O presidente da Agência Nacional da Vigilância Sanitária (Anvisa), Antonio Barra Torres, prestou depoimento  terça-feira (11) à CPI da Covid do Senado Federal. Diferentemente do atual ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, que depôs na quinta (6), Barra Torres procurou sustentar postura técnica e não esquivar-se das perguntas.

Suas respostas tiveram repercussão entre cientistas e lideranças políticas. O presidente da Anvisa falou sobre a ineficácia de medicamentos do chamado “kit covid” do tratamento precoce, defendido por Bolsonaro. Por outro lado, defendeu distanciamento social e uso de máscaras, combatidos por governo federal. Além disso, confirmou a fala do ex-ministro Luiz Henrique Mandetta, que acusou Bolsonaro de tentar mudar a bula da cloroquina para receitar aos brasileiros contra o vírus.

 

Barra Torres confirma que médica ligada ao Planalto pressionou para mudar bula da cloroquina

Barra Torres também apontou para a existência de um “ministério paralelo” bolsonarista. Entre os membros dessa estrutura estariam negacionistas como os filhos de Bolsonaro. O presidente da Anvisa chegou a ser provocado por senadores, já que seu depoimento poderia desagradar o presidente da República. O depoente, porém, afirmou que suas respostas foram “rigorosamente verdadeiras” e que “não sabe se provocaria reações”. “Não tenho controle sobre isso. Minha reação é continuar vivendo como sempre fiz. Não modifico em absolutamente nada (…) Vou manter minha conduta”, disse.

Tratamento precoce
Já no final do depoimento, questionado pelo senador Fabiano Contarato (Rede-ES), o presidente da Anvisa reiterou o que considera equívoco na indicação indiscriminada do chamado “kit covid”. O tratamento precoce foi alvo de propaganda de Bolsonaro, como “receita” para prevenir contágio e efeitos do novo coronavírus. O kit é composto por medicamentos como cloroquina, hidroxicloroquina, ivermectina e azitromicina, que são substâncias consideradas ineficazes contra o vírus e sujeitas a provocar efeitos colaterais severos. “Não tomei quando tive covid (…) Também não existe uso profilático de nada disso (…) Não existe comprovação (…) Tratamento precoce é uso de máscaras, álcool gel, água e sabão”, foram algumas das frases de Barra Torres.

O senador Fabiano Contarato, por sua vez, não deixou de criticar a conduta da Anvisa. Ao citar a legislação, lembrou que cabe à agencia fiscalizar esse tipo de ação e “charlatanismo”. “A Anvisa realizou fiscalização de distribuição de kit covid sem eficácia? A Anvisa precisa fiscalizar, não precisa ser provocada. Então, temos omissão da Anvisa. Se induzem a população com o kit covid, se passam que a cloroquina salva, e não é isso, faltou responsabilidade com a ciência”, disse.

Erro e má fé
A bancada do PT no Senado resumiu a participação de Barra Torres na CPI com tópicos que, na avaliação da oposição, : “Tentativa de fraude na bula da cloroquina é confirmada; ‘Kit Covid’ é ineficaz; Governo não contribui para alcançar consenso técnico em torno da vacina russa; Vacinação é essencial; Atitudes de Bolsonaro são equivocadas”.

Sobre a falta de emprenho de Bolsonaro no combate à covid-19, o presidente da Anvisa afirmou que os ataques às vacinas, em especial contra a CoronaVac, foram erros. Ele também chegou a admitir ter cometido “erro pessoal” por estar presente em uma manifestação no Planalto, em março de 2020. Na ocasião, o presidente estimulou a aglomeração de apoiadores que pediam por golpe de Estado, contra a democracia.

 

Um dos ataques de Bolsonaro à CoronaVac, que representa mais de 70% das doses aplicadas no Brasil.

Defesa desastrosa
Embora mais tímida do que em sessões anteriores da CPI, a chamada “bancada da cloroquina” voltou a fazer defesas convictas dos medicamentos ineficazes alardeados por Bolsonaro e seus apoiadores. Hoje a intervenção foi do senador Telmario Mota (Pros-RR). Ele seguiu o padrão de seus pares de bancada governista, citando exemplo pessoal aleatório, sem critérios científicos. “Tratei minha covid com dipirona, ivermectina, cloroquina e azitromicina. Tratei no começo”, disse.

Entretanto, dois ex-ministros que compareceram à CPI da Covid, Mandetta e Nelson Teich, explicaram que a covid-19 se manifesta com maior gravidade em 5% dos infectados. Logo, não é possível afirmar, a partir de experiências pessoais, que um medicamento funciona ou não. São necessários estudos cegos e randomizados. Muitos já foram feitos com os medicamentos do “kit covid”. Todos apontam que eles funcionam tanto quanto placebos.

Mas Mota prosseguiu e, assim como o bolsonarista Luiz Carlos Heinze (PP-RS), insistiu que existe um “complô internacional” contra a cloroquina. Em um ataque às vacinas, Mota apelou ainda para a desinformação sobre quantas vacinas foram aplicadas. Como a rede bolsonarista na internet, falou sobre número total de vacinas, sem levar em conta a proporção de vacinados em relação à população, nem a aplicação de segunda dose. “Agora querem culpar o presidente? O Brasil é o quarto país no mundo que mais vacina, perdendo apenas para EUA, Índia e Reino Unido. Esse cara que é genocídio?”. Mas, na relaidade, a vacinação no país é inferior à média global de 8,34% de vacinados. No Brasil, são pouco mais de 7%. Proporcionalmente, o Brasil está atrás de 69 países que já vacinaram sua população.

Repercussão
“Ouvimos na CPI o depoimento do presidente da Anvisa, Barra Torres. Ele confirmou a reunião para mudar a bula da cloroquina, enumerou os participantes do chamado ministério paralelo, além de ter defendido as vacinas e criticado aglomerações”, avaliou o senador Renan Calheiros (MDB-AL), relator da Comissão Parlamentar de Inquérito.

Já o senador Humberto Costa (PT-CE), médico e ex-ministro da Saúde, classificou a participação de Barra Torres como “uma boa surpresa”, inclusive ao admitir que “errou quando, em março de 2020, participou, ao lado de Bolsonaro, de um ato pró-governo ao lado de Bolsonaro”.

Impeachment
Nas redes sociais, lideranças diversos partidos se manifestaram. “BOMBA! Barra Torres, presidente da Anvisa, confirmou, agora na CPI da Covid, que houve reunião no Palácio do Planalto para tentar a mudar a bula da cloroquina e recomendar seu uso contra a Covid. Isso é grave e criminoso!”, disse o deputado federal Marcelo Freixo (Psol-RJ).

“Barra Torres, presidente da Anvisa, confirmou na CPI que o governo Bolsonaro tentou MUDAR A BULA da cloroquina para incluir tratamento da Covid. Tentativa criminosa de fraudar a realidade. O Brasil está pagando o preço em vidas. Impeachment já!”, prosseguiu seu companheiro de partido, o líder do Movimento dos Trabalhadores sem Teto (MTST), Guilherme Boulos. A deputada federal Jandira Feghali (PCdoB-RJ) defendeu a saída imediata de Bolsonaro. “Antonio Barra Torres da Anvisa confirma proposta de alteração da bula da cloroquina em reunião no Planalto. CPI da COVID reunindo provas de que Bolsonaro é um GENOCIDA e que precisa sair agora da presidência.”