Prefeito Iris Rezende continua sendo a principal referência política em Goiânia e pode ser convocado para mais uma disputa na Capital.

À espera de Iris

Marcus Vinícius

O que é o velho, e o que é o novo na política? As urnas renovaram em quase 60% o Congresso Nacional e na mesma medida a Assembleia Legislativa do Estado de Goiás. Por enquanto nada de novo se viu.

Em Brasília, o toma-lá-dá-cá continua.  O presidente Jair Bolsonaro (PSL-RJ) teve que prometer R$ 40 milhões em emendas parlamentares para cada deputado e cada senador, e ainda três ministérios para os partidos que compõe o chamado Centrão, para ver aprovados os projetos que seu governo tem interesse.

A “nova política”, cantada em verso e prosa por Bolsonaro e seus aliados desmanchou-se no ar.

O erro, de sua excelência, o presidente, está no discurso e no método. Na politica os atos valem mais do que discursos e o diálogo tem mais força do que os decretos.

Em Goiânia o prefeito Iris Rezende Machado (MDB) deveria estar vivendo o inverno da sua vida política. Aos 86 anos, com mais de 60 deles dedicados às causas públicas, Iris deveria estar experimentando os seus últimos dias no palco político. Mas não está.

Quem teve o prazer de presenciar Bibi Ferreira num palco sabe o por quê a nossa musa do teatro continuou  atuando e cantando até à sua morte, aos 96 anos. Bibi era uma força viva, trazia em si as chamas dos deuses do teatro. O show onde canta o repertório da notável Edith Piah não é só uma homenagem à grande cantora francesa, é, antes de tudo, uma apoeótica declaração de amor à música e ao que é belo.

Assim como Bibi Ferreira, o prefeito Iris também tem muito domínio de palco. Conhece todos os atores, domina o texto,tem muitos recursos, atua sem ensaiar, porque quem sabe faz ao vivo.Nesta semana o DG perguntou a um conhecido personagem goianiense, o pastor Oídes José do Carmo, o que pensava sobre a sucessão municipal. Responsável pelo Campo Madureira da Assembleia de Deus ele foi sucinto: “Estou esperando o Iris”.

O prefeito, como é de conhecimento geral, professa a fé evangélica, e por isto é muito respeitado neste segmento religioso.  Iris, porém, nunca foi fundamentalista. Sempre conviveu respeitosamente com outros credos e por isto tem o respeito de católicos, espíritas,esotéricos, umbandistas e eleitores de outras crenças.Além do pastor Oides, tem muita gente esperando Iris. Sendo ou não candidato à reeleição, ele é o maior eleitor do pleito de 2020.

Ao longo de sua carreira, Iris sempre mostrou ousadia. Foi o mais jovem candidato a vereador em 1958, quando foi eleito o mais votado na Capital; em 1962, seria o deputado estaduais mais jovem, e também o mais votado. Em 1965, o prefeito mais jovem eleito em Goiânia. Em 1982, foi eleito governador aos 49 anos, com a maior votação 80% dos votos válidos, número que ainda não foi batido. Voltou em 1990, disputando em oposição ao antigo aliado, o governador Henrique Santillo (PMDB), e conseguiu vencer. Em 1998 e 2002, teve duas derrotas que poderiam encerrar sua carreira, uma para o governo, outra para o Senado, mas resolveu recomeçar tudo de novo, sendo eleito prefeito de Goiânia em 2004 e reeleito em 2008. Ele perderia mais outras duas disputas ao governo do Estado, uma em 2010, outra em 2014, e em 2016 arriscou-se mais uma vez numa disputa apertada onde foi eleito para o quarto mandato prefeito de Goiânia.

Iris não tem mais nada a provar a ninguém, e talvez, nem a si mesmo. Mas se ainda está no palco da politica é porque se sente bem e se sente útil. O Brasil vive o momento profetizado pelo cineasta baiano Glauber Rocha no filme “Terra em Transe ” (1967): Um país dividido politicamente, eticamente apodrecido, com altos níveis de intolerância política, religiosa e racial,  que é entregue nas mãos de um fanático religioso, reacionário e fascista.

O resultado do estrago está aí. Hoje o Banco Central divulgou nota em que prevê crescimento negativo no primeiro trimestre. Traduzindo: a economia encolheu. O país está parado e ao invés de pôr a primeira engatou a marcha à ré.

Depois de um começo difícil, o prefeito Iris Rezende  conseguiu fazer a lição de casa. E a lição número um é que não há governo sem dinheiro. Com a experiência de décadas no exercício do poder, o prefeito organizou as finanças. Colocou na pasta um técnico qualificado, o atual secretário Alessandro Melo, que reviu rotinas, reorganizou métodos, motivou a equipe, combateu a sonegação, e o resultado tem sido o aumento real no valor arrecadado, e a liberação de créditos à prefeitura através de bancos oficiais e internacionais, que levaram ao anúncio de R$ 1 bilhão em investimentos para o biênio 2019/2020.

Iris pôs em marcha obras estruturantes como a continuação da Avenida Leste-Oeste, construção de viadutos e trincheiras para melhorar o trânsito, 30 Cmeis, uma nova maternidade na região oeste, o BRT-Norte-Sul e a continuidade do Parque Macambira Anicuns.

O momento atual exige reflexões. A aventura bolsonarista e lavajatista lançou o país no abismo. É necessário responsabilidade das forças políticas. O discurso (falso) moralista deu mais uma vez no que deu. Jânio Quadros (1961) prometeu varrer a corrupção, e acabou varrido da política. Collor de Mello (1990-1992) disse que iria acabar com os marajás e foi denunciado pelo próprio irmão.

Bolsonaro prometeu uma nova política e foi traído pela própria língua ao revelar um toma-lá-dá-cá com o seu ministro da Justiça Sérgio Moro, a quem combinou antes das eleições a promessa de uma das cadeiras no STF (Supremo Tribunal Federal). Coincidência ou não, Moro pôs Lula na cadeia, que era o único candidato que poderia derrotar Bolsonaro.

A vivência de Iris ainda é necessária na politica. Hoje, quando escrevemos este artigo, o prefeito recebeu no Paço Municipal uma comitiva de Ribeirão Preto (SP). O prefeito e os secretários foram conhecer a experiência de Goiânia no trato com as finanças, por recomendação de técnicos do Ministério da Economia.É por isto que Oides, e outros esperam por Iris. Ainda há de se esperar dele outra apresentação no palco da política.