O Dia dos Povos Indígenas, erroneamente chamado de “Dia do Índio”, será sempre um momento de luto para os Uru-Eu-Wau-Wau. Em 18 de abril de 2020, o povo indígena de Rondônia perdeu um dos guardiões de seu território, Ari Uru-Eu-Wau-Wau.

Por Murilo Pajolla – Brasil de Fato 

Aos 33 anos, ele foi encontrado morto com sinais de espancamento na linha 625 de Tarilândia, distrito de Jaru (RO), perto de uma das entradas da Terra Indígena (TI) Uru-Eu-Wau-Wau, a maior do estado.

Ari integrava a Equipe de Vigilância Indígena que monitora a ação de invasores e protege os limites da reserva. Lideranças acreditam que essa foi a motivação do assassinato e lançaram uma campanha cujo mote é uma pergunta ainda sem resposta: “Quem matou Ari Uru-Eu-Wau-Wau?”.

Ari Uru-Eu-Wau-Wa no Rio Jamari durante fiscalização no território indígena; há um ano, guardião da TI foi encontrado morto com sinais de espancamento – Equipe de Audiovisual Uru-eu-wau-wau/Jupaú

Um ano sem respostas

Com máscaras e o distanciamento adequado, indígenas e apoiadores se reuniram nesta segunda-feira (19) no Tribunal Regional Federal (TRF) de Porto Velho para cobrar a federalização das investigações.

O protesto ocorreu em frente ao prédio da Justiça federal em Rondônia / Divulgação/Kanindé

Manifestaram-se com danças e cantos tradicionais e carregaram uma cruz com o nome de Ari. A tinta vermelha, lançada sobre uma lona em frente ao prédio, simbolizou as vidas perdidas na luta indígena.

“Exigimos saber quem matou o Ari e quem mandou matar o Ari. Sabemos que tem muita gente importante por trás disso que incentiva a invasão de terra”, sustenta Txai Suruí, coordenadora do Movimento da Juventude Indígena de Indígena de Rondônia.

“O próprio governo federal deveria ser réu porque é conivente com o que vem acontecendo. Mais do que conivente: incentiva a invasão dos nossos territórios”, assevera.

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Além da organização de jovens, participaram do protesto a Associação de Defesa Etnoambiental Kanindé, a Associação Jupaú dos Uru-Eu-Wau-Wau e a Associação das Guerreiras Indígenas de Rondônia.

Nos dias anteriores à manifestação, o grupo espalhou outdoors em Porto Velho, Ariquemes, Buritis, Jaru, Ji-Paraná, Cacoal, Pimenta Bueno e Vilhena, como parte de uma campanha levada adiante também nas redes sociais.

Organizações indígenas e de apoiadores espalharam outdoors por Rondônia, como parte de uma campanha levada adiante também nas redes sociais / Divulgação/Kanindé

“O caso ficou quase um ano parado na Polícia Civil e até agora a gente não tem resposta de nada. Estamos pedindo que isso passe para a Polícia Federal, que é quem deveria ter feito a investigação desde o começo. A competência para tratar sobre a questão indígena é da União”, reivindica Txai Suruí.

“Temos pedido isso o tempo todo ao Ministério Público Federal (MPF), à própria Polícia Federal. Temos alertado para as invasões que estão ocorrendo na área o tempo todo, a pressão que os povos vêm sofrendo. O que a gente quer é que se faça justiça”, reforça a líder da Kanindé, Neidinha Suruí.

“Que se pegue os mandantes, que se pegue quem matou o Ari. A gente sabe que está ligado às invasões”, completa.

“Na pandemia, o invasor não fica de quarentena”

Diante do desmonte dos órgãos federais de fiscalização, a Equipe de Vigilância Indígena na qual atuava Ari se tornou um órgão fundamental na garantia da integridade da TI Uru-Eu-Wau-Wau.

Com 1,8 milhão de hectares, a reserva é o maior trecho de floresta amazônica preservada em Rondônia. Além dos Uru-Eu-Wau-Wau, abriga os povos Amondawa, Oro Win e Juma, além de grupos em situação de isolamento voluntário.

Os recursos hídricos e a terra fértil colocam o local no radar de grileiros, madeireiros e garimpeiros, principalmente a partir de 2019.

“Sabemos que houve aumento de 600% de invasões em terras indígenas, e isso inclui a Uru-Eu-Wau-Wau. E na pandemia o invasor não fica de quarentena”, alerta a coordenadora do Movimento da Juventude Indígena de Indígena de Rondônia.

“Ari era um defensor da Terra Indígena. Monitorava sua terra através da tecnologia, utilizando drones. Era um guerreiro, um líder, uma pessoa importante para o seu povo. Era também um grande amigo meu”, lamenta.

Professor e agente ambiental, Ari deixou esposa e dois filhos, de 12 e 14 anos. O primo dele, Awapy Uru-Eu-Wau-Wau, coordena atualmente a Equipe de Vigilância e também corre risco de vida.

Em fevereiro, o Brasil de Fato noticiou a expulsão de grileiros flagrados em um acampamento no interior da Terra Indígena. “Eu venho sofrendo ameaças de morte por tomar a frente dessa proteção. Sou ameaçado há quatro ou cinco anos”, relatou, na época, Awapy.

Edição: Poliana Dallabrida