Em artigo no DM, o presidente da AGI, jornalista Valterli Guedes, critica o sabujismo do presidente Bolsonaro aos Estados Unidos, no caso dos navios iranianos.

 

Confira a íntegra do artigo:

A diplomacia vira-lata

*Valterli Guedes

 

O episódio da retenção dos navios iranianos no porto de Paranaguá é ilustrativo da diplomacia vira-lata do governo Bolsonaro. Durante a ditadura militar-civil (1964-85), tal política, caracterizada pelo alinhamento automático aos EUA, prevaleceu. Fazia sentido. O de gratidão, pois às vésperas de primeiro de abril uma frota da marinha americana rondava a costa brasileira para apoio, caso o Governo Goulart resistisse. Mas nada impediu que, durante encontro com o presidente americano, diante do pleito, então já bastante surrado, de autorização para uma base militar em Alcântara, no Maranhão, Geisel respondesse:

Não, me cria problema com os milicos”. Com Bolsonaro, Alcântara virou presente, logo reduzido a mimo certamente devido à reação militar. Base militar, não. Base para lançar satélites já é um exagero e tanto. Torço para que nossos militares, bastante preparados, do que o general Hamiltom Mourão é prova, convençam o presidente a mais uma vez recuar. Uma qualidade Bolsonaro demonstra cultivar: humildade ao aceitar contra-ordem de seus ministros.

Movido por instinto, Jair Bolsonaro sequer compreende que, “na prática, a teoria é outra”. Sua primeira viagem ao exterior foi, claro, para abraçar Donald Trump, a quem chamou de “meu irmão”. Antes, despachou o filho que instintivamente imagina vocacionado para a Diplomacia, com a missão de inaugurar, antes que qualquer nativo o fizesse, a campanha presidencial americana de 2020. Devidamente adestrado, porque já teria fritado hambúrgueres (por sinal inovando, porque se trata de uma iguaria assada numa chapa, e não frita), com a inscrição “Trump 2020” num boné e a certeza de que estaria ‘abafando”. Era, sabe-se agora, o ensaio para fazer do filho, tão logo chegasse à maioridade prevista em lei, embaixador do Brasil nos Estados Unidos.

A intimidade alardeada autoriza os simples mortais a imaginarem o pronto abastecimento e a liberação dos navios iranianos. E que bastaria um simples telefonema, de irmão pra irmão. Bloqueio? Que nada! Os navios trouxeram uréia, necessária ao Brasil, e retornariam levando enormes cargas de milho, cuja exportação, todos sabem, é muito importante. Onde fica, além disso, o tão alardeado apoio ao produtor? Haja esforço, ministra Tereza Cristina! Mas não é só. A balança comercial com o Irã nos é amplamente favorável. Nem seria necessário ser um irmão para aquiescer.

O deslumbramento do Presidente é preocupante, quando o assunto são as relações bilaterais com os EUA. Precisa ser cuidado, data vênia, pela psiquiatria. Vejamos: Trump nem deu bola para a posse de Bolsonaro. Não compareceu nem mandou representante à altura. Nessa toada, chegará ao fim do mandato sem botar os pés em solo brasileiro. Não é necessidade. É inhambú na capanga. Já a Coreia do Norte impôs respeito. Trump fez três longas viagens ao encontro se Kim Jong-un. E até manifesta seu orgulho de ser o primeiro presidente dos EUA que pisou o chão norte-coreano. Uma, entre muitas outras provas, de que o desastroso complexo vira lata, na Diplomacia, em matéria de auto-estima é terrivelmente devastador. Senão para o presidente, porque aparenta ser incurável, caso perdido, ao menos para a parcela de brasileiros e brasileiras dotados de senso do ridículo.

*Valterli Guedes é Jornalista e Advogado.