Extinção da Rádio MEC e fim do fornecimento de remédios para doentes crônicos no SUS, são pelejas que valem a pena o senador enfrentar.

Marcus Vinícius

O radialista e agora senador Jorge dos Reis Kajuru é conhecido pelo estilo carbonário e verve ácida. Desde os tempos em que montou a sua primeira equipe de futebol, chamada “Feras do Kajuru” , ele sempre demonstrou que não tem papas na língua, e que se lança sem destemor nas causas em que acredita.

Há muitas causas defensáveis, principalmente aquelas estão acima das acima das idiossincracias políticas.

Durante o seu mandato como vereador, por exemplo, Jorge Kajuru engajou-se em favor das vítimas do diabetes. Pelejou, como dizem os gaúchos, para garantir a implantação em Goiânia do primeiro centro especializado no atendimento de portadores de diabetes de Goiás. O Centro de Apoio ao Portador de Diabetes (CAPD), proporciona cirurgias metabólicas que garantem aqueles que tem problema de diabetes, reestruturar sua vida, tendo condições de emagrecer nos casos de obesidade.

Kajuru também é vítima desta doença, e daí o seu interesse na criação do CAPD. Mas agora Kajuru está noutro patamar, e no Senado, pode continuar ajudando os diabéticos e outros portadores de doenças crônicas. Sua missão agora – se aceitá-la -, será a de sensibilizar o presidente Jair Bolsonaro (PSL) a revogar a decisão do Ministério da Saúde de suspender 19 contratos firmados com laboratórios de produção de remédios e uma vacina que eram distribuídos gratuitamente para a população. São medicamentos utilizados em tratamentos para câncer, diabete, Parkinson e transplantes, renais crônicos, cardiopatias entre outras enfermidades, e deixarão de ser entregues pelo Sistema Único de Saúde ( SUS ).

Esta medida afeta diretamente a vida de 30 milhões de brasileiros. e são produzidos por meio de projetos de Parcerias para o Desenvolvimento Produtivo (PDPs). O sistema funciona da seguinte forma: os laboratórios brasileiros fazem parcerias com os donos das patentes para produzi-los no país. Com isso, conseguem fornecer ao SUS com um valor em média 30% menor do que os praticados no mercado.


A distribuição gratuita de remédios é um projeto de Estado, que tem sido perseguido por várias administrações federais. No governo do presidente Itamar Franco (PMDB), o então ministro da Saúde, Henrique Santillo deu o pontapé inicial para a criação do programa de remédios genéricos, que viria a ser consolidada pelo ministro José Serra, com a quebra de patentes e a Lei dos Genéricos no governo de Fernando Henrique Cardoso e que continuou nos governos Lula, com o projeto da Farmácia Popular e no de Dilma Roussef, que consolidou a parceria entre laboratórios públicos (FioCruz, Iquego e outros) e privados.

Além de fornecer medicamentos para doenças como câncer, diabetes e doenças inflamatórias, o sistema fomenta o desenvolvimento tecnológico do país, gera empregos e garante a autonomia nacional frente a indústria farmacêutica internacional. Um bom exemplo é a produção da vacina para a febre amarela que, por ser fabricada no Brasil, pôde ser distribuída com mais facilidade com o aumento da doença que teve dois surtos entre 2016 e 2018.

O fim desta parceria para produção de remédios para doentes crônicos para o SUS, acredito é uma situação que merece o melhor empenho do senador eleito por Goiás.

Outra decisão do presidente Bolsonaro, que ouso dizer, merece a atenção do legislador, é a portaria que põe fim à Rádio MEC AM, que foi fundada em 1923, pelo professor Edgar Roquete Pinto, considerado o Patrono da Comunicação de Massas no Brasil.
Kajuru já teve sua Rádio K fechada uma vez, e sabe muito bem a dor que isto causa nos profissionais e nos ouvintes.
A rádio MEC, cuja sigla significa Música, Educação e Cultura” funciona no Rio de Janeiro. Em seu site, a emissora afirma contar com “cerca de 50 mil registros e produções” e “um patrimônio de gravações de depoimentos que vão de Getúlio Vargas a Monteiro Lobato, passando por crônicas de Cecília Meireles e Manuel Bandeira, sendo portanto é um marco na comunicação no Brasil e continua prestando um relevante serviço na divulgação da música, da literatura e da cultura nacionais.

Penso que estes dois atos são por demais insensatos para serem ignorados pelo mundo político. Mas sugiro ao senador Kajuru refletir sobre eles. Na política é preciso sensibilidade para tratar certos temas, e talvez ninguém seja mais sensível aos assuntos que aqui tratei do que aquele que já sentiu na pele as dores que este artigo trata.

Enquanto finalizo este texto minha comadre, cujo filho sofre de diabetes do tipo 1, protesta nas redes sociais contra a insensibilidade do governo federal:

“Tiraram dos pobres os direitos trabalhistas.

Acabaram com o direito à aposentadoria.

Agora tiram os remédios.

É crime ser pobre neste país?”

Eis a questão senador. Eis a questão.