Pesquisas mostram que além da perda de mais de 55 mil vidas, o covid19 está afetando diretamente a renda dos brasileiros, e está levando os mais jovens a pensarem em desistir de se manter na faculdade.

Pesquisa veiculada na sexta-feira, 26;06, pelo jornal Valor Econômico, revela a pandemia de Covid-19 afetou negativamente a renda de 71% dos brasileiros. O dado foi levantado pelo Instituto Travessia. O levantamento constatou que, nos últimos quatro meses, os rendimentos “diminuíram pouco” para 35% da população. Um grupo formado por 25% dos entrevistados, contudo, disse que eles “diminuíram muito” nesse período. Por fim, outros 9% relataram ter ficado sem renda como resultado da crise sanitária, cujo marco, no Brasil, deu-se com a confirmação do primeiro caso, em 26 de fevereiro, em São Paulo.

É uma situação dramática e que pode  piorar no segundo semestre. O FMI projeta uma queda de 9,1% do PIB e há quem considera a estimativa ainda modesta. O fato é que a crise sanitária agravou os efeitos da crise econômica que vêm desde o impeachment de Dilma Rousseff. Nesta sexta, o IBHE divulgou que o número de desempregados no país subiu para 11,2 milhões na primeira semana de junho. O contingente de ocupados se manteve em 83,7 milhões, dos quais 13,5 milhões foram afastados do trabalho devido ao distanciamento social.

O Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos) aponta também outra injustiça: a classe média e os mais pobres pagam mais impostos que os ricos. O Brasil é um dos poucos países do mundo que não taxam o lucro dos bancos e nem tem um imposto sobre grandes fortunas. Resultado: o 1% mais rico paga muito menos impostos do que os 99% da população. A criação de um imposto sobre lucros e dividendos no Brasil poderia levar a um aumento de R$ 22 bilhões a R$ 39 bilhões na arrecadação e ajudar na redução da desigualdade social, de acordo com um estudo divulgado pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada.

Jovens desestimulados

Sem aulas, sem renda e tendo que lidar com a ansiedade em relação ao futuro. Esse é o retrato trazido pela pesquisa Juventudes e Pandemia do Coronavírus, que ouviu mais de 33 mil jovens de todas as regiões do país.

Os dados são preocupantes. Quase 30% dos jovens disseram ter pensado em abandonar os estudos quando a pandemia passar. E quase metade daqueles que estão se preparando para o Enem admitiram a hipótese de desistir do exame.

Entre os que trabalham, quatro em cada 10 indicam ter diminuído ou perdido a sua renda. E cinco em cada dez jovens lidam com a perda de renda de suas famílias.

O levantamento foi feito remotamente pelo Conselho Nacional de Juventude, o Conjuve, e outras instituições parceiras, no mês de maio, e atingiu a faixa etária entre 15 a 29 anos.
A metodologia da sondagem envolveu grupos juvenis em todas as etapas, inclusive na elaboração das perguntas, difusão dos questionários e posterior análise dos dados.

O vice-presidente do Conjuve e coordenador da pesquisa, Marcus Barão, destaca que o Brasil tem hoje a maior geração de jovens da história do país, um quarto da população brasileira.

“Com a pandemia, tudo se agrava. O futuro da população é colocado em risco. E essa pesquisa aponta que não só o processo educacional foi interrompido, mas esse contexto da crise sanitária, de um isolamento forçado e dos riscos a quem tem que trabalhar e não pode ficar isolado, ou dependendo de um auxílio emergencial, esse conjunto de fatores, tem um impacto significativo na população jovem”, avalia.

Ele lembra que antes da pandemia, esses brasileiros já lidavam com inúmeros desafios, como a taxa média de desemprego, em 27,1%, mais do que o dobro dos 12,2%, apontados pelo IBGE para a população em geral.
A estudante Isabella Nery, de 20 anos, moradora de Pitangui, no centro oeste de Minas Gerais, expressa bem o sentimento captado pela pesquisa. Ela concluiu o ensino médio em 2018, depois de um ano conturbado com crise na educação e perda de conteúdo letivo.

Em 2019 não se sentiu pronta para tentar ingressar na universidade e começou a se planejar para 2020. “Mas aí, em março e abril começou essa bagunça na área da saúde. E se eu disser que isso não abalou o meu estado psicológico eu vou estar mentindo. Porque, por mais que eu estudo online, o isolamento social mexe muito com a cabeça da gente e tirou o meu foco total dos estudos. E além da crise na área da saúde, a gente também vive uma crise política constante, com a indefinição sobre o Enem. Então para mim não fazia sentido mais se empenhar em algo que eestá totalmente indefinido”, desabafa.

A maior parte dos jovens que participou do levantamento está no ensino médio ou na faculdade. Entre os que estudam, oito em cada dez responderam realizar algum tipo de atividade remotamente.
O acesso à tecnologia não foi listado como a principal dificuldade enfrentada nesse momento e sim o equilíbrio emocional e a capacidade de organização para estudar. A pesquisa mostra que os jovens se sentem sem apoio das instituições para cumprir com essa nova dinâmica.

Seis em cada 10 consideram que as instituições deveriam priorizar atividades que os ajudem a lidar com as emoções nesse momento: principalmente ansiedade, tédio e impaciência, sentimentos citados como os mais marcantes no período de isolamento social.

O vice-presidente do Conjuve acrescenta que os gestores precisam olhar esses dados como uma base para a elaboração de políticas públicas. Marcus Barão alerta que sem atenção para a juventude, haverá perdas, inclusive econômicas, para o país.

A pesquisa mostra ainda que 72% dos jovens ouvidos acreditam que a pandemia vai piorar a economia brasileira e 34% estão pessimistas em relação ao futuro.

No entanto, as respostas mostram também confiança na capacidade global da ciência e da educação: 96% acreditam na descoberta da vacina contra o coronavírus e que isso será uma ação importante para a retomada pós-pandemia,  44% dos jovens ainda acham que a sociedade vai reconhecer mais os educadores e 46% prevêem que a ciência e a pesquisa terão mais prestígio e investimentos.

 

Falta timing do governo federal

O cenário apresentado pelas pesquisas mostra que o governo federal tem um papel importante como motor da retomada do crescimento econômico, isto, no entanto, não se apresenta no horizonte próximo do ministro da Economia, Paulo Guedes. Até o momento, apenas 27% dos recursos para o combate ao covid19 foram disponibilizados. Estados e municípios reclamam falta de recursos para dar conta dos gatos extras com os problemas trazidos pelo coronavírus. Micro, pequenas e médias empresas ainda não viram a cor do dinheiro prometido pelo governo federal, que deveria estar disponível via BNDES e outros bancos oficiais.

Quanto mais a pandemia avança no número de contaminações e mortes, mais difícil será a retomada da economia. O Brasil fica marcado como local inseguro para negócios, a ponto da União Europeia e os Estados Unidos barrar vôos oriundos do país.

O único mantra do governo tem sido o corte de gastos, as reforças que tiraram direitos trabalhistas e a privatização de empresas públicas. A análise do FMI, e os próprios números da economia real mostram que esta caminho não está dando certo, pois o desemprego aumenta, as indústrias estão reduzindo a capacidade de produção e o comércio registra igualmente diminuição nas vendas.

São muitos os sinais para serem ignorados. É preciso que o governo federal leia com atenção.

 

Com informações do Dieese, Ipea, CUT, Valor Econômico