Ex-minisro da Saúde diz que Ciro conversa com a direita fazendo uma aposta: Bolsonaro não irá para o segundo turno e por isto quer o apoio da direita, pois prevê que Lula já está no segundo turno e quer ser ele o seu adversário.

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A lógica de Ciro Gomes
por Renato Janine Ribeiro

O comportamento irascível, até temperamental, de Ciro Gomes tem uma lógica: ele acredita que Bolsonaro não irá ao segundo turno em 2022.

Vejam, praticamente todos os analistas entendem que é quase certa uma disputa Lula-Bolsonaro na final das próximas eleições presidenciais.

Ciro parece concordar que Lula está garantido, mas Bolsonaro, com seu governo catastrófico, não. Portanto, a vaga que ele precisa disputar não é a de Lula, mas a de Bolsonaro. Por isso, procura conseguir o apoio do antilulismo, que é uma força poderosa na política brasileira.

Ao assinar o “manifesto dos presidenciáveis” com cinco aspirantes à presidência pela direita, ele aumentou suas pontes com os antilulistas que se tornaram, recentemente, antibolsonaristas. Limpou sua barra com eles.

Há um desacordo enorme entre eles e Ciro, porque o ex-governador do Ceará é contra o neoliberalismo deles: quer desenvolvimento, não quer Banco Central independente etc.

Mas, conversando constantemente com os nomes dessa família política, passando 5 horas com ACM Neto outro dia, ele se prepara para ter apoio da direita no segundo turno.

Não é que ele tenha virado de direita; ele sente que a direita e a extrema-direita estão fracas.

Que a direita está fraca, é notório. Somados, seus candidatos – Alckmin, Meirelles, Alvaro Dias – não chegaram a medíocres 7%. Já o campo progressista, com Haddad, o próprio Ciro e Boulos, somou 42% – enquanto a extrema-direita, com Bolsonaro, Amoedo e Cabo Daciolo, chegava a espantosos 49,8%.

A chance de um dos cinco que assinaram o documento com Haddad – a saber, Doria, Eduardo Leite, Mandetta, Luciano Huck e Amoedo – ir para o segundo turno, mesmo que se unam em torno de um único nome, é mínima.

Os postulantes pela direita (ou “centro democrático”) continuam fracos nas intenções de voto. Mas isso é problema deles, não de Ciro. A novidade de Ciro é que ele entende que também Bolsonaro estará fraco nas urnas, depois de morrer bem mais de meio milhão de brasileiros, de mais de metade da população viver em “insegurança alimentar” (eufemismo para fome) e de a economia só não chegar ao fundo do poço porque pode afundar ainda mais.

Ou seja, é inútil, nesta hora, Ciro disputar os votos progressistas com Lula ou o candidato do PT. Melhor assegurar a simpatia, a não-hostilidade dos nomes fracos da direita e aparecer como o homem forte que poderá suceder a Bolsonaro. Talvez haja até um cálculo discreto de que, depois de um falso machão na presidência, a firmeza de Ciro, que não hesita em ser agressivo para além da conta, poderá ajudar a conquistar eleitores que cravaram o nome do atual presidente não por ideologia, mas por seu perfil de destemido.

Essa é uma aposta inteligente. É arriscada e não sei se tem o dedo de marqueteiros, ou se resulta da intuição de um político que nunca teve medo de nada, e portanto não vai ter medo de correr riscos.

*Renato Janine Ribeiro, ex-ministro da Educação (2015), professor de filosofia, cientista político, escritor e colunista brasileiro.