Saída de Jovair Arantes do PTB rumo ao MDB abre temporada de coptação de lideranças que integraram o chamado “tempo novo”, que governou Goiás de 1999 até 2018.

Marcus Vinícius

O fato político da semana foi a filiação do ex-deputado federal Jovair Arantes no MDB. A iniciativa de Jovair se dá mais por necessidade do que por uma reacomodação de forças. Foi  tomada das suas mãos a direção estadual do PTB pelo presidente nacional da sigla, Roberto Jefferson. Jovair não tem interesse de se aproximar do governo de Ronaldo Caiado (DEM), ao invés disto, preferiu fazer uma aposta no MDB.

Jovair e o filho e deputado estadual Henrique Arantes trocaramo PTB pelo MDB e sinalizou apoio à reeleição de Iris

A ida de Jovair para o MDB indica um novo rearranjo de forças com consequências para as eleições de 2020? Sim. É um grupo que soma  na reeleição do prefeito Iris Rezende. O próprio Jovair Arantes deixou claro seu apoio a Iris, lembrando que já havia apoiado a sua candidatura no segundo turno das eleições de 2016. Mas e em relação a 2022?  Jovair elogiou o desejo do presidente do MDB, o ex-deputado federal Daniel Vilela, de chegar ao Palácio das Esmeraldas. Destacou a sua juventude e ideias novas. Estaria sendo iniciada aí uma parceria que pode atrair outros líderes do tempo novo? Uma ponte para um palanque MDB-PSDB contra o DEM e aliados?

Goiás vive um momento sui generis na política.  Quem venceu as eleições (Ronaldo Caiado) não ficou maior depois da posse no governo. Quem perdeu (Marconi Perillo) não está morto e enterrado, e quem se sobressaiu nas urnas (Daniel Vilela) ainda não representa uma alternativa real à sucessão estadual.

Eleições de Marconi Perillo em 1998, 2002, 2010 e 2014. Fotomontagem site O Popular

Outros nomes geram  expectativa de poder. O principal deles é o senador Vanderlan Cardoso (PP), que saiu fortelecido de 2018 ao derrotar Lucia Vânia e Marconi Perillo, e ficar à frente de Jorge Kajuru (PRB).

Vanderlan tem se movimento em todos os pólos. Tem parcerias com prefeitos do MDB, como Gustavo Mendanha (Aparecida de Goiânia), quanto sinaliza entendimento com adversários como Divino Lemes (PSD), de Senador Canedo.

Enquanto Vanderlan age, ainda não há que se falar em “Caiadismo”.  O primeiro ano de administração do governador Ronaldo Caiado (DEM) não tem sido pródigo em notícias positivas para o Estado; a soma das dívidas da gestão anterior com a recessão econômica e a paralisia do governo federal praticamente travaram investimentos em Goiás.

Marconi e Lúcia eram favoritos em 2018 na disputa de duas vagas ao Senado. Ele terminou em quinto, ela em terceiro, Kajuru em segundo e Vanderlan em primeiro

O marconismo, por sua vez, que deveria ser o principal pólo de oposição a Caiado, tem feito pouco para ocupar o espaço. A ausência do seu principal líder, o ex-governador Marconi Perillo, diminui o impacto das ações deste agrupamento na política estadual.

Marconi se impôs um auto-exílio em São Paulo, desde a derrota para o Senado em 2018, quando ficou em quinto lugar, atrás dos senadores Wilder Morais (DEM), Lúcia Vânia (PSB) e dos eleitos Jorge Kajuru (PRB) e Vanderlan Cardoso (PP).

Em 1998 o PMDB (MDB) “morreu gordo”. Dos 247 prefeitos no Estado, o partido governista  e seus aliados tinham cerca de 200. Somente 14 prefeitos ligados ao PP, PTB, PFL e PSDB sustentaram a candidatura de Marconi. Muitos prefeitos oposicionistas apoiaram a candidatura de Iris Rezende (MDB) no primeiro turno.

Naquela eleição o PMDB  e aliados elegeram 11 dos 17 deputados federais e 25 dos 41 estaduais, além da vitória de Maguito  Vilela ao Senado. O Marconismo vencedor em 1998 cooptou os principais quadros peemedebistas, e virou a correlação de forças na Assembleia Legislativa, e Marconi Perillo assumiu em 1 de janeiro de 1999 com maioria na Casa. O ocaso tucano, no entanto, foi pior que o emedebista. Os principais nomes do “tempo novo” perderam as eleições. A Assembleia Legislativa teve renovação de 60%, e na Câmara Federal idem, deixando sem mandato pesos pesados do marconismo como Lúcia Vânia, Jovair Arantes, Giuseppe Vecci, Raquel Teixeira, Demóstenes Torres, Roberto Balestra, Francisco Oliveira, Eliane Pinheiro, Sandes Júnior, Thiago Peixoto, Marcos Abrão, Fábio Sousa entre outros.

O “caiadismo” ainda não conseguiu avançar nas bases do “tempo novo”, aliança formada por PSDB, PP, PTB, DEM que deram quatro vitórias para Marconi Perillo e uma para Alcides Rodrigues  na disputa pelo governo do Estado.

Durante as eleições havia expectativa de uma composição entre Caiado e Lúcia Vânia que não ocorreu. Esta aproximação foi ventilada na formação do seu governo, o que também não se concretizou. Lúcia deixou o PSB. Seu destino seria o retorno ao PSDB?

Após oito mandatos, Roberto Balestra perdeu a direção do PP para Wilder Morais e Alexandre Baldy. Recomeço será candidatura à prefeitura de Inhumas

Outro peso-pesado do tempo novo – deputado federal Roberto Balestra (PP) -,também não foi aproveitado pela gestão caiadista, embora Balestra, que teve oito mandatos, tenha sido um dos fundadores da Bancada Ruralista ao lado do próprio Caiado. O ex-deputado, um dos fundadores do PP no Estado,  perdeu o controle da legenda a época para o então senador Wilder Morais, e depois para o a época ministro das Cidades Alexandre Baldy. Sua principal base eleitoral é Inhumas, aonde o prefeito Abelardo Vaz indica que não deve ser candidato à reeleição. Seria a vez de Balestra disputar o executivo local? Pelo PP ou noutra sigla?

Vilmar Rocha deve respaldar nova candidatura de Francisco Jr. à prefeitura de Goiânia pelo PSD

Dentre os fundadores do “tempo novo”, o ex-deputado federal Vilmar Rocha parece ser o quadro mais lúcido. Ele previu em 2018 o fracasso da chapa governista. Alertou que os candidatos ao governo e ao Senado deveriam ser indicados pelas bases e pela sociedade, mas prevaleceram os candidatos do bolso do colete do governador Marconi Perillo e deu no que deu. Vilmar preside o PSD no Estado, tem boas ligações com a direção nacional do partido e deve bancar a candidatura do deputado federal Francisco Valle Júnior à prefeitura de Goiânia.

 

O PSB de Eliaz Vaz e Jorge Kajuru não escondem interesse na vereadora Dra. Cristina (PSDB), que já recebeu convite do PDT para ser candidata a prefeita de Goiânia

O PSDB ainda não tem um candidato oficial em Goiânia. Esta poderia ser uma tarefa para os ex-governadores Marconi Perillo e José Éliton, mas ambos não deram indicativos que tem interesse no confronto com o prefeito Iris Rezende. A vereadora Dra. Cristina, que foi candidata a deputada estadual e teve quase 20 mil votos na Capital seria uma aposta para renovação do partido, que desde o ano 2000 não tem candidato em Goiânia. Mas Cristina está sendo cortejada tanto pelo PDT da deputada federal Flávia Morais e do deputado estadual Karlos Cabral, quanto pelo PSB  do deputado federal Eliaz Vaz, ele próprio um possível candidato à sucessão municipal.

Ulysses Guimarães, o “Senhor Constituinte”, dizia que partido político é como time de futebol: se não entrar em campo não tem torcida e não ganha campeonato.

Marconi, Lucia, Balestra e outros nomes do tempo novo como Guiseppe Vecci, Raquel Teixeira devem colocar o time em campo, a exemplo de Jovair e Vilmar, sob pena de serem engolidos no processo político que se inicia em 2020 e tem seu ápice em 2022.