os vendilhões do templo, a sociedade brasileira, quiçá toda a humanidade, irá separar o joio do trigo, os bons dos maus, os puros de alma e de sentimentos dos impuros vindos das trevas.

Deus seja louvado! A ele toda honra e toda glória!

(*) Reverendo Geraldo Muniz
Igreja Presbiteriana